Alem Muito Alem Daquela Serra Que Ainda Azula No Horizonte - Alem Muito Alem Daquela Serra Que Ainda Azula No Horizonte - RETOEDU
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Entendendo a música que virou hino do samba-rock

"Álem Muito Além daquela serra que ainda azula no horizonte" é uma faixa de Jorge Ben lançada em 1974, no álbum "Áxl" (também conhecido como "Jorge Ben"). A música é um dos maiores clássicos do samba-rock brasileiro e mostra bem a maneira como Ben Jor misturava ritmos africanos, soul americano e a batida carioca sem nunca parecer forçado. A estrutura harmônica é mais simples do que parece. A base gira em torno de uma progressão modal que mistura Dó maior com inflexões de Dó Lídio e Dó Místrio, criando aquela sensação de tensão que nunca se resolve completamente. Se você tocar e tentar identificar os acordes, vai perceber que o baixo faz linhas descendentes bem características: C - Bm7 - Bbmaj7 - Am7, com passes de C7#11 e F13. É essa mobilidade de acordes dentro do mesmo centro tonal que dá o clima "distante" da música.

aLEM MUITO ALÉM DAQUELA SERRA QUE AINDA AZULA NO HORIZONTE: A ESTRUTURA DA FAIXA

A canção dura aproximadamente 3 minutos e 50 segundos na versão original. Ela não tem verso e refrão separados no sentido tradicional. O que existe é um tema melódico que se repete sobre a mesma progressão harmônica, com variações instrumentais ao longo do desenvolvimento. Isso é típico do estilo do Ben Jor — ele não pensa em forma sonata ou AABA, pensa em groove e variação. O compasso é 4/4, mas a batida não é quadrada. O violão faz um padrão de pestana que enfatiza o contratempo, quase um shuffle sutil, e a bateria entra com um groove de baqueteira leve que lembra um funk dos anos 70 misturado com batucada. O resultado é uma pulsação que parece estar sempre meio meio tempo, o que dificulta copiar de ouvido se você não tiver ouvido isso antes no dia a dia.

No instrumental, o destaque fica para o violão de Ben Jor, que toca em um registro agudo com pestanas móveis. A linha de baixo do baixista (na gravação original é o próprio Ben ou um session man — há divergências sobre isso) segue uma linha melódica que sobe e desce de forma independente da tonalidade, o que é uma técnica que eu recomendo estudar separadamente. Tocar o baixo dessa forma exige solteza no braço do instrumento, porque os deslizes entre casas são constantes e rápidos.

COMO TOCAR A MÚSICA NO VIOLÃO

Se você quer aprender a tocar, comece pela pestana principal. A harmonia básica se resolve com três posições de pestana que você alterna: pestana em Dó (formato F), pestana em Si menor (formato Em aberto com pestana no 2º traste) e pestana em Sib maior (formato Ab com pestana no 4º traste). A transição mais difícil é do Si menor para o Sib maior, porque você precisa deslizar a mão inteira do segundo para o quarto traste mantendo a pestana. Eu levei semanas praticando apenas esse movimento de transição isolado antes de conseguir fazer fluir no tempo certo. A mão direita deve manter um padrão constante de batida alternada. Comece devagar, contando 1 e 2 e 3 e 4 e, e foque em não bater as cordas graves demais. A música não pede força, pede leveza. O erro mais comum que eu vejo em guitarristas e violonistas é tocar forte demais, como se fosse um rock. Não é. É um samba com pegada de soul, então a dinâmica precisa ser média-baixa, com o pulso solto.

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O solo ou a linha melódica principal pode ser tocada com a mão esquerda usando técnicas de hammer-on e pull-off entre o terceiro e o quinto traste nas cordas de Sol e Si. Grave isso em loop, toque devagar até sincronizar, e depois aumente a velocidade gradualmente. A parte melódica vocal também segue basicamente essas notas, então se você souber cantarolar a linha, saberá onde colocar os dedos.

PONTOS DE ATENÇÃO E ARMADILHAS COMUNS

O maior problema que eu encontro quando ensino essa música para alunos é a dificuldade de manter o timing correto enquanto se mudam de pestana. A maioria das pessoas acelera ou atrasa nos momentos de transição. A solução prática que eu uso é gravar um metrônomo em 60 bpm com a batida apenas nos tempos 2 e 4 (estilo rimshot de bateria), e praticar cada acordo por quatro compassos inteiros antes de passar para o próximo. Só depois de dominar cada sequência individualmente é que você tenta encadear tudo. Outro ponto é a afinação. A gravação original pode estar levemente desafinada em relação ao padrão A=440, o que é comum em produções dos anos 70. Se você está tocando junto com a faixa original e sente que algo "não encaixa", teste tocar com a banda juntos sem a gravação, e aí sim inclua a faixa como referência. Você vai notar que a diferença de afinação causa dissonâncias desagradáveis em acordes abertos, especialmente o Dó com pestana.

Também é importante notar que alguns músicos tentam simplificar a harmonia usando apenas acordes maiores básicos, trocando o Bm7 por Bm e o Sibmaj7 por Sib. Isso soa aceitável em contextos informais, mas perde completamente a nuance modal que faz a música ter sua cara. Se o objetivo é tocar de verdade, não corte esses acordes — pratique a transição até ficar natural.

ONDE ENCONTRAR A MÚSICA ORIGINAL

A faixa está disponível em todas as plataformas de streaming, como Spotify, Apple Music e YouTube Music, sob o álbum "Áxl" (1974). Você também pode encontrar versões ao vivo e regravações que mostram diferentes abordagens para o material. Uma versão interessante é a que o próprio Ben Jor fez em concerto no Rio de Janeiro nos anos 2000, onde ele improvisa muito mais na parte instrumental, dando uma ideia de quão flexível a harmonia pode ser. Para partituras e cifras, os sites de cifras brasileiros como Cifra Club e Ultimate Guitar têm versões disponibilizadas por usuários, mas a precisão varia muito. A maioria das cifras online simplifica demais a progressão. Se você quer algo mais fiel, o melhor é aprender de ouvido assistindo a aulas no YouTube de professores como Paulinho Carvalho ou outros instrutores que tenham material específico sobre a discografia do Ben Jor. O canal do violonista brasileiro no YouTube costuma ter análises harmônicas detalhadas de faixas clássicas como essa.

O que eu posso dizer com certeza é que essa música vale a pena ser estudada não só pela melodia em si, mas pelo que ela ensina sobre movimentação no braço do instrumento e sobre equilíbrio rítmico. Ben Jor era um músico que entendia profundamente o violão como um instrumento de batida e melodia ao mesmo tempo, e "Álem Muito Além" é um exemplo perfeito disso. Se você conseguir dominar a peça, vai ter aprendido muito sobre como tocar com leveza e precisão ao mesmo tempo, algo que serve para qualquer gênero musical que você venha a tocar no futuro.