Cuidando de lhamas de altitude: o que ninguém te conta
Comprei minha primeira lhama em 2016, depois de anos achando que era um animal delicado que precisava de clima temperado. Comprei um macho chamado Beto, da serra gaúcha, e ele sobreviveu ao primeiro inverno normalmente. Os outros dois não tiveram a mesma sorte. Entendi rápido que o mercado vendia um mito sobre lhamas como animais de estufa.
as lhamas que vivem nas montanhas
Elas são camelídeos domésticos originários dos Andes, criados por milênios por povos indígenas para transporte, lã, carne e como animais de guarda de rebanhos. Vivem naturalmente entre 3.000 e 4.500 metros de altitude, com adaptações fisiológicas específicas: coração maior em proporção ao corpo, hemácias com mais capacidade de ligação de oxigênio, e uma pelagem dupla que isolam do frio extremo e da chuva forte. Não são nativas do Brasil fora de regiões serranas, e mesmo aí precisam de manejo adequado. O erro mais comum é tratar lhama como cavalo pequeno. Elas não suam da mesma forma, não buscam sombra no calor da mesma maneira, e seu sistema digestivo é de fermentação posterior com estômago trifásico, parecido com o de ruminantes mas com particularidades próprias. Alimentá-las como equinos causa problemas sérios de bloat e cólicas.
No que diz respeito à alimentação, o manejo é mais simples do que parece, desde que você entenda o básico. Capins de corte, como tifton ou brachiaria, funcionam bem como base, complementados com feno de qualidade. O problema é o concentrado. Lhamas são propensas a acidose se receberem grãos em excesso, especialmente milho. Meu vizinho perdeu três animais num verão por dar farelo de soja sem controle. A correção foi ajustar a ration para 0,5% do peso corporal no máximo, dividindo em duas ofereceções diárias. Em cativeiro, a expectativa de vida gira em torno de 15 a 20 anos. O manejo sanitário segue protocolos similares aos de pequenos ruminantes. Vermifugação a cada seis meses com ivermectina ou fenbendazol, vacinação antitetânica e múltipla, e corte de unhas a cada três a quatro meses. Unhas crescidas causam claudicação e infeções que podem levar à eutanásia se não tratadas. Achei que corte de unha era coisa de fazenda grande. Minha lhama Beto precisou de poda a cada dois meses porque o piso de concreto da curral acelerava o crescimento. Aprendi a usar um aparador de cabra com ponta arredondada e resultado ficou bom em cinco minutos por animal.
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A socialização é outro ponto que muitos subestimam. Lhamas são animais de rebanho por natureza. Deixar uma lhama sozinha é uma sentença de estresse crônico, perda de peso e comportamentos destrutivos. Eu mantive um macho isolado por dois meses enquanto adquiria uma fêmea e um segundo macho. Ele parou de pastar, ficou agresivo e developed ulceras gástricas. Quando reuni o trio, em três semanas estava recovering normal. O grupo precisa ser de pelo menos três indivíduos para funcionar. No que tange à reprodução, lhamas são induzadoras de ovulação, o que significa que o casal precisa ser manejado de forma diferente de outros animais. A fêmea entra em estro a cada 11 a 14 dias, e a ovulação ocorre 24 a 36 horas após a cobrição. Se você quiser criar, o ideal é ter experiência prévia ou contratar um veterinário com familiaridade em camelídeos. A gestação dura cerca de 11 meses, e partos geralmente são fáceis, mas complicações como apresentação invadida acontecem. Meu primeiro parto foi acompanhado por um veterinário que cobrou R$ 300 pela presença. Valeu cada centavo quando a lhama teve distocia leve e ele corrigiu em dez minutos.
Proteção contra predadores é uma função natural das lhamas. Elas são usadas há séculos para guardar ovelhas e cabras contra cães selvagens, raposas e até lobos. Mas isso só funciona se a lhama tiver vínculo com o rebanho desde filhote. Uma lhama adulta inserida em um rebanho já formado muitas vezes ignora os predadores ou foge junto. A solução é começar com um cria, separar dos pais early, e deixar que imite os animais que vai proteger. Leva em média três meses para o vínculo se consolidar. Clima é o fator que mais mata lhamas novatas no Brasil. Elas toleram frio muito bem, mas calor úmido é problemático. Acima de 30 graus com umidade relativa superior a 80%, o risco de pneumonia e estrés térmico aumenta significativamente. A solução prática é proporcionar ventilação cruzada nos apriscos, sombra permanente, e reduzir a carga Parasitária que já compromete a resistência. Meu primeiro inverno em São Paulo, com temperatura caindo para 5 graus à noite, não foi problema algum. O verão seguinte, com ondas de calor, eu perdi duas lhamas por pneumonia aspirativa. O diagnostic foi tardio porque eu achava que era apenas falta de apetite.
Se você está considerando ter lhamas, a recomendação honesta é começar devagar. Adquira dois ou três animais de criadores locais que possam fornecer histórico sanitário e genealógico. Invista em cercas adequadas — lhama não pula alturas grandes, mas atravessa frestas e buracos. Mantenha registros de vermifugação, peso e saúde. E acima de tudo, respeite que são animais de rebanho, não companheiros individuais que devem ser tratados como cachorros. Aquele vídeo de lhama andando sola pela cidade virou meme, mas na prática é um cenário de maus-tratos disfarçado de carinha.