Atividades Da Eja - KIT ALFABETIZAÇÃO EJA: Atividades, Dicas e Práticas | Atividades ...
KIT ALFABETIZAÇÃO EJA: Atividades, Dicas e Práticas | Atividades ...

Como estruturar atividades da EJA que realmente funcionam

O sistema de Educação de Jovens e Adultos no Brasil tem uma característica que quase todo material didático ignora: o público alvo está trabalhando, muitas vezes em turnos exaustivos, e chega em casa com pouco tempo e menos disposição para algo que pareça escolarizado demais. Isso significa que atividades da eja precisam ser enxutas, contextualizadas e com feedback imediato, senão o aluno simplesmente não completa. Eu já vi coordenação pedagógica de uma escola pública em Campinas distribuir cadernos do programa Nova Escola para a EJA e os alunos desistirem na metade do primeiro bimestre. O problema não era a qualidade do conteúdo, era o ritmo. O material vinha com três exercícios por página, linguagem muito formal, e nenhuma conexão com a realidade dessas pessoas. A maioria tinha entre 18 e 45 anos, muitos eram pescadores, diaristas ou motoristas de aplicativo. Eles precisavam ver utilidade prática naquilo que estavam lendo.

Atividades da EJA: o que funciona na prática

A estrutura que eu recomendo tem quatro pilares. Primeiro, contextualização obrigatória. Cada atividade precisa começar com uma situação real, um problema que o aluno já vivencia. Segundo, progressão lenta. Não adianta pular de equações do primeiro grau para funções afins sem passar por pelo menos quatro aulas intermediárias de reforço. Terceiro, feedback rápido. Se a atividade leva mais de duas semanas para ser corrigida, o aluno perde o senso de progresso. Quarto, autonomia. O material precisa permitir que o aluno avance no seu próprio ritmo, com explicações embutidas no enunciado quando necessário. Um exemplo concreto. Eu montei uma sequência de atividades sobre porcentagem para um grupo de EJA na Zona Leste de São Paulo. Em vez de usar exemplos genéricos de desconto em loja, usei a conta de luz e a conta de água. Os alunos tinham os extratos reais em casa e precisavam calcular a variação percentual entre dois meses. A taxa de conclusão saltou de 40% para 89% em relação ao trimestre anterior.

O que acontece na correção é que a maioria dos erros não está no cálculo em si, mas na interpretação do texto. Eu aprendi isso na prática quando um aluno de 34 anos, que trabalhava como eletricista, errava todas as questões de interpretação de texto em matemática. Ele conseguia calcular com perfeição, mas travava nos enunciados. A solução foi separar a habilidade de leitura da habilidade de cálculo, usando textos curtos com vocabulário técnico explicado entre parênteses antes da questão.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Principais dificuldades que você vai enfrentar

A primeira dificuldade é a heterogeneidade extrema de turmas. Você pode ter alguém que abandonou os estudos no quinto ano e outro que fez ensino médio há quinze anos e quer se formar. Ambos estão na mesma sala. A atividade precisa ser flexível o suficiente para atender os dois níveis sem exigir dois planos de aula separados. A segunda dificuldade, e essa é mais silenciosa, é a falta de base em alfabetização funcional. Muitos alunos da EJA sabem ler e escrever, mas têm dificuldade com textos argumentativos, inferências e vocabulário acadêmico. Atividades de ciências ou história costumam ser as que mais reprova por esse motivo, não pelo conteúdo em si.

Uma limitação importante das atividades da eja é que elas raramente funcionam bem se forem apenas impressas. Alunos que nunca tiveram acesso a livros em casa precisam de suporte digital, mesmo que básico. Um link para um vídeo de cinco minutos explicando o conceito antes da atividade aumenta drasticamente a taxa de compreensão. Eu trabalho com uma biblioteca de vídeos no YouTube com duração entre três e oito minutos, organizados por tema e nível de dificuldade. Quando o aluno trava numa atividade, ele assiste o vídeo correspondente e tenta de novo. Isso reduz o tempo de atendimento individual do professor em cerca de sessenta por cento. O formato ideal de atividade para EJA é aquele que o aluno consegue terminar em uma única sessão, entre trinta e quarenta e cinco minutos, com pelo menos uma parte prática e uma parte reflexiva. Atividade que exige pesquisa externa ou acesso à internet em casa exclui naturalmente uma parcela significativa dos alunos. Semanas atrás, precisei adaptar uma atividade sobre energia elétrica porque três alunos não tinham celular com dados móveis em casa. Eu substituí por uma versão offline com ilustrações impressas e perguntas guiadas. O resultado foi o mesmo em termos de aprendizado, mas a taxa de entrega ficou igual em todos os alunos.

Onde encontrar materiais prontos e confiáveis

O governo federal disponibiliza material pelo programa Escola de Todos, disponível no site do MEC. Também há recursos no portal da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. O material é gratuito e segue a BNCC, o que garante alinhamento curricular. O problema é que ele vem em formato PDF e muitas vezes precisa de adaptação para turmas com defasagem maior. Eu costumo pegar o material do MEC e reescrever os enunciados com linguagem mais direta, acrescentando exemplos locais quando possível. Outra opção são os cadernos do Programa Brasil Alfabetizado, que focam na fase inicial de alfabetização de adultos. Se o seu aluno ainda está nessa fase, esses materiais são mais adequados do que os da EJA regular. A diferença é sutil mas importante: o Brasil Alfabetizado trabalha sílabas e fonemas de forma sistemática, enquanto a EJA tradicional pressupõe que o aluno já sabe ler e escrever com fluência.

Se você está montando atividades do zero, comece com uma diagnose inicial. Aplica-se uma prova simples de dez questões em cada disciplina no primeiro dia de aula, sem nota, só para mapear onde estão as lacunas. Com base nisso, você seleciona quais atividades do material pronto precisam de adaptação e quais pode usar integralmente. Esse mapeamento costuma levar entre duas e três horas, mas economiza semanas de trabalho posterior com alunos que estão completamente perdidos. A EJA não é ensino fundamental acelerado. Tratar como tal é o erro mais comum que eu vejo em materiais didáticos. O adulto aprende de forma diferente, não porque seja menos capaz, mas porque traz bagagem de vida que o jovem não tem. As atividades precisam aproveitar essa bagagem, não ignorá-la.