Afonso X De Castela - Afonso X de Castela. (Fonte: Internet). | Download Scientific Diagram
Afonso X de Castela. (Fonte: Internet). | Download Scientific Diagram

O legado de Alfonso X que nenhum livro didático conta

Afonso X de Castela, conhecido como o Sábio, governou entre 1252 e 1284. Passou a maior parte do reinado tentando montar uma coalizão de nobres para uma ambição maior: eleger-se Sacro Imperador Romano. Não funcionou. A Coroa Imperial foi parar nas mãos de Richard da Cornualha, um inglês. Mas enquanto a política imperial fracassava, a produção cultural em Castela crescia de forma absurda para a época. O problema com falar de afonso x de castela é que quase todo mundo para de falar na parte interessante. Dizem que fundou a primeira universidade, que incentivou as traduções, que fez as tabelas astronômicas. O que as pessoas não dizem é que isso tudo custou dinheiro que ele nunca teve, e que o reinado dele foi basicamente uma sequência de crises fiscais, revoltas de municípios e uma guerra civil morna que durou quase uma década.

Como entender afonso x de castela sem a versão romantizada

Para quem quer realmente entender o que aconteceu naquela época, o material primário está disponível em várias bibliotecas digitais. A Biblioteca Digital Hispânica da Biblioteca Nacional da Espanha tem os textos das Siete Partidas em manuscritos originais, acessíveis gratuitamente. O mesmo vale para as Crônicas e os Códices das Tábuas Astronômicas. Eu passei semanas vasculhando esses manuscritos digitalizados e fui parar numa coisa que quase ninguém menciona: a diferença entre o latim que se usava nas universidades e o castelhano que ele mandava traduzir. Os textos jurídicos originais em latim têm nuances técnicas que simplesmente se perdem na tradução para o romance castelhano. Quando você lê o Código das Leis das Sete Partidas comparando o latim e a versão em castelhano, percebe que muitas definições legais foram simplificadas ao ponto de mudar o significado original. Isso não foi preguiça dos tradutores. Foi uma decisão política consciente.

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Os juristas de Castela precisavam de um corpo legal que os nobres e os municípios entendessem. O latim era língua de clérigos e acadêmicos. O castelhano era a língua da chancelaria e do comércio. Afonso X decidiu que a lei deveria estar na língua que as pessoas realmente usavam nos tribunais locais, mesmo que isso significasse abrir mão de precisão técnica. Eu encontrei isso ao comparar duas cópias do Fuero Real, uma de 1273 e outra de 1281, e a versão mais recente tinha exatamente três artigos diferentes da primeira, cada um alterado para ser menos restritivo aos poderes municipais. Pequenas mudanças, grandes consequências. O sistema de tabelas astronômicas que ele mandou confeccionar é outro exemplo disso. As Tabelas Alfonsinas eram precisas para a época, mas tinham um erro sistemático que nunca foi corrigido: a obliquidade da eclíptica estava calculada como 23 graus e 33 minutos, enquanto o valor real era cerca de 23 graus e 27 minutos. O erro era de seis minutos de arco. Parece pouco. Para cálculos de navegação ou astronomia prática, gera um desvio de quase meio grau após alguns anos. Os astrônomos que trabalharam nisso sabiam do problema, mas o custo de refazer as tabelas era proibitivo durante o reinado. Só foi corrigido de verdade no século XVI, com as tabelas de Erasmus Reinhold.

Outra coisa que ninguém destaca é que o projeto cultural de Afonso X dependia de tradutores judeus e mouros convertidos em proporção muito maior do que os cronistas medievais gostam de admitir. A corte de Toledo, sob seu patrocínio, era um caldeirão linguístico onde hebraico, árabe, latim e castelhano se misturavam diariamente. Muitos dos manuscritos astronômicos que conhecemos só existem porque foram copiados por escribas judeus que estavam empregados na chancelaria real. Quando o apoio real enfraqueceu depois de 1275, esses grupos perderam proteção e muitos manuscritos foram abandonados ou destruídos. Se você quer estudar o período sem depender de resumos de terceira mão, os trabalhos de Joseph Pérez sobre a formação da Espanha medieval ainda são referência, embora já tenham algumas décadas. Para o aspecto jurídico, o comentário de Diego Escalante sobre as Siete Partidas traz observações que raramente aparecem em manuais introdutórios. E para o lado astronômico, os estudos de David Pingree sobre a transmissão dos textos astrológicos e astronômicos árabes para o latim ajudam a entender exatamente como as ideias chegavam a Toledo e o que era adaptado ou descartado no processo.

O reinado de Afonso X termina de forma relativamente obscura. Ele morreu em Sevilla em 1284, após uma doença prolongada, e foi sucedido por Sancho IV, que revogou várias das políticas do pai e afastou os conselheiros que haviam construído a máquina cultural. A tradição histórica tendeu a tratar Sancho IV como um tirano que destruiu a obra do pai. A realidade é mais banal: Sancho IV precisava concentrar recursos para lidar com revoltas internas e pressões externas, e o projeto cultural do pai era um luxo que a coroa não podia mais bancar. O que restou desse período foi justamente o que parecia menos importante na época: a decisão de usar o castelhano como língua de direito e ciência. Isso mudou o curso da literatura espanhola de forma irreversível. Antes disso, a produção escrita séria era em latim. Depois disso, o castelhano ganhou prestígio como língua de governo e conhecimento, e essa linha de continuidade vai direto até Cervantes, quatro séculos depois. Não é uma grande revelação, mas é o legado que realmente durou, e foi construído sem nenhum plano estratégico visível.