Guia prático para entender e mapear a bacia hidrográfica do Araguaia-Tocantins
O primeiro problema que você vai encontrar ao tratar a bacia hidrográfica araguaia tocantins na prática é a própria escala. São mais de 390 mil quilômetros quadrados de área de drenagem, espalhados por cinco estados: Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão e Mato Grosso. Isso significa que qualquer modelo hidrológico que você for aplicar precisa lidar com uma resolução extremamente variável. Dados de satélite que funcionam bem no Alto Tocantins, em Goiás, simplesmente não resolvem a foz no Pará. Eu já passei por isso durante um projeto de monitoramento de cheias na região de Porto Nacional. O dado que eu estava usando vinha do INPE com resolução de 1km², o que parecia suficiente à primeira vista. Mas na planície de inundação do Araguaia, perto da divisa com o Maranhão, os canais se fragmentam de forma tão complexa que o modelo simplesmente alagava áreas onde não deveria. A solução foi recortar a área de interesse usando o modelo digital de elevação do Alos World 3D, que tem resolução de 30 metros, e refazer a extração das bacias secundárias com o TauDEM antes de importar para o HEC-HMS.
Coleta e pré-processamento dos dados
O arquivo shapefile da bacia hidrográfica do Araguaia-Tocantins pode ser baixado gratuitamente pelo site da ANA (Agência Nacional de Águas). O link direto está na seção abaixo. O arquivo vem como um polígono único, o que é útil para delimitação geral, mas se você precisa trabalhara sub-bacias — o que é quase sempre necessário — precisa fazer o recorte manual ou semi-automático usando o GRASS GIS ou o QGIS com a ferramenta "v.hull" adaptada. Os dados de precipitação ficam no sistema de monitoramento pluviométrico da ANA, disponível pelo portal de dados abertos. O arquivo mais recente de séries temporais (2015 a 2024) está em formato CSV, mas vale a pena converter para .hms ou .swn logo na entrada. Eu recomendo o módulo "Preprocessing" do HEC-HMS porque ele já faz a interpolação Thiessen automaticamente, o que economiza cerca de 40 minutos por simulação quando você tem mais de quinze estações.
O fluxo no Araguaia tem comportamento completamente diferente do fluxo no Tocantins. O Araguaia é predominantemente pluvial, com pico de vazão entre fevereiro e abril. O Tocantins, por sua vez, tem forte influência de reservatórios hidrelétricos, especialmente a UHE de Estreito e a de Lajeado. Se você estiver calibrando um modelo e não incluir os operatórios dessas usinas, os resultados vão divergir até 35% em relação às vazões observadas nos postos da ANA.
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Modelagem hidrológica sem erro grosseiro
Para uma primeira modelagem, o SCS-CN (Curve Number) ainda é o método mais rápido. O problema é que os valores padrão da Tabela 70 do NRCS são impróprios para a cobertura vegetal da bacia do Araguaia-Tocantins. O cerrado e a mata ciliar apresentam infiltrações muito diferentes do que o manual assume para "pasto bom". Na prática, use valores de CN entre 68 e 74 para as áreas de transição cerrado-campo, e não confie no valor de 82 que aparece para "pasto" na tabela original. Se você estiver usando o método de Green-Ampt, precisa ter em mãos os dados de condutividade hidráulica saturada do solo. Para a região, os valores mais confiáveis que encontrei em artigos da Embrapa/CNPA variam de 1,2 a 4,5 mm/h para os latossolos vermelhos do alto Tocantins, e de 8 a 15 mm/h para os solos arenosos das várzeas do Araguaia baixo. Colocar um valor fixo em todo o domínio é o erro mais comum que eu vejo em trabalhos de mestrado e iniciação científica por aí.
Outro ponto que ninguém menciona com frequência: a bacia tem uma grande quantidade de áreas alagáveis naturais, especialmente no Trecho do Araguaia entre as cidades de Barra do Garças e Porto Nacional. O modelo precisa ter uma rotina de armazenamento em planície de inundação ativada. No HEC-RAS, isso significa usar a função "Floodway" e definir as curvas estágio-vazão com base em perfis transversais reais, não em estimativas genéricas. Eu perdi três semanas rodando simulações que simplesmente não fechavam o balanço hídrico até descobrir que o parâmetro de perda por evapotranspiração estava sendo calculado com uma equação de Penman-Monteith genérica em vez da versão adaptada para latitudes tropicais baixas, como a descrita no manual do HEC-5.
Recursos disponíveis
O shapefile completo da bacia hidrográfica araguaia tocantins está disponível para download gratuito no site da ANA, na seção de dados geoespaciais: https://dados.anb.org.br. Também há arquivos DEM do Alos World 3D em https://www.eorc.jaxa.jp/ALOS/en, e dados pluviométricos em https://sigsnos.baciahidrografica.gov.br. O manual do HEC-HMS (versão 4.10) tem uma seção específica sobre bacias tropicais que pode ser baixada em https://www.hec.usace.army.mil/software/hec-hms/downloads.aspx. Recomendo a leitura do capítulo 7, "Modeling Infiltration in Tropical Basins", que aborda exatamente os problemas de curva número e condutividade que mencionei acima.
Se o seu objetivo é apenas delimitar a bacia rapidamente para um trabalho acadêmico ou relatório técnico, o QGIS com o plugin "SAGA Hydrology" resolve em cerca de 15 minutos. O processo leva três passos: importar o DEM, executar "Flow Accumulation" e depois "Basin delineation". O resultado não será tão refinado quanto uma modelagem com HEC-HMS, mas é mais do que suficiente para a maioria dos casos práticos.