O que acontece quando tentamos explicar isso para alunos
Ensinando astronomia básica já faz um tempo, e a pergunta aparece sempre do mesmo jeito. A resposta curta é que a Terra não produz luz própria. Ela reflete a luz do Sol. Mas a parte que as pessoas costumam errar vai além dessa definição de livro didático.
a terra é um astro luminoso ou iluminado
A Terra é um astro iluminado. Ponto. Ela não tem reações nucleares no núcleo que gerem radiação eletromagnética visível. O que ela tem é um sistema geológico ativo, sim, com calor interno e vulcanismo, mas isso não se compara ao que define um astro luminoso, como uma estrela. A luz que vemos vindo da Terra, principalmente quando olhamos para ela do espaço, é luz solar refletida. O albedo médio da Terra gira em torno de 0,30. Isso significa que cerca de 30% da radiação solar que atinge o planeta é refletida de volta para o espaço. O resto é absorvido e depois reemitido como radiação infravermelha. Eu já perdi conta das vezes que vi gente confundir brilho com produção de luz. Tem um aluno que começou a falar sobre o brilho da Terra vista da Lua e sugeriu que deveria haver algo no planeta gerando esse brilho próprio. Aí a gente chega no conceito de opalação, que é basicamente o equivalente terrestre do que os astrônomos chamam de oposição. Quando a Terra está na fase cheia vista de fora, ela reflete muito mais luz do que em outras fases. Não é produção. É geometria e superfície refletiva. Em uma missão orbital onde você precisa modelar o fluxo luminoso que chega a um sensor, esse efeito pode adicionar de 10% a 30% de ruído no sinal se você não compensar. Eu já passei por isso em simulações de imageamento e tive que ajustar o modelo de reflectância usando dados de albedo espectral por banda, senão a calibração ia por água abaixo.
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Um detalhe que poucos mencionam: a Terra tem uma contribuição mínima de emissão própria no infravermelho médio e longo. Superfície a 288 K de temperatura média emite de acordo com a lei de Planck, pico por volta de 10 micrômetros. Isso não é luz visível, então tecnicamente não entra na definição de astro luminoso no espectro visível, mas em sensoriamento remoto e astronomia infravermelha esse sinal é significativo. Se você está tentando detectar um objeto próximo à Terra usando instrumentos no infravermelho, esse "brilho térmico" próprio do planeta pode mascarar alvos fracos. A solução prática que eu uso é filtrar nas bandas onde o contraste entre a reflexão solar e a emissão térmica favorece o alvo, geralmente no curto-infravermelho de onda (SWIR) para reflexão e no térmico (LWIR) apenas quando o objetivo é caracterização superficial. Outro ponto que as pessoas pegam mal: a diferença entre astro luminoso, iluminado e satélite. A Terra é iluminada. A Lua também. Estrelas são luminosas. Satélites artificiais são objetos que refletem luz solar e, em alguns casos, têm fontes próprias de luz artificial ou térmica, mas isso não os torna luminosos no sentido astronômico. Já vi material didático error ao classificar satélites como "astros iluminados" sem fazer a distinção entre corpos celestes naturais e artificiais. Não é frescura, é precisão conceitual que importa quando você vai aplicar isso em problemas reais de mecânica ou fotometria.
Se você quer testar isso na prática, a forma mais direta é observar a fase da Terra vista da Lua. Imagens da missão Lunar Reconnaissance Orbiter mostram claramente o gradiente de iluminação. Em oposição, o brilho é máximo. Nas outras fases, cai drasticamente. Não há variação interna de emissão que justifique o padrão. É puramente geométrico e dependente do ângulo de fase. A conclusão prática é que, sim, a Terra é iluminada. Não é luminoso. O resto é detalhe técnico que só importa quando você precisa de precisão além do nível introdutório.