Assembleia Nacional Constituinte Revolução Francesa - Revolução Francesa:Assembleia Nacional Constituinte | PPTX
Revolução Francesa:Assembleia Nacional Constituinte | PPTX

Entendendo a Assembleia Nacional Constituinte

A Assembleia Nacional Constituinte foi o órgão que assumiu o poder após o Juramento do Jogo da Péla, em junho de 1789, e ficou ativo até setembro de 1791. Ela substituiu a antiga estrutura estamental do Reino e declarou, logo no início, que detinha a soberania legislativa. Isso significava que o rei já não poderia legislar sozinho, e isso foi o que realmente quebrou o Antigo Regime na prática. Muitos estudantes confundem Assembleia Nacional com Assembleia Nacional Constituinte como coisas diferentes. Na verdade, foi uma evolução. Em 17 de junho de 1789, os terceiros estados se declararam Assembleia Nacional. Dois dias depois, com a adesão de parte do clero e alguns nobres, começou o trabalho de redigir uma constituição. O nome mudou para refletir essa missão específica.

assembleia nacional constituinte revolução francesa

O período é dividido em três fases que você precisa distinguir quando for analisar qualquer documento da época. A fase moderada, de junho de 1789 a julho de 1790, é quando se fazem as reformas estruturais mais duradouras: a abolição dos privilégios feudais, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a reorganização administrativa com a criação dos departamentos. A fase política, de julho de 1790 a setembro de 1791, é marcada pelas divisões entre realistas constitucionais, cordeliers, jacobinos. A crise final, de outubro de 1789 com a Marcha sobre Versalhes até a dissolução em setembro de 1791, fecha o ciclo com a Constituição de 1791 ainda inacabada em vários pontos. Um detalhe que poucos mencionam em livros introdutórios é a questão do veto suspensivo. Robespierre e os girondinos queriam veto absoluto. O Constituição Civil do Clero já tinha criado atritos graves com Roma. A decisãofinal foi por veto suspensivo: o rei podia retrasar uma lei por até duas legislaturas, mas nunca vetá-la permanentemente. Isso parece uma solução técnica, mas foi uma das causas diretas da desconfiança que levou à queda da monarquia em 1792.

A abolição dos direitos feudais na noite de 4 de agosto de 1789 foi feita sem consulta prévia aos camponeses que realmente queriam essas mudanças. Os deputados tinham medo de uma revolta popular e anteciparam o que iria acontecer. O resultado foi uma lei que aboliu os direitos senhoriais sem indenização imediata aos proprietários, o que gerou um problema prático sério. Quando o governo revolucionário tentou compensar os proprietários com bens do clero vendidos como bens nacionais, criou-se um novo mercado de terras que beneficiou principalmente a burguesia urbana, não os camponeses mais pobres.

Como pesquisar e encontrar fontes confiáveis

Se você está começando a estudar esse período, não use resumos escolares. Vá direto para as fontes primárias. O site Gallica da Bibliothèque Nationale de France tem o jornal Actes des Assemblées Nationales, que registra as sessões dia a dia. As transcrições são completas, mas em francês revolucionário com toda a ortografia da época, o que pode ser confuso. A coleção dos Archives Parlementaires, organizada por Laurent, é a referência clássica. São 74 volumes. Se você for usar apenas um, use o volume 1, que cobre de maio de 1789 a março de 1790. Ele tem o debate sobre a Declaração dos Direitos, a questão do veto e a aprovação da Constituição Civil do Clero. O problema é que a digitalização varia de qualidade conforme o volume. Alguns têm OCR ruim e você vai precisar verificar linha por linha.

Para contextualização historiográfica, Syliey Mazly e Albert Soboul são fundamentais. Sobretud Soboul tem uma leitura materialista que ainda é a base, mesmo com todas as críticas dos últimos trinta anos. Lembre-se de que a historiografia francesa sobre a Revolução passa por revisões constantes. O que era consenso em 1960 não é mais. Uma pegadinha comum é achar que os atos da Assembleia refletem a vontade popular. Eles não refletem. O sufrágio era censitário. A Constituição de 1791 dividia cidadãos em ativos e passivos. Apenas os homens que pagavam impostos equivalentes a três dias de trabalho podiam votar como ativos. Isso excluiu a maioria da população masculina. As sociedades populares e os clubs tentaram compensar essa exclusão, mas não tinham poder formal. Sem essa distinção, você acaba lendo mal qualquer documento eleitoral do período.

Principais decretos e suas consequências práticas

O decreto de 4 de agosto abolu hierarquias feudais, mas não abolish imediatamente todas as prestações senhoriais. O decreto de 15 de março de 1790 distinguiu entre direitos honoríficos, extintos sem compensação, e direitos patrimoniais, que deveriam ser resgatáveis pelos camponeses. Essa distinção gerou litígios que só foram resolvidos décadas depois. A Constituição Civil do Clero, aprovada em julho de 1790, exigia juramento de fidelidade à nação. Aqueles que se recusaram eram considerados clerigos refratários. Isso dividiu a Igreja na França e transformou uma questão administrativa em questão política e religiosa. A resistência em certas regiões, especialmente no Oeste, alimentou a revolta federalista e depois a guerra da Vendée.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

O decreto Le Chapelier, em junho de 1791, proibiu corporações de ofício e sindicatos. Você pode ler isso como uma vitória liberal ou como uma ferramenta de controle social. Ambos os leitores estão certos. O efeito imediato foi proibir greves e associações operárias, o que afetou diretamente trabalhadores urbanos como os sans-culottes que mais tarde apoiaram os jacobinos. A contradição é que o mesmo Congresso que proclamava liberdade econômica silenciava a ação coletiva dos trabalhadores. A Constituição de 1791 estabeleceu a monarquia constitucional com sufrágio censitário. O rei mantinha o poder executivo, mas a Assembleia detinha o legislativo. A separação de poderes não era rígida: o rei podia nomear ministros, mas esses respondiam perante a Assembleia. Essa ambiguidade institucional foi uma das falhas estruturais que levaram à crise de 1791 e 1792.

Erros comuns ao estudar o período

Um erro frequente é projetar divisões partidárias modernas na Assembleia. Não havia partidos no sentido contemporâneo. Havia facções como os bretons, os jacobinos, os cordeliers, os Feuillants. Os Feuillants surgiram precisamente da cisão do Clube dos Jacobinos em julho de 1791, quando os mais moderados saíram para apoiar a Constituição de 1791 sem mudanças adicionais. Essa cisão reflete mais uma questão tática do que ideológica profunda. Outro erro é subestimar o papel dos protestantes e judeus na Assembleia. A cidadania plena para judeus foi deliberada e votada em setembro de 1791. Para protestantes, a declaração de direitos civis em 1789 já garantia igualdade. Esses grupos eram minorias pequenas, mas sua inclusão foi simbólica e praticamente relevante para a construção do conceito de cidadão universal.

A questão das mulheres também merece atenção específica. Oclube das Republicanas Revolucionárias foi proibido em outubro de 1793. Mulheres participaram ativamente dos movimentos, como na Marcha sobre Versalhes, mas não conquistaram direito ao voto. Omal de Olympe de Gouges escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã em 1791. Foi condenadoà guilhotina no ano seguinte. Isso mostra que o universalismo revolucionário tinha limites claros na prática.

Fontes digitais e como acessá-las

Gallica continua sendo a melhor opção gratuita. O search avançado permite filtrar por data, tipo de documento e coleção. Para os Actes Nationaux, a navegação por datas é mais confiável do que a busca textual. O OCR do francês do século XVIII tem muitos erros de reconhecimento, especialmente em siglas e abreviações. Outra opção é o site do Arquivo Nacional francês, que disponibiliza alguns documentos digitalizados com metadados. Para estudos comparados, o projeto EPOCH da Universidade de Stanford oferece banco de dados com correspondências da época. Não é específico da Assembleia, mas permite rastrear redes de informação entre deputados e seus eleitores.

Se você quer dados quantitativos, o projeto REVOLUTION em Lyon oferece bases sobre composição social da Assembleia, frequência de participação e padrões de votação. Útil para análises estatísticas, mas requer familiaridade com ferramentas de análise de dados.

Consequências de longo prazo

A Assembleia Nacional Constituinte estabeleceu precedentes que duraram além de 1791. A Declaração dos Direitos de 1789 foi retomada em todas as constituições francesas posteriores. A organização departamental permanece até hoje, com leves ajustes. O código napoleônico bebe diretamente das discussões da Assembleia sobre unificação jurídica. O modelo de constituição escrita como ato fundacional de um regime político foi exportado para a Europa e para as Américas. As constituições latino-americanas do século XIX referenciam explicitamente os debates parisienses. Esse legado institucional é mais duradouro do que qualquer regime específico que a Assembleia tenha tryado implementar.

A experiência também gerou medo. O termo "constituinte" passou a carregar tanto a esperança de reconstrução quanto o risco de instabilidade permanente. Esse ambiguidade persists na linguagem política francesa até hoje. "Assemblée constituante," os ouvintes franceses sabem que se trata de um momento de transição radical, com todas as incertezas que isso implica. A dissolução em setembro de 1791 marcou o fim de um experimento. A Assembleia Legislativa, eleita pela nova Constituição, não durou dois anos. A radicalização seguiu seu curso. Mas as estruturas criadas pela Constituinte continuaram a existir, mesmo quando os políticos que as haviam criado foram presos ou executados. Instituições sobrevivem aos seus fundadores de maneiras que os próprios fundadores nunca preveem.