O que olhar quando o laudo mostra células epiteliais
Quando você pega um exame de urina tipo EAS e vê a linha "células epiteliais: poucas/raras", a primeira coisa que a maioria das pessoas faz é pesquisar no Google e acabar em sites alarmistas. A realidade é bem mais simples e, na maior parte das vezes, irrelevante clinicamente. Células epiteliais raras significa, literalmente, que o técnico ou o analisador automático detectou uma quantidade mínima dessas células no sedimento urinário. O adjetivo "raras" é um qualifier semi-quantitativo usado pelos laboratórios para indicar algo como 0 a pouco por campo de visão no microscópio de campo claro. Não é um diagnóstico. É uma observação.
células epiteliais raras o que significa na prática
O epitélio que reveste o trato urinário se renova constantemente. Células se soltam e caem na urina durante o fluxo normal. O que determina o peso clínico não é a presença isolada, mas o tipo celular e o contexto do exame. Existembasicamente três tipos que aparecem em urina:
Epitélio escamoso: vem da uretra distal e do introito vaginal em mulheres. A presença dele praticamente confirma que a amostra teve algum grau de contaminação pela flora de pele e mucosa externa. Raras células escamosas são o cenário padrão em coletas não cateterizadas. Se o laudo trouxer "epitélio escamoso: raro" junto com leucócitos dentro da referência e sem bacteriúria significativa, não há nada para fazer. A amostra foi aceitável. Epitélio de transição (urotélio): vem da pelve renal, cálices, ureteres e bexiga. É a camada mais comum do trato urinário superior e proximal. Raras células de transição sozinhas também não costumam ter significado patológico. O que muda a discussão é a quantidade e a morfologia. Células de transição em grandes quantidades, especialmente com alterações citoplasmáticas ou nucleares, podem aparecer em processos inflamatórios crônicos, litíase, neoplasias uroteliais ou após quimioterapia comagentes como ciclofosfamida. Mas aí o laudo normalmente descreve quantidade maior, não "raras".
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Epitélio renal tubular: este sim carrega peso diagnóstico. Originário dos túbulos renais, sua presença em número pequeno já justifica olhar os outros parâmetros: proteinúria, cilindros hialinos e granulosos, hematúria fica, função renal. Se o laudo menciona "rare epithelial cells" sem especificar o tipo, o mais prudente é verificar se há descrição citológica complementar ou se o laboratório usou citometria de fluxo/análise automatizada que classifica por morfologia. Na minha experiência revisando laudos, o problema mais comum que vejo é a ambiguidade na nomenclatura. Alguns laboratórios escrevem apenas "células epiteliais: raras" sem subtypear. Nesse caso, a tendência estatística é que se tratam de escamosas, simplesmente porque são as mais abundantes em coletas espontâneas. Mas isso é uma suposição, não um fato. A workaround que eu uso é pedir o gráfico de distribuição morfológica ou reaver o sedimento para revisão manual. Leva dois minutos a mais e evita interpretação equivocada.
Outro ponto que poucos mencionam: a concentração urinária altera a aparência das células. Em urina hipotônica, as células de transição e renais incham, o citoplasma fica mais pálido e as bordas menos definidas. Isso pode levar o operador a subestimar a quantidade ou a classificar erroneamente. Urina com gravidade específica acima de 1,020 retrai as células e as deixa mais compactas, o que também distorce a contagem. Se o EAS não traz a densidade urinária anotada, Desconfie da qualificação "raras" como sendo absoluta. Ela é relativa ao meio em que a célula estava suspensa. Um cenário que encontrei recentemente e vale a pena registrar: paciente assintomático, exame de rotina, laudo com "epitélio escamoso: raro, epitélio de transição: raro, leucócitos: 3 por campo, hemácias: 1 por campo, nitrito negativo, leucoésterase negativo, proteinúria: traço". A tentação é romantizar como "tudo normal". O detalhe que salva é o traço de proteína. Sozinho não é alarmante, mas em conjunto com a presença de qualquer epitélio de transição, mesmo raro, indica a necessidade de repetir o exame com coleção de primeiro jato matinal e, sepersistir, dosar albuminúria em spot ou coletar urina de 24 horas. Não é sobre as células epiteliais em si. É sobre o quadro que elas indirectly sinalizam quando aparecem junto com proteinúria discreta em paciente sem história de ITU.
Para quem quer entender o que o próprio laudo está dizendo na prática, o fluxo lógico é: primeiro ver a qualificação semi-quantitativa, depois o tipo celular se estiver especificado, depois cruzar com leucócitos, hemácias, bacteriúria, nitrito, leucoésterase e proteinúria. Somente nesse contexto o achado perde o caráter de achado isolado e ganha interpretação. Células epiteliais raras isoladas não fazem nada. Células epiteliais raras junto com proteína, cilindros e hematúria dismórfica mudam a conduta. Se o seu laudo trouxe essa indicação e você quer uma segunda leitura antes de chamar o médico, o caminho mais direto é levar o papel completo — não apenas o trecho das células epiteliais — e pedir revisão do sedimento em laboratório com microscopia de contraste de fase. Análise automatizada por fluxo de partículas economiza tempo, mas tem taxa de false-positive e false-negative relevante para células epiteliais, especialmente quando há muco ou cristais que confundem o algoritmo. Microscopia manual leva cerca de 5 a 8 minutos por amostra e resolve a ambiguidade na maioria dos casos duvidosos.