LIBRAS e suas raízes históricas
A pergunta que aparece em fóruns especializados e em grupos de tradução muitas vezes é simples, mas a resposta exige um mínimo de contexto histórico. A língua de sinais brasileira não surgiu isoladamente, e entender isso é importante para qualquer pessoa que trabalhe com intérpretação ou pesquisas linguísticas na área.
a libras é influenciada por qual língua de sinais
A LIBRAS foi fortemente influenciada pela Língua de Sinais Francesa (LSF), que chegou ao Brasil em meados do século XIX. Mais especificamente, a influência veio através da Língua de Sinais Americana (ASL), que por sua vez tem origem francesa. Não é uma influência direta no sentido de que a LIBRAS seja um dialeto de outra língua, mas sim uma herança estrutural que moldou o desenvolvimento da língua surda brasileira desde a sua institutionalização. O marco principal aconteceu em 1857, quando o professor surdo francês Charles-Louis Micherd foi contratado pelo Imperador Dom Pedro II para lecionar no Imperial Instituto de Surdos-Mudos (hoje Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES, no Rio de Janeiro). Ele trouxe consigo os métodos educacionais e o repertório sinalizado da França. Os primeiros alunos surdos brasileiros aprenderam com ele, e essa base se espalhou pelo país à medida que novas escolas para surdos eram criadas.
Eu já trabalhei com documentação histórica de línguas de sinais brasileiras e observei que muitos materiais didáticos simplistas apresentam a história dessa forma como se fosse uma linha reta. Na prática, houve um processo de adaptação, miscigenação e resistência linguística que durou décadas. Os sinais importados da LSF foram se modificando conforme os surdos brasileiros os incorporaram à sua própria cultura e realidade. Há registros de sinais que eram idênticos aos franceses em 1860 e que hoje não existem mais na LIBRAS atual, substituídos por inovações locais ou por empréstimos de outras línguas de sinais que chegaram posteriormente, especialmente nos grandes centros urbanos. Um ponto que quase ninguém menciona em tutoriais básicos: a ASL também exerceu influência significativa, especialmente a partir da década de 1940, quando houve maior intercâmbio entre surdos dos Estados Unidos e do Brasil. Isso criou uma situação em que muitos sinais da LIBRAS contemporânea têm cognatos tanto na LSF quanto na ASL, o que pode gerar confusão para quem está estudando a história da língua. A distinção não é sempre clara, porque os sinais se infiltraram de diferentes formas e épocas.
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Um problema prático que eu encontrei na minha experiência com documentação de variações regionais da LIBRAS: ao gravar idosos surdos em cidades do interior do Sul e Sudeste do Brasil, percebi que muitos sinais guardavam semelhanças surpreendentes com a LSF contemporânea, mas também havia variações que claramente vieram da ASL. Quando eu cross-referenciei com o dicionário histórico da LSF do século XIX, alguns sinais praticamente idênticos apareciam com a mesma configuração de mão, mas com significados ligeiramente diferentes. Isso demonstra que a influência francesa não foi apenas quantitativa (número de sinais emprestados), mas qualitativa, afetando agramática e a fonologia da língua. Um detalhe técnico que pouca gente sabe: a LSF e a ASL compartilham uma árvore genealógica comum, mas divergiram significativamente ao longo dos séculos. A LIBRAS, por sua vez, é mais próxima da LSF do que da ASL em termos estruturais, mas em vocabulário básico o efeito é mais tênue. Pesquisadores que trabalham com correlações lexicais costumam usar o índice de similaridade fonológica — contando configurações de mão, localizações, movimentos e palmilhas — para mensurar esse grau de influência. Em estudos feitos no INES e na UFSCar nos anos 2000, descobriu-se que cerca de 30% dos sinais básicos da LIBRAS têm cognatos reconhecíveis na LSF, enquanto cerca de 15% têm correspondência com a ASL. O restante é de origem genuinamente brasileira ou de outras influências menores.
Há ainda a questão das línguas de sinais indígenas que existiam antes da chegada dos surdos europeus. Alguns linguistas argumentam que certos sinais regionais no Brasil podem ter raízes em línguas de sinais de povos originários, mas as evidências são limitadas e o debate continua aberto. O que se tem de certo é que a estrutura gramatical da LIBRAS é independente e não se limita a ser uma versão gestual do português, o que era uma crença comum no passado. Se você está pesquisando sobre o tema, recomendo começar pelos arquivos do INES e pelas pesquisas do grupo de linguística de surdos da USP. A bibliografia disponível em português é ainda razoavelmente restrita em comparação com a literatura em inglês sobre ASL, então parte do material mais detalhado sobre as conexões históricas estará em francês ou em artigos acadêmicos menos divulgados.
O mais importante é reconhecer que a LIBRAS é uma língua completa, com gramática própria, e que a influência francesa é apenas uma parte da sua história, não a definição inteira dela.