O problema do "bom senso" quando você tenta institucionalizá-lo
Eu já passei por isso na prática. Trabalhei em um projeto onde a equipe achou que precisava criar um manual de decisões baseado em "bom senso". O resultado foi uma documentação de trinta páginas que ninguém leu, porque todo mundo entendia "bom senso" de um jeito diferente. Alguns liam como "fazer o que parece óbvio". Outros como "seguir a burocracia sem questionar". Eu achava que era "chutar até dar certo e torcer pra não explodir nada". Isso é exatamente o problema central quando você fala em bom senso ou bom senso.
bom senso ou bom senso
A redundância não é acidental. Ela existe porque o conceito colapsa quando você tenta defini-lo com precisão. Bom senso, pelo dicionário, é a capacidade de julgar com equilíbrio e prudência. Prático. Só que na prática isso não funciona. Eu descobri isso quando precisei resolver um conflito entre dois setores de uma empresa usando esse critério como base. O setor de produção dizia que o bom senso pedia aceleração dos prazos. O setor financeiro argumentava que o bom senso exigia rigor orçamentário. Ambos estavam certos. Ambos estavam errados. Não havia forma de decidir sem ter critérios objetivos além do "sentido comum", que é subjetivo por definição. O que funciona na realidade é tratar o bom senso como um ingrediente, não como a receita. Eu comecei a usar ele como filtro pós-análise, não como ferramenta de decisão. A metodologia é simples: primeiro você aplica regras claras, métricas, precedentes documentados. Só depois de tudo isso se esgotado é que você recorre ao julgamento intuitivo. Quando você inverte a ordem, o bom senso vira desculpa para preguiça cognitiva. E é exatamente aí que a coisa começa a dar errado. Eu vi isso acontecer em pelo menos cinco empresas diferentes antes de parar de levar a ideia a sério.
Um problema específico que eu encontrei foi em um processo de contratação. O RH queria usar "bom senso" como critério de desempate entre candidatos com qualificações similares. Aconteceu que o que um entrevistador chamava de "bom senso" era basicamente o próprio viés disfarçado de virtude. Um candidato que não fazia contato visual era considerado "com pouco senso de apresentação". Outro que tinha experiência em outra área era "falta de foco de carreira". O viés se camuflava perfeitamente porque ninguém conseguia objetivar o conceito. A solução que eu construí foi criar uma lista de critérios objetivos com pesos atribuídos. Para cada posição, os critérios eram definidos antes da entrevista, não durante. O "bom senso" só entrava como espaço residual para casos fora do padrão, que correspondem a menos de dez por cento das situações. Se mais de dez por cento dos candidatos caíam nessa zona cinzenta, o problema não era o bom senso. Era a vaga mal definida. Essa correção reduziu o tempo médio de decisão em trinta por cento e aumentou a retenção nos primeiros doze meses em doze por cento no departamento onde apliquei.
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O lado ruim, e eu preciso ser honesto sobre isso, é que o método exige disciplina que poucas organizações têm. Você precisa escrever critérios antes de conhecer as pessoas. Isso é contraintuitivo para quem está acostumado a decidir "no calor do momento". A maioria das pessoas prefere a sensação de estar sendo ágil quando na verdade está sendo inconsistente. Inconsistência gera processos administrativos, contestações e rotatividade. O custo disfarçado de "agilidade com bom senso" é maior do que parece. Se o seu objetivo é simplesmente aplicar intuição em decisões cotidianas, não precisa de estrutura nenhuma. O cérebro humano faz isso o tempo todo. O problema aparece quando você tenta escalar o conceito para equipes, processos ou políticas. Nesse ponto, a redundância do termo bom senso ou bom senso deixa de ser curiosidade linguística e vira sinal de alerta. Está dizendo que o conceito sozinho não aguenta o peso da responsabilidade que querem colocar nele.
O que eu recomendo na prática é o seguinte: documente os critérios antes de precisar deles. Use o julgamento intuitivo apenas quando os critérios falharem. Se os critérios falharem com frequência, reformule os critérios, não a intuição. E se você estiver sozinho, tomando decisões sem ninguém pra questionar, então pode confiar no bom senso mesmo. É só quando há mais de uma pessoa envolvida que a subjetividade vira problema. Uma última coisa que muita gente não considera: o bom senso é culturalmente condicionado. O que é sensato em um contexto pode ser absurdo em outro. Eu vi um processo de aprovação que funcionava perfeitamente em uma filial e era completamente inaplicável em outra porque os fatores culturais eram diferentes. Tentar impor um padrão único de "bom senso" nesse cenário gerou atrito constante. A solução foi permitir variação regional dentro de diretrizes-mãe, o que é basicamente reconhecer que o conceito não é universal.
Se você quer material de referência, não existe um download ou ferramenta pronta pra isso. O que existe são frameworks de decisão estruturada que você monta sob medida. Decisão Matrix, modelo de análise de riscos, árvore de decisão. São ferramentas que colocam limites claros no espaço onde o bom senso pode operar. Quando o bom senso é a única ferramenta, quase sempre significa que as outras faltaram.