Primeiros socorros no transporte de acidentados
Muita gente acha que levantar um ferido é simples, mas existem várias situações em que isso pode piorar graves lesões existentes ou causar novas danos. O conhecimento básico sobre quando e como mover uma vítima pode ser a diferença entre uma recuperação tranquila e sequelas permanentes.
Quando ao transportar uma vítima é incorreto
O transporte indevido ocorre principalmente em casos de suspeita de fraturas na coluna vertebral, lesões medulares ou fraturas pélvicas. Nestes cenários, qualquer movimentação inadequada pode comprometer nervos e causar paraplegia ou até óbito. Já atendi vários casos onde familiares, tentando ajudar, arrastaram o acidentado pelo braço e causaram agravamento das lesões. A regra geral é clara: não mova a vítima a menos que haja perigo iminente ao redor, como incêndio, desabamento ou risco de atropelamento. Em rodovias, por exemplo, só se deve remover alguém se o veículo estiver pegando fogo ou se houver risco real de explosão do combustível.
Outro erro comum é deixar a vítima sentar ou levantar sozinha após um acidente de trânsito. Mesmo que ela diga estar bem, o choque pode mascarar dores e sintomas. O correto é manter a pessoa deitada, protegendo a cabeça e o pescoço com improvisados estabilizadores, como toalhas enroladas aos lados da cabeça, até a chegada do socorro especializado. No caso de fraturas nos membros inferiores, o transporte deve ser feito com imobilização prévia. Usamos talas improvisadas com tábuas, jornais enrolados ou até caixas de papelão, fixadas com tecidos ou cintos. Se não houver como imobilizar, aguarda-se a equipe médica.
Um erro que vejo frequentemente é a tentação de dar água ou comida à vítima. Em casos de cirurgia de emergência possível, o estômago precisa estar vazio. Além disso, se houver risco de vômito e aspiração, a ingestão de líquidos pode ser fatal. O correto é úmideceu os lábios com um pano molhado, mas não oferecer bebidas. Também é importante não remover capacetes de motociclistas se não houver treinamento adequado. O pescoço pode estar comprometido, e a remoção improvisada pode levar a lesões medulares irreversíveis. Aguarde o corpo de bombeiros, que possui equipamento específico para essa manipulação.
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Sinais de que não se deve mover a vítima
Dor intensa nas costas ou pescoço, formigamento nos membros, incapacidade de sentir ou mover braços e pernas, sangramento pelo ouvido ou nariz após trauma craniano, e deformidades visíveis no tronco são sinais claros de que a coluna pode estar comprometida. Nestes casos, o movimento deve ser estritamente evitado. Quando o transporte for inevitável por risco iminente, a técnica adequada envolve manter a cabeça, pescoço e coluna alinhados durante todo o deslocamento. Duas pessoas devem segurar firmemente os lados da cabeça enquanto uma terceira puxa suavemente a vítima pelos pés, mantendo o corpo reto como um tronco. Esta manobra minimiza a rotação vertebral.
Em situações de evacuação em massa, como em desastres naturais, o critério muda: o risco de permanecer no local supera o risco do transporte. Mesmo assim, o ideal é usar pranchas rígidas ou colchões de vácuo quando disponíveis. Na falta deles, técnicas de arrasto com proteção cervical improvisada são alternativas melhores que o carreamento pelos membros. O aprendizado prático em cursos de primeiros socorros faz toda a diferença. Simulações com manequins ajudam a internalizar os movimentos corretos e evitar pânico nas horas críticas. Profissionais de saúde repetem estes procedimentos centenas de vezes até que se tornem automáticos.
A legislação brasileira prevê responsabilização civil e criminal em casos de negligência no socorro, mas também protege quem age de boa-fé. O Código Civil estabelece que o bom samaritano que presta socorro não responde por danos causados durante o ato, desde que não haja dolo ou culpa grave. Mesmo assim, agir dentro dos conhecimentos recebidos em capacitação reduz riscos tanto para a vítima quanto para o socorrista. O tempo de resposta dos serviços de emergência varia considerablemente entre regiões urbanas e rurais. Em capitais, o SAMU pode chegar em até dez minutos, enquanto em áreas remotas o espera pode levar mais de uma hora. Neste intervalo, o conhecimento correto de imobilização e transporte pode ser decisivos para o desfecho clínico.
Equipamentos básicos que todo veículo deveria carregar incluem coleira cervical, tapete de vácuo ou prancha rígida, talas de espuma ou madeira, e luvas de látex ou nitrila. Estes itens são baratos e facilitam enormemente o socorro pré-hospitalar.farmacêuticos vendem kits similares por valores acessíveis. A comunicação com o serviço de emergência também é parte importante do processo. Ao ligar para o 192 ou 193, o operador fará perguntas específicas sobre o estado da vítima, tipo de acidente e possíveis fraturas. Seguir as instruções por telefone enquanto se aguarda o resgate é uma prática recomendada e pode orientar decisões críticas sobre movimento ou imobilização.