O que são, na prática, os anéis de Malpighi
Os anéis de Malpighi são agregados linfoides que ficam na parede do íleo terminal e, em menor escala, no jejuno. Eles aparecem como elevações ovais ou arredondadas na mucosa, alinhados ao longo da borda antimesentérica do intestino delgado. O nome é clássico de livro de anatomia, mas no dia a dia da patologia e da endoscopia a gente chama de placas de Peyer quando são grandes e confluentes, e de folículos linfoides isolados quando são menores.
Identificando anéis de malpighi em peça cirúrgica ou biópsia
Se você está olhando uma lâmina de H-E de íleo, o jeito mais direto é procurar as vilosidades — que normalmente estão mais curtas e mais largas nessa região — e, logo abaixo da lâmina própria, ver os folículos linfoides com centro germinativo mais claro. Quando eles se agrupam formando uma faixa alongada submucosa, é o padrão das placas de Peyer. A submucosa ali é mais frouxa, o que ajuda a delimitar o conjunto. Se o centro germinativo estiver muito atividade, os linfócitos podem invadir a cripta e confundir iniciante com doença inflamatória intestinal. Fique atento ao contexto clínico antes de fechar diagnóstico. No corte grossinho de peça de ressecção, a gente costuma fazer secções transversais a cada dois centímetros ao longo do íleo terminal. Os anéis se mostram como manchas mais pálidas no bordo livre. Eu já perdi tempo achando que era espessamento de parede ou infiltrado tumoral porque o tecido estava fixado de forma irregular e os contornos estavam borrados. A solução foi pedir secções mais finas e corar com CD20 para confirmar que era tecido linfoide, não fibrose. Levou mais vinte minutos no microtomo, mas salvou o laudo.
Um detalhe que pouca gente menciona: a quantidade e o tamanho desses agregados variam muito com a idade. Crianças e adolescentes têm quantidades maiores e mais proeminentes. Idosos tendem a ter involução fibrosa, então pode parecer que "sumiram", quando na verdade só atrofiam. Se você está avaliando uma peça de adulto mais velho e não encontra os folículos, não desconsidere o diagnóstico rápido — relembre que a ausência não é anormal nessa faixa etária.
Função e relevância clínica
A função principal é imunológica. Os anéis de Malpighi fazem parte do GALT (tecido linfoide associado ao intestino). Eles monitoram antígenos luminais através das células M sobrepostas aos folículos e dirigem a resposta imune local, com produção de IgA secretora e ativação de linfócitos B e T. Isso é relevante porque muitas doenças infecciosas e autoimunes começam ali. Clinicamente, a hiperplasia dessas estruturas aparece em infecções bacterianas e virais, como salmonela, tuberculose intestinal e algumas viroses. Por outro lado, a atrofia pode estar associada a imunossupressão. Em oncologia, linfomas de zona marginal e linfoma associada a enteropatia podem ter os anéis como ponto de origem, o que significa que o patologista precisa estar atento a alterações arquiteturais mesmo em amostras que parecem pequenas e superficiais.
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Na endoscopia digestiva alta, o íleo terminal nem sempre é alcançado, mas quando é, a visualização dos anéis ajuda a confirmar que se está na região correta. Às vezes, o endoscopista pergunta se aquele aspecto de "nesta de abelha" é normal. É. São os orifícios das criptas e os folículos subjacentes. Só preocupante se houver ulceração, sangue ativo ou massa palpável.
Pegadinhas e limites do conceito
O termo "anel" é um tanto enganoso. Na verdade não forma um anel completo ao redor do intestino; é mais frequente na borda antimesentérica. Já vi residente escrever "anel de Malpighi circumferencial" no laudo e depois ter que retificar. Melhor usar "agregado linfóide" ou "placa de Peyer" para evitar ambiguidade. Outro ponto: não confunda com as válvulas conniventes. Estas são pregas mucosas e submucosas que fazem a trama inteira da parede e servem para aumentar a superfície de absorção. Os anéis são estruturas linfoides pontuais ou em faixa, sem relação direta com a absorção. A diferença é simples quando se olha a lâmina, mas em imagens de tomografia sem contraste adequado fica mais difícil.
Se o objetivo é estudar esses agregados de forma quantitativa, a técnica de contagem de folículos em secções seriadas é o padrão-ouro, mas é trabalhosa. Para rotina hospitalar, uma descrição qualitativa com observação de tamanho, presença de centro germinativo e qualquer alteração architectural já resolve a maior parte dos casos. Só recorra à metodologia completa se houver suspeita de linfoma ou pesquisa específica. O material didático que eu costumo recomendar para visualizar bem a arquitetura é o atlas de histologia do intestino, com imagens de íleo em aumento médio e alto. E, se precisar de referências mais atualizadas sobre a imunologia do GALT, há revisões recentes que mostram como a microbiota modulara a formação desses folículos — o que explica por que pacientes pós-antibiótico podem ter padrão diferente de aglomerados linfoides.
Em resumo, saber onde procurar, como descrever e o que não confundir resolve 90% das situações. O resto depende do contexto clínico e, às vezes, de uma imunohistoquímica bem escolhida.