O que é cervicite crônica com metaplasia escamosa e como lidar com isso na prática
A metaplasia escamosa em contexto de cervicite crônica é uma das achados citopatológicos e anatomopatológicos mais frequentes no consultório de ginecologia. Não é uma doença rara, mas costuma gerar ansiedade desnecessária tanto em profissionais mais novos quanto em pacientes. O ponto central é entender o que está acontecendo tecidualmente antes de qualquer decisão terapêutica. A cervicite crônica se refere à presença prolongada de células inflamatórias — linfócitos, plasmócitos — no epitélio cervical. Quando esse processo se arrasta por meses ou anos, a zona de transformação, especialmente na ectocérvice ou na borda do estoma, passa por um mecanismo de resposta adaptativa: o epitélio colunar glandular é substituído progressivamente por epitélio escamoso estratificado. Isso é a metaplasia escamosa. O tecido novo é funcionalmente adequado ao ambiente vaginal e, na maioria absoluta dos casos, representa uma mudança benigna e reversível em termos de arquitetura.
Por que o laudo menciona cervicite crônica com metaplasia escamosa com tanta frequência
Um Papanicolau ou uma biópsia incidental frequentemente traz essa combinação de termos. A metaplasia em si não é neoplasia. O que importa clinicamente é o contexto: a presença concomitante de HPV de alto risco, alterações citológicas associadas (NILM, LSIL, HSIL), o aspecto colposcópicoe o índice de Ki-67 quando a anatomopatologia é solicitada. Aqui vai um detalhe que muitos perdem: a metaplasia escamosa imatura, aquela com camadasbasais ainda proeminentes e núcleos maiores, pode mimetizar CIN 1 em cortes histológicos mal orientados. Já vi laudos serem revisados por segunda via após um segundo parecer porque o primeiro patologista identificou mitoses atípicas onde não havia, simplesmente porque a metaplasia ativa gera células em divisão vigorosa que confundem a leitura inicial. O truque prático é pedir coloração para Ki-67 ou p16 em casos limítrofes. A p16 em bloco, quando positiva de forma difusa, aponta para influência do HPV de alto risco; quando negativa ou patchy, reforça a benignidade reativa da metaplasia.
Clinicamente: como se apresenta e quais são as queixas reais
Muitas pacientes com cervicite crônica e metaplasia escamosa são assintomáticas. A descoberta é incidental, feita em rastreamento de rotina. Quando há sintomas, os mais comuns incluem leucorreia persistente, sangramento pós-coito esporádico e desconforto pélvico leve. Mas é importante ser direto: esses sintomas são inespecíficos e podem provenir de vaginose bacteriana, candidíase, cervicite por Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae, ou simplesmente de irritação mecânica crônica. O que eu costumo fazer na minha prática é investigar a causa da inflamação antes de tratar a metaplasia. A metaplasia é resposta, não causa. Tratar a metaplasia sem identificar o estímulo inflamatório é desperdício de tempo e recurso. Em casos onde testagens para DSTs foram negativas e o colo parece apenas eritematoso com áreas de metaplasia visíveis a olho nu, a abordagem esperada é observação com acompanhamento colposcópico periódico. Se a colposcopia for normal e o CPA for NILM, não há urgência para qualquer intervenção cirúrgica.
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Um caso específico que ilustra a complexidade
No final de 2023, atendi uma paciente de 42 anos com CPA relatando NILM, colo aparentemente íntegro e metaplasia escamosa moderadamente abundante na biópsia incidental feita durante uma histerectomia supracervical anterior. O colposcopio era tranquilo, sem lesões acetobrancas marcantes nem padrão vascular atípico. A paciente questionava se precisava de conização. A resposta, baseada nas diretrizes da ASCCP e no quadro dela, foi acompanhamento com colposcopia anual e repetição de CPA em 12 meses. A lógica: sem lesão intraepitelial identificável, sem HPV isolado de alto risco documentado, a metaplasia por si só não indica procedimento ablATIVO. A paciente retornou 14 meses depois com CPA novamente NILM e metaplasia ainda presente, mas estável. Nenhuma progressão. O padrão se repetiu por três anos consecutivos até ela entrar em menopause e o acompanhamento ser encerrado conforme protocolo.
O que fazer passo a passo quando o laudo chega assim
Primeiro, confirmar se há testagem para HPV de alto risco integrada ao CPA ou realizada de forma isolada. Segundo, realizar colposcopia adequada, com solução acética a 3 a 5% e teste de Schiller para delimitar a zona de transformação. Terceiro, biopsiar apenas áreas suspeitas; não há indicação de biópsia em toda a extensão de uma metaplasia benigna. Quarto, correlacionar o resultado anatomopatológico com a colposcopia: se são concordantes e benignos, observar. Se há discordância — colposcopia normal mas anatomopatologia sugere CIN — repetir a colposcopia com biópsias dirigidas ou considerar cilindroscopia dependendo do caso. Quando a metaplasia é extensa e a zona de transformação está completamente para dentro do canal endocervical, a colposcopia pode ser limitante. Nesse cenário, aELS (escisao loop eletrica) diagnóstica pode ser considerada, mas não como rotina. É um procedimento que tem riscos próprios, incluindo estenose cervical e complicações obstétricas futuras. Use apenas quando realmente necessário.
Pitfalls comuns que todo profissional deveria conhecer
O erro mais frequente é tratar a metaplasia escamosa como se fosse uma doença em si. Crioterapia, lasercirugias e conizações realizadas apenas pela presença de metaplasia, sem lesão neoplásica comprovada, são procedimentos desnecessários e potencialmente prejudiciais. Outro erro é ignorar a metaplasia em pacientes imunossuprimidas ou portadoras de HIV. Nesses casos, o acompanhamento deve ser mais rigoroso, independentemente do CPA ser NILM, porque a resposta inflamatória crônica pode mascarar lesões mais avançadas. Também é comum ver médicos prescrevendo antissépticos vaginais ou antibioticoterapia empírica longa apenas pelo achado de cervicite crônica em laudo. Sem cultura ou PCR positivos, essa abordagem não tem fundamento e contribui para resistência microbiana e disbiose vaginal. Se não há infecção documentada, a inflamação crônica muitas vezes persiste por fatores mecânicos, hormonais ou relacionados a corpo estranho, e nãoresponde a antimicrobianos.
Resumo objetivo
cervicite crônica com metaplasia escamosa é, na maioria das vezes, um achado benigno e reativo. O manejo depende menos do laudo isolado e mais da integração entre CPA, testagem para HPV, colposcopia e, quando pertinente, anatomopatologia com marcadores imunohistoquímicos. Observação bem conduzida e seguimento estruturado costumam ser suficientes. Intervenção cirúrgica ou ablativa só se justifica diante de lesão intraepitelial confirmada, nunca pela metaplasia sozinha.