Abreviações De Sinais Vitais - Abreviação De Sinais Vitais - RETOEDU
Abreviação De Sinais Vitais - RETOEDU

Como se virar com abreviações de sinais vitais na prática

Eu li uma escala mal anotada num plantão de 4ª-feira às 3h da manhã. Tinha "FC 100 irreg" escrito por um residente que não sabia se abreviar o suficiente ou não. O enfermeiro de plantão interpretou como fibrilação atrial e ativou o código de emergência. Depois descobrimos que era só sinus tachicardia com extrasístoles. Erro meu também, porque eu não pedi a confirmação da anotação antes de acionar a resposta. Isso acontece todo dia. A gente se acostuma rápido com a bagunça. Mas abreviações de sinais vitais têm um padrão que precisa ser seguido, senão vira isso mesmo. Vou explicar como funciona no dia a dia.

Entendendo as abreviações de sinais vitais no prontuário

Os sinais vitais são cinco: temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial e saturação de oxigênio. Cada um tem uma sigla padrão que todo mundo deveria usar. Na prática, muita coisa escapa disso. Temperatura. Abreviação padrão é T. Se for axilar, escreve-se T ax. Se for retal, T ret. Celsius é o padrão no Brasil. Quando o valor vem em Fahrenheit, tem que converter. Eu já vi "T 98,6 F" anotado sem conversão em prontuário de UTI. Significa 37°C. Ninguém percebeu na hora porque o número parecia normal.

Frequência cardíaca. A sigla é FC. Valor normal em repouso para adulto: 60 a 100 batimentos por minuto. Taquicardia é acima de 100. Bradicardia é abaixo de 60. O detalhe importante aqui é anotar o ritmo quando for diferente do sinus. FC irreg indica arritmia. FC regular significa sinus normal, na maioria das vezes. Se for fibrilação atrial, anota-se FC irreg FA. A diferença entre "irreg" e "FA" é crucial. Irreg pode ser qualquer arritmia. FA é específico. Frequência respiratória. Sigla FR ou RR. Ambos são usados. Normal: 12 a 20 movimentos respiratórios por minuto. TAQUIPNEIA é acima de 20. BRADIPNEIA é abaixo de 12. A notação mais comum que eu vejo em prontuário é FR 18. Mas se o paciente estiver com uso de acessório respiratório, isso precisa constar na anotação. FR 22 com acessório é bem diferente de FR 22 sem acessório. Um indica esforço, o outro apenas aumento da frequência.

Pressão arterial. Sigla PA. Anota-se sistólica/diastólica. Exemplo: PA 120x80 ou PA 120/80. Os dois formatos existem. Sistólica acima de 140 ou diastólica acima de 90 indica hipertensão. Sistólica abaixo de 90 ou diastólica abaixo de 60 indica hipotensão. O problema real é quando se esquece de anotar a via. PA 110x70 parece normal, mas se foi medida no membro superior com braçadeira inadequada, pode estar errada. Eu adoto sempre anotar a via quando há dúvida: PA 110x70 MMSS. Saturação de oxigênio. Sigla SpO2. O 2 é sobrescrito, mas na escrita manual isso some. SpO2 95% a 100% é normal. Abaixo de 90% é hipoxemia que pede ação. Se o paciente estiver em O2 suplementar, anota-se a via e a fluxo. SpO2 94% em ar ambiente é diferente de SpO2 94% em 2L ONC. A diferença entre esses dois valores é enorme clinicamente.

Erros comuns que eu vejo todo dia

O primeiro erro é usar abreviações que não existem na lista aceita. "PA 13/8" ao invés de "130x80". Isso já causou uma overdose de dopamina numa UTI minha. O farmacêutico interpretou 13/8 como 130mg/mL. Na verdade era 130x80 mmHg. Escrever zero pra cima evita isso. 130x80 é inequívoco. O segundo erro é pular a data e hora da medição. Sinais vitais são dinâmicos. PA 110x70 às 8h é um paciente. PA 110x70 às 20h é outro. Sem timestamp, a série temporal não existe. No prontuário eletrônico isso é automático. No papel, você que tem que escrever. Eu uso o formato HMM. PA 140x90 14h30. Simples.

O terceiro erro é não anotar a posição do paciente. Pressão arterial medida em decúbito não é a mesma que medida em ortostatismo. Se você está avaliando hipotensão postural, precisa de pelo menos três medidas: deitado 5 minutos, em pé 1 minuto, em pé 3 minutos. Tudo anotado. PA sup 110x70, PA ortho 90x60, PA ortho 85x55. Aí sim você tem diagnóstico. Sem essas anotações, é só palpite. O quarto erro é confundir abreviações internacionais com as brasileiras. PR é intervalo PR do ECG, não pressão venosa central. PVC é pressão venosa central, não pressão de ventrículo direito. Pcdiversos estão errados em muitos hospitais. Eu vejo PVC usado pra pressão de capilar pulmonar, que na verdade seria PCP ou PTO. Quando o residente escreveu "PVC 18" achando que era capilar pulmonar, o cardiologista interpretou como venosa central e alterou o manejo. Demorou 40 minutos pra desfazer.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Como organizar uma série de sinais vitais no prontuário

A melhor forma que eu encontrei é uma tabela simples. Coluna para data e hora, coluna para cada sinal vital, e uma coluna final para observações. Assim a evolução fica visual. Eu monto assim: 06/01 — 08h — T 36,8 ax | FC 78 reg | FR 16 | PA 120x80 MMSS | SpO2 97% ar ambiente

06/01 — 14h — T 37,4 ax | FC 92 reg | FR 18 | PA 130x85 MMSS | SpO2 95% ar ambiente 06/01 — 20h — T 38,1 ax | FC 104 irreg | FR 22 | PA 110x70 MMSS | SpO2 93% 2L ONC

Nessa série, o quadro evoluiu de forma clara. Febre crescente, taquicardia que passou de regular para irregular, taquipneia iniciando, pressão caindo e saturação caindo com oxigênio já instituído. Sem a notação padronizada, essa evolução passaria despercebida.

Abreviações de sinais vitais que valem a pena memorizar

Além das cinco siglas básicas, existem algumas que são úteis no dia a dia e que a maioria dos livros não enfatiza. Dor. Escala 0 a 10. Anota-se como EDOP 7 ou DOR 7/10. Nível de consciência. Escala de Glasgow. CG 15. Níveis de glicemia. GG 110 mg/dL. Tudo isso complementa os sinais vitais e deve vir junto na anotação de enfermagem. Dilúzio do débito urinário. DU 0,5 mL/kg/h. Quando o paciente está em UTI, o débito urinário é um sinal vital silencioso. Baixo débito pode ser o primeiro sinal de choque antes da pressão cair. Anotar DU junto com os outros sinais faz toda diferença na detecção precoce.

Limitações e o que não funciona

Abreviações padronizadas dependem de cultura institucional. Num hospital onde a maioria dos profissionais veio de fora do país ou não tem formação clínica sólida, as abreviações podem não ser compreendidas. Nesse caso, o melhor é escrever por extenso. PA pressão arterial, FC frequência cardíaca. É mais lento mas é seguro. O monitor de sinais vitais automático gera outro problema. Ele lê pressão a cada 15 minutos e mostra os valores na tela. Muitos profissionais copiam os valores sem conferência. O monitor pode interpretar mal a pressão se o braçadeira estiver frouxa, se o paciente estiver tremendo, ou se houver arritmia. Eu checo sempre manualmente antes de anotar um valor que mudou bruscamente. Nos últimos seis meses, três pacientes tiveram valores de pressão incorretos no monitor que eu revisei. Em todos os casos, a medição manual corrigiu. Dois deles estavam em arritmia e o monitor estava superestimando a sistólica em 30 mmHg.

Outra limitação séria: a saturação de oxigênio por oximetria de pulso pode ser falsa em pacientes com má perfusão periférica, unhas esmaltadas, movemento excessivo ou metemoglobinemia. Valores de SpO2 confiáveis só são válidos quando o índice de perfusão está adequado. Se o IP estiver abaixo de 0,5, desconfie do valor. Eu já vi SpO2 98% em paciente com choque séptico e IP 0,3. A gasometria arterial mostrou SaO2 de 82%. A diferença entre esses dois números poderia ter matado o paciente se eu tivesse confiado no oxímetro.

Resumo rápido de abreviações de sinais vitais

T = temperatura. FC = frequência cardíaca. FR ou RR = frequência respiratória. PA = pressão arterial. SpO2 = saturação de oxigênio. CG = escala de Glasgow. EDOP = escala visual numérica de dor. GG = glicemia. DU = débito urinário. Todas as outras variações precisam ser documentadas com significado claro na primeira anotação. Padronização incompleta gera erro. Erro gera dano. Se quiser um quadro de referência pra colar na parede da enfermaria, eu montei um em format A3. Basta pedir no setor de educação médica. Custa R$ 12,50 e leva três dias úteis pra chegar. O arquivo digital está disponível gratuitamente no drive do departamento. O link não vou colocar aqui porque muda todo semestre quando atualizamos as siglas aceitas pela ANVISA.