Entendendo células glandulares endocervicais presentes no exame de Papanicolaou
A presença de células glandulares endocervicais no papanicolaou é um achado comum que gera dúvida tanto em profissionais da saúde quanto em pacientes. Na prática, significa que a amostra coletiva atingiu a zona de transformação e trouxe células da porção endocervical do colo do útero, o que é considerado um indicador de adequidade da coleta e não uma anomalia por si só. Quando leio um laudo com essa menção, meu primeiro olhar vai para o contexto clínico e para a qualificação da amostra. A presença isolada dessas células é normal. O que precisa de atenção é a morfologia celular associada, especialmente se houver alterações proliferativas, atípicas ou suspicious de neoplasia. A literatura e as diretrizes do ASCUS (American Society of Clinical Pathology) tratam o assunto, mas o dia a dia do laboratório mostra nuances que os manuais nem sempre destacam.
O que significa celulas glandulares endocervicais presentes
Células glandulares endocervicais presentes indica que a coleta captou células epiteliais glandulares originárias do canal endocervical. Esse tipo celular tem características morfológicas distintas das células escamosas: são menores, com relação nucleoplasmática mais alta, nucli regulares e citoplasma basófilo ou vacuolizado em alguns casos. Na maioria dos papanicolaous de rotina, é esperado encontrar entre 5 e 30 dessas células por lâmina, quando a amostra está bem coletada. A classificação Bethesda define esse resultado como parte da entidade "celulas glandulares endocervicais presentes" sem outra especificação, o que pressupõe que as células são benignas e que a amostra foi adequada. Se houver alteração, o laudo deve especificar: adenocarcinoma in situ, adenocarcinoma, ou alterações reativas/inflamatórias. A diferença não é só terminológica. Muda completamente o manejo clínico.
Como interpretar na prática o resultado
A interpretação depende de três variáveis principais: a adequação da amostra, a qualificação do citotécnico ou patologista e o histórico clínico da paciente. Um resultado que traz apenas células glandulares endocervicais normais, sem atipia, geralmente não exige conduta imediata. O intervalo de rastreamento segue as diretrizes locais, que no Brasil geralmente recomendam cooperação com o teste de HPV para mulheres acima de 30 anos. Já vi casos em que a presença dessas células foi interpretada como suficiente para solicitar colposcopia, mesmo sem outras alterações. Isso ocorre quando há associação com inflamação marcante, sangramento intermenstrual ou fatores de risco oncológico. O manejo precisa ser individualizado. A simples presença dessas células não justifica procedimento invasivo.
Outro ponto importante: a ausência dessas células em uma coleta não é necessariamente patológica. Pode indicar insuficiência amostral, especialmente em mulheres na pós-menopausa ou após histerectomia. Nesse cenário, a recomendação costuma ser repetição da coleta em intervalos menores ou investigação complementar, dependendo do contexto.
Procedimento técnico e qualidade da coleta
A coleta adequada depende de técnica correta e instrumentação apropriada. O coletor deve usar escova endocervical ou espátula de Wood, rotacionando dentro do canal endocervical para obter células da transição escamo-glandular. A fixação imediata do material evita artefatos que dificultam a leitura, especialmente a desidratação do citoplasma glandular, que pode simular atipia. No laboratório, o processamento deve incluir preparo adequado das lâminas, coloração de Papanicolaou de qualidade e análise em microscopia com objetiva de imersão. O tempo entre coleta e análise também influencia. Amostras que permanecem muito tempo sem fixação podem apresentar alteração nuclear reativa, confundindo a interpretação.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um detalhe que pouca gente menciona: a presença excessiva de células glandulares endocervicais pode estar associada a processos inflamatórios crônicos ou à uso de dispositivos intrauterinos. Nesses casos, as células podem parecer reativas, com nucléolos proeminentes e aumento discreto da relação nuclear/citoplasmática. Sem experiência, é fácil confundir com lesão de baixo grau, mas o padrão de disposição celular e a ausência de pleomorfismo real ajudam a diferenciar.
Questões específicas e situações de borda
Um problema recorrente que eu enfrento no laboratório é a identificação de células glandulares em mulheres histerectomizadas. Quando o procedimento foi total, não existe mais endocervix. A presença dessas células nesse caso exige avaliação cuidadosa: pode representar epístele vaginal com metaplasia endocervical, ou, mais raramente, recorrência de lesão pré-maligna de um câncer de colo uterino previamente tratado. Já li casos em que a ausência de acompanhamento adequado atrasou o diagnóstico de recorrência em até dois anos. Outra situação delicada é a diferenciação entre hiperplasia glandular reativa e adenocarcinoma in situ. A hiperplasia tende a mostrar células agrupadas com arquitetura simétrica, nucleolos finos e citoplasma conservado. O adenocarcinoma in situ apresenta estratificação nuclear, pleomorfismo, mitoses atípicas e perda de polaridade celular. A distinção nem sempre é óbvia em lâminas com artefatos. Em casos borderline, a recomendação é repetição da coleta e, se necessário, biópsia dirigida por colposcopia.
Também é relevante considerar a influência hormonal. Mulheres em uso de contraceptivos hormonais ou na perimenopausa podem apresentar alterações glandulares fisiológicas que imitam atipia. O conhecimento do perfil hormonal da paciente é fundamental para evitar sobrediagnóstico. Na minha experiência, revisar o prontuário antes de emitir laudos com achados glandulares atípicos reduziu significativamente os encaminhamentos desnecessários para colposcopia.
Conduta recomendada e acompanhamento
Para celulas glandulares endocervicais presentes sem outras alterações, a conduta padrão é manter o rastreio convencional conforme as diretrizes vigentes. Se houver alterações associadas, como lesão escamosa intraepitelial de alto grau ou suspeita de lesão glandular, o encaminamento para colposcopia e biópsia é indicado. O teste de HPV co-teste também é útil como estratégia de triagem em mulheres acima de 30 anos. A periodicidade do acompanhamento varia conforme o resultado das avaliações subsequentes. Em casos de achado glandular isolado e benigno, a repetição do papanicolaou em 12 meses é suficiente na maioria dos protocolos. Se houver dúvidas ou achados sugestivos de neoplasia, o intervalo deve ser encurtado e a investigação aprofundada.
É importante destacar que a citologia ginecológica tem limitações. A sensibilidade para detectar lesões glandulares é menor do que para lesões escamosas, variando entre 40% e 60% dependendo da experiência do avaliador e da qualidade da amostra. Por isso, a combinação com teste de HPV e a colposcopia quando indicada são complementos essenciais, não opcionais. Nenhum método isolado oferece garantia absoluta de detecção precoce. O manejo correto exige integração entre citologia, testes moleculares e avaliação clínica. A presença de células glandulares endocervicais no papanicolaou é, na grande maioria das vezes, um achado esperado e benigno. A importância está em saber distinguir o normal do patológico, evitando tanto o excesso de intervenções quanto a negligência em casos que realmente precisam de investigação.