Brasilia Antes Da Construção - Brasília completa 62 anos; veja fotos da construção aos dias atuais
Brasília completa 62 anos; veja fotos da construção aos dias atuais

O que existia no planalto central antes de Brasília

Antes de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer chegarem com os projetos, a região conhecida como planalto central era ocupada por uma mistura de comunidades rurais, fazendas de gado e pequenos povoados espalhados pelo estado de Goiás. O nome era São José do Rio Preto — sim, essa cidade que existe até hoje não surgiu do nada, ela estava lá antes de toda aquela obra começar. Na década de 1950, quando Juscelino Kubitschek anunciou a mudança da capital para o centro do Brasil, a maior parte do território que seria alagado era composta por propriedades particulares de pequenos produtores, criadores de gado e alguns garimpeiros que haviam se estabelecido ali décadas antes. As terras eram majoritariamente ocupadas por cerrado, com pouca floresta densa, o que acabou facilitando a remoção vegetal, mas também significava que o ecossistema era muito mais sensível do que muitos imaginavam na época.

brasilia antes da construção: a vida real daquelas terras

Você encontra registros de que havia aproximadamente dois mil habitantes em áreas que depois seriam completamente inundadas ou demolidas para dar lugar à cidade nova. Não era um número enorme, mas essas pessoas tinham geração, história e raízes ali. A relocação foi feita de forma praticamente informal na maioria dos casos — o governo comprava as terras com valores abaixo do que elas valeriam hoje, muitas vezes com um talão de cheque e um contrato mal redigido, e as famílias seguiam para outras regiões do estado. Eu li documentos do arquivo do DNOS (Departamento Nacional de Obras e Saneamento) e a coisa é clara: a equipe que mapeou as propriedades não levava em conta direitos possessórios. Quem tinha posse mas não tinha escritura simplesmente era ignorado. Esse é um ponto que poucas pessoas mentionam quando falam da fundação de Brasília, e é importante saber porque ainda hoje existem descendentes dessas famílias reivindicando reconhecimento.

O processo de desocupação

O que acontecia na prática era relativamente simples e brutal ao mesmo tempo. Havia um decreto-lei que autorizava a desapropriação por interesse social, e a partir daí era feito o mapeamento das propriedades. O problema é que muitos moradores nem sabiam que suas terras estavam dentro da zona de alagamento ou demolição até receberem uma intimação já datada. Não havia aviso prévio significativo, não havia prazo para recursos efetivos, e a maioria das famílias simplesmente seguiu em frente porque não tinha outra alternativa. Um detalhe que poucos conhecem: o povoado de Águas Lindas, que ficava na divisa com o Distrito Federal, foi completamente desfeito e seus habitantes redistribuídos entre Planaltina, Ceilândia e Brazlândia. Essas cidades que hoje parecem partes naturais do entorno de Brasília na verdade nasceram, em grande parte, da recepção dessas populações realocadas. Então quando você vê esses municípios crescendo desordenadamente, tem parte da culpa de quem estava lá antes da construção de Brasília e não teve para onde ir.

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O que restou fisicamente

Muitas construções foram derrubadas antes das obras civis começarem. Igrejas, capelas, casarões de fazenda, escolas — basicamente qualquer estrutura que tivesse mais de um século ali foi eliminada. A igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São José do Rio Preto, foi uma das mais mencionadas em relatórios da época, e seu conteúdo patrimonial foi parcialmente transferido para outras cidades goianas. O que aconteceu com o restante é algo que ainda gera debate entre historiadores locais. O lago Paranoá, que hoje é uma atração turística importante, foi formado exatamente quando as barragens foram erguidas e a água começou a subir sobre vales que eram ocupados por roças e pastagens. Se você olhar fotos aéreas da época, vê claramente como era a topografia antes do alagamento. O efeito foi devastador para o microclima da região também — a umidade relativa do ar caiu drasticamente nos primeiros anos pós-construção, e isso foi documentado em relatórios do IBGE que raramente são citados.

Algo que ninguém conta sobre a mão de obra

Os candangos, como ficou conhecido o trabalhador que veio de várias partes do Brasil para construir a nova capital, eram em sua grande maioria nordestinos. A migração interna que alimentou a construção de Brasília foi intensa, e muitos desses trabalhadores se estabeleceram em áreas que antes pertenciam às mesmas comunidades rurais que estavam sendo removidas. Ou seja, as pessoas que chegavam de fora para construir Brasília acabaram, no longo prazo, substituindo as pessoas que já estavam lá. Um fato que percebi pesquisando isso: há uma confusão frequente entre a população que habitava a região antes da construção e os primeiros moradores do Plano Piloto. Na verdade, quase nenhum dos habitantes originais do planalto central foi morar no Plano Piloto. Eles foram realocados para as cidades do entorno, e o Plano Piloto foi literalmente construído do zero por pessoas vindas de fora. Isso tem implicações culturais enormes que ainda ecoam hoje.

Fontes e documentação

Se você quer estudar esse período com mais cuidado, os melhores acervos estão no Arquivo Público do Distrito Federal e na Biblioteca Nacional no Rio. Tem também o trabalho de pesquisadores como Heloísa Barata, que fez estudos etnográficos detalhados sobre as comunidades removidas. O livro "História de Brasília" de João Campos Filho é outro material básico, embora tenha sido escrito numa época em que a crítica social era mais contida. Para quem está interessado especificamente em mapas e documentação parcelar, o IPT de Goiás publicou uma coleção digitalizada dos registros fundiários pré-desapropriação. É possível acessar pelo site da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Ambiental do DF, seção de acervo histórico. O documento principal tem números de matrícula que permitem rastrear cada propriedade original até o imóvel atual, o que pode ser útil caso você esteja investigando alguma questão específica sobre terra ou herança.

A região do Entorno do Distrito Federal ainda guarda vestígios dessas comunidades em formas de festas religiosas, culinária e práticas agrícolas que são diferentes do resto do estado. Vale a pena passar por Planaltina e Nazaré, duas cidades onde a presença das famílias originárias é mais visível do que em outros lugares.