As Bactérias Produzem Seu Próprio Alimento - as bactérias produzem seu próprio alimento verdadeiro ou falso ...
as bactérias produzem seu próprio alimento verdadeiro ou falso ...

Como as bactérias produzem seu próprio alimento

Quase todo mundo aprende na escola que as bactérias são organismos que simplesmente "se alimentam de coisas". Mas uma parcela significativa delas — as autotróficas — é completamente capaz de fabricar seu próprio alimento a partir de materiais inorgânicos. Isso acontece de duas formas principais, e entender a diferença entre elas evita muita confusão na prática.

as bactérias produzem seu próprio alimento

A via mais conhecida é a fotossíntese. As cianobactérias fazem fotossíntese oxigênica, exatamente como as plantas: usam luz, água e dióxido de carbono para produzir glicose e liberar oxigênio. O processo ocorre nos tilacoides, que nessas bactérias não são organelas separadas mas sim invaginações da membrana plasmática. Bactérias sulfurosas roxas e verdes, por outro lado, realizam fotossíntese anoxigênica. Elas não usam água como doador de elétrons; usam sulfeto de hidrogênio (HS) ou outros compostos. O produto não é oxigênio, mas sim enxofre elemental, que fica como grânulos dentro da célula ou é liberado no meio. Se você já tentou cultivar essas bactérias em laboratório e o meio ficou turvo com precipitado esbranquiçado, provavelmente era enxofre. Isso foi algo que me pegou de surpresa numa bancada quando preparei um meio sem sulfeto intencionalmente e as culturas pararam de crescer sem aparente motivo. A correção foi simples: adicionar 2 mM de NaS·9HO ao meio e ajustar o pH para 7,0. A segunda via é a quimiossíntese, e ela é menos discutida mas igualmente importante. Aqui a energia não vem da luz, e sim de reações químicas envolvendo compostos inorgânicos. As bactérias nitrificantes, como Nitrosomonas e Nitrobacter, oxidam amônia a nitrito e nitrito a nitrato, respectivamente, capturando a energia liberada para fixar CO. Bactérias redutoras de enxofre, metanogênicas e ferro-oxidantes funcionam exatamente nesse princípio. Em estações de tratamento de esgoto, esse processo é o que permite a nitrificação biológica sem necessidade de adicionar carbono orgânico externo. Sem essas bactérias, o sistema entra em colapso e a amônia se acumula rapidamente.

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O que muita gente não leva em conta é que a eficiência energética nesses dois processos é muito diferente. A fotossíntese anoxigênica em bactérias sulfurosas rende muito menos ATP por molécula de doador de elétrons comparada à fotossíntese oxigênica. Isso significa que, em ambientes com pouca luz e alta concentração de HS, o crescimento bacteriano é extremamente lento. Em condições reais de campo, isso se traduz em taxas de duplicação na ordem de 24 a 48 horas, contra poucas horas das cianobactérias em água rasa iluminada. Se você está medindo biomassa bacteriana autotrófica e os números não sobem, o problema provavelmente não é viabilidade celular e sim condição ambiental inadequada. Outro detalhe prático diz respeito à fixação de nitrogênio. Algumas bactérias autotróficas, como certas cianobactérias filamentosas (Anabaena, Nostoc), também conseguem fixar N atmosférico em heterocistos especializados. Isso permite que elas sobrevivam em ambientes extremamente pobres em nutrientes, mas o custo metabólico é alto. Cada molécula de N reduzida consome 16 ATP e exige proteção da nitrogenase contra oxigênio, daí a diferenciação celular. Em cultivo, isso se manifesta como um atraso significativo na fase exponencial de crescimento quando o meio não contém fonte de nitrogênio combinado. Se o seu meio não tem sal de amônio nem nitrato e a cultura demora para entrar em crescimento, verifique se as cepas são realmente fixadoras de nitrogênio antes de descartá-las como contaminadas ou inviáveis.

Tem ainda a questão dos limites. Bactérias autotróficas não resolvem problemas de poluição orgânica. Elas não degradam hidrocarbonetos, plásticos ou resíduos industriais complexos. Esse trabalho cabe às bactérias heterotróficas. Autotrofia é uma vantagem em ambientes oligotróficos, mas uma desvantagem quando há substratos orgânicos disponíveis que poderiam ser metabolizados muito mais rápido. Em biofilmes de reatores, é comum observar competição onde heterotróficos eventualmente dominam o espaço porque aproveitam matéria orgânica dissolvida que escapa de outras fontes, sufocando o crescimento autotrófico mesmo em condições que parecem ideais no papel. Se você monitora um sistema e nota queda progressiva na população autotrófica apesar de manter iluminação ou substrato inorgânico adequados, investigue a concentração de carbono orgânico dissolvido no meio. Frequentemente, o problema está aí. Resumindo de forma direta: as bactérias produzem seu próprio alimento fotossíntese (com ou sem produção de O) e quimiossíntese (oxidação de compostos inorgânicos). A escolha do mecanismo depende inteiramente do ambiente disponível. E a lição que vale para qualquer cenário prático é que autotrofia não é uma solução universal. Ela funciona muito bem em condições específicas, mas falha miseravelmente quando as variáveis ambientais saem da faixa estreita em que a fisiologia bacteriana foi otimizada.