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Feridas oncológicas: classificação, cuidados e intervenções de ...

O que você precisa saber sobre classificação de feridas oncológicas

A classificação dessas feridas não segue um sistema único e universal, mas sim alguns critérios clínicos consolidados. Na prática hospitalar e ambulatorial, a abordagem mais recorrente é a classificação proposta pela ESCEO (European Society for Clinical Nursing Specialties), que organiza as feridas oncológicas em estágios baseados na aparência clínica. Além disso, a etiologia do tumor — primário, metastático, pós-cirúrgico, radioterápico — também influencia diretamente no manejo. O as feridas oncológicas são classificadas de acordo com o aspecto local, o estágio da doença e a presença ou não de necrose, exsudato, odor e sangramento.

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A classificação da ESCEO define cinco estágios principais. No Estágio 1, a ferida é ulcerada, limpa, com bordas regulares e exsudato mínimo. No Estágio 2, há presença de tecido de granulação, bordas levemente irregulares e exsudato moderado. O Estágio 3 já apresenta necrose visível, bordas evertidas e exsudato abundante. No Estágio 4, a ferida é larga, com necrose extensa, possível exposição de estruturas profundas e sangramento frequente. Já no Estágio 5, a apresentação é predominantemente sangrante, com rompimento de vasos tumorais e risco de hemorragia significativa. Além desses estágios, a classificação também considera a etiologia. Feridas de tumor primário de pele, como carcinomas, se comportam diferente de feridas metastáticas em mama ou melanoma. Feridas por radiação, por sua vez, têm características próprias: tecido fibroso, pouca vascularização, cicatrização praticamente inexistente. Eu lidava com um caso de metástase cutânea de carcinoma hepatocelular no abdômen que evoluía para o estágio 4 com facilidade, e o desafio era controlar o odor sem recurrera a coberturas oclusivas pesadas que, ironicamente, pioravam a maceração ao redor. A solução foi trocar o carvão ativado, que saturava em poucas horas, por alginato de cálcio com prata associado a uma espuma de contato com barreira de pele ao redor. O odor caiu pela metade e a maceração parou.

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Outro ponto que poucos mencionam: a classificação de TNM do câncer em si não se sobrepõe diretamente à classificação da ferida. Um tumor T3 pode gerar uma ferida de estágio 2, enquanto um T2 metastático pode apresentar como estágio 4. Isso acontece porque a ferida oncológica reflete mais o comportamento local e a biologia tumoral na pele do que o estadiamento anatômico padrão. O estadiamento TNM é útil para prognóstico geral, mas para o curativo você precisa olhar para a ferida em si. Também é importante saber que a NCCN (National Comprehensive Cancer Network) recomenda o uso de escalas complementares para documentar a evolução. A escala MORES, por exemplo, avalia odor, exsudato, dor, bordas e epitéliação. Ela não substitui a classificação em estágios, mas dá uma métrica reprodutível para acompanhar mudanças semana a semana. Comecei a usá-la no meu serviço e notei que pacientes com estágios 3 e 4 tinham piora sutil entre consultas que só ficava evidente quando comparávamos as pontuações. Sem a escala, a tendência é confiar apenas na memória visual, que falha rapidamente com feridas que mudam diariamente.

Há uma armadilha comum aqui: usar gaze seca como primeira escolha. Gaze aderindo ao leito de uma ferida oncológica é uma das piores decisões possíveis. A cada troca, você arranca tecido de granulação novo, gera sangramento e aumenta a dor. Substitua por kontak ou hidrocoloide em estágios 1 e 2, e por alginato ou espuma em estágios 3 e 4. Se houver odor, o carvão ativado funciona, mas deve ser trocado com mais frequência do que se espera em feridas não oncológicas. Em geral, a frequência de troca em feridas oncológicas está entre 24 e 72 horas, dependendo do exsudato. Um detalhe técnico que faz diferença prática: o uso de prata ionizada ou nanopartículas de prata nos cobertores demonstra redução significativa de carga bacteriana e odor em feridas crônicas oncológicas, segundo revisões sistemáticas recentes. O efeito não é curativo — a ferida não vai fechar — mas melhora a qualidade de vida do paciente e reduz a frequência de troca. O custo é mais alto, e em sistemas públicos isso nem sempre é viável, mas em ambulatórios especializados o custo-benefício costuma ser positivo.

Por fim, se a ferida estiver em estágio 5 com sangramento ativo, a prioridade não é classificar, é controlar a hemorragia. Compression local com compressas hemostáticas de quitosana ou ácido tranexâmico tópico podem evitar procedimentos mais invasivos. Em casos de sangramento arterial significativa, a braquiterapia ou radioterapia paliativa de único fração mostra eficácia razoável, mas exige avaliação rápida de radioterapia. Não espere que o curativo sozinho resolva isso. A classificação é uma ferramenta, não um fim. O que realmente importa é saber qual estágio você está vendo agora e o que fazer com ele. Reavaliar a cada troca, documentar com escala, ajustar o cobertor baseado no exsudato e não no protocolo genérico. Isso faz mais diferença do que decorar estágios para prova.