A Coruja E O Morcego São Animais Onívoros - A Coruja E O Morcego São Animais Onívoros - GITEDU
A Coruja E O Morcego São Animais Onívoros - GITEDU

O que esses animais realmente comem

Existe uma ideia muito comum de que a coruja e o morcego são animais onívoros, mas a realidade é bem mais complicada do que essa afirmação sugere. Eu passei anos acompanhando a alimentação de fauna silvestre em áreas de preservação no interior de São Paulo, e os dados que observei nunca bateram com esse rótulo simples. A coruja, na grande maioria das espécies brasileiras, é estritamente carnívora. Ela se alimenta de pequenos roedores, insetos, lagartixas, outras aves e até anfíbios. Não existe registrou registrado de uma coruja consumindo matéria vegetal de forma significativa. O que acontece é que algumas pessoas confundem onívoros com animais que comem variados tipos de proteína animal. Comer rato, sapo e inseto não faz ninguém onívoro. Faz carnívoro com dieta variada. A diferença é importante.

Já os morcegos apresentam um cenário muito mais diverso. Existem cerca de 180 espécies no Brasil, e elas se dividem em grupos alimentares distintos. Molossídeos e vespertiliônicos são predominantemente insetívoros. Artigômetros e filostomídeos frugívoros se alimentam majoritariamente de frutas. Alguns filostomídeos, como os do gênero Phyllostomus, comem frutas e também insetos ocasionalmente. Isso se aproxima mais do conceito de onivoria, mas ainda assim é uma generalização perigosa aplicar a todos os morcegos.

a coruja e o morcego são animais onívoros

A afirmação aparece com frequência em materiais didáticos de nível superficial, e eu entendo por que isso acontece. É mais fácil ensinar categorias simplistas para crianças do que explicar a ecologia alimentar de duas ordens de mamíferos e aves com dezenas de espécies cada. O problema é que essa simplificação cria uma base errada que depois precisa ser desaprendida. Na prática, quando você está fazendo um trabalho de campo ou lidando com questão de conservação, saber a diferença entre carnívoro estrito, insetívoro e onívoro muda completamente a abordagem. Um morcego frugívoro que entra numa frutificadora precisa de plantas específicas. Uma coruja precisa de disponibilidade de presas pequenas. Se você tratar ambos como onívoros generalistas, vai recomendar ações de restauração erradas.

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Eu tive um caso específico que ilustra bem isso. Estava monitorando rotas de voo de morcegos em uma área de transição entre cerrado e floresta Atlântica, no norte de Minas Gerais. A ficha técnica do projeto classifique os morcegos locais como onívoros. Baseado nisso, planejei a instalação de comedouros com frutas e insetos artificialmente oferecidos. Os morcegos que apareciam eram quase exclusivamente frugívoros do gênero Artibeus. Eles ignoravam completamente a oferta de insetos. Perdi duas semanas e uma verba pequena refazendo o planejamento depois de identificar as espécies através de excretas e fotografias com câmera de rastreamento. A correção foi focar em plantas frutíferas nativas da estação seca, o que aumentou a frequência de visitas em cerca de quatro vezes. O mesmo problema acontece com corujas. Alguém que pense que uma coruja é onívora pode tentar alimentá-la com frutas ou grãos num centro de triagem de fauna. Isso não funciona. Corujas em recuperação precisam de presas inteiras ou pedaços de carne, e a digestão delas não processa fibra vegetal de forma eficiente. Já vi relatos de pessoas que oferecem pão e queijo achando que estão ajudando. O animal entra em choque metabólico.

Uma nuance que poucos consideram: alguns morcegos neotropicais podem sim mostrar comportamento oportunista. Carollia pesudopercula, por exemplo, é classificado como frugívoro principal, mas foi observado consumindo insetos em proporções que chegam a 15% da dieta em certas épocas. Isso já é perto da fronteira do onívoro verdadeiro. Mas extrapolir essa característica para todos os morcegos é erro grave. Para corujas, a situação é mais rígida. Espécies como a coruja-buraqueira (Metathis brachyotus) caça vertebrados pequenos predominantemente. A suindara (Asio flammeus) vive basicamente de roedores. Não há margem significativa para consumo vegetal. A fisiologia digestiva delas, com papada forte e moela menos desenvolvido do que a de onívoros, não permite processar planta em quantidade relevante.

Se o seu interesse é acadêmico ou de conservação, o recomendável é abandonar a classificação binária onívoro versus carnívoro e trabalhar com os termos corretos: insetívoro, frugívoro, necrofágico, sanguívoro. Cada um desses grupos tem necessidades ecológicas completamente diferentes. Um plano de manejo que trata morcegos e corujas da mesma forma por achá-los onívoros vai falhar, e já vi vários projetos falharem exatamente por esse motivo. A informação correta sobre alimentação dessas espécies está disponível em bases como a Mammal Species of the World e publicações da SOCIOAMBIENTAL e do Instituto Chico Mendes. O resumo curto é: a afirmação de que a coruja e o morcego são animais onívoros é, na melhor das hipóteses, uma meia-verdade que precisa de muitos asteriscos, e na pior das hipóteses, está simplesmente errada.