Ciclo Estral Em Cadelas - Ciclo Estral Em Cadelas - RETOEDU
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Guia prático do ciclo reprodutivo das cadelas

A maioria das pessoas acha que cachorro fêmea entra no cio uma vez por ano, como se fosse um calendário fixo. Na prática, o ciclo estral em cadelas varia muito de acordo com o porte, a raça e até o indivíduo. Eu já vi cadelas petites terem ciclos irregulares a cada quatro meses e cadelas de grande porte com intervalos consistentes de seis a oito semanas, o que vai contra tudo o que os manuais básicos ensinam. Antes de entrar nos estágios, preciso falar sobre uma coisa que eu aprendi na marra. Em 2019, eu tava cuidando de uma golden retriever de nome Luna. Ela tinha cios super regulares, então eu achava que sabia o jogo. Na terceira ninhada, a cadela apresentou todos os sinais externos normais, mas a ultrassonografia mostrou zero folículos dominantes. O veterinário descobriu depois que era uma pseudociese subclinica, um quadro bem mais comum do que se imagina. A partir daí, eu parei de confiar só na observação visual e passei a pedir dosagem de progesterona antes de qualquer decisão de monta.

O que é e como funciona o ciclo estral em cadelas

O ciclo estral canino não é mensal como em humanos. Ele é estritamente seasonal polyestrous, o que significa que as cadelas entram no cio várias vezes durante a estação reprodutiva, mas podem parar completamente no inverno dependendo da latitude e do clima local. Os quatro estágios são proestro, estro, diestro e anestro, e cada um tem uma duração e perfil hormonal próprios. O proestro dura em média de cinco a nove dias, mas já vi casos isolados durarem até duas semanas, principalmente em cadelas primíparas. Nessa fase, a vulva começa a inchar e surge um sangramento vaginal mais escuro e espesso. O comportamento muda: a cadela pode ficar mais afetosa, mais inquiet a ou rejeitar a aproximação de machos. O sangramento nessa fase não sinaliza fertilidade, então muitos criadores iniciam a monta erroneamente no primeiro dia de cor avermelhada.

O estro é a fase de receptividade. Dura entre cinco e treze dias, com média de nove dias. O sangramento clareia para um tom amarelo-esverdeado, e a cadela assume a postura de montagem, deslocando a cauda para o lado quando tocada na região lombar. O pico de LH acontece entre o segundo e o quarto dia de receptividade, mas a ovulação propriamente dita ocorre cerca de dois dias após esse pico. Isso significa que os óvulos liberados no estro podem não estar maduros para fecundação imediata, e o espermatozoide masculino precisa sobreviver no trato reprodutivo da fêmea por até cinco dias para encontrar o óvulo no momento certo. O diestro começa imediatamente após a ovulação, independente de haver ou não concepção. Dura aproximadamente sessenta a setenta dias, e nesse período os níveis de progesterona permanecem elevados. É nessa fase que surgem as pseudocieses, que afetam entre vinte e cinquenta por cento das cadelas intectadas em algum momento da vida. Sinais incluem produção de leite, construção de ninho e até comportamentos parentais com objetos. Eu já vi uma pastor alemã de nome Bella levar uma bola de tênis para debaixo da cama e tentar amamentá-la por três dias seguidos.

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O anestro é o período de repouso reprodutivo. Pode durar de dois a três meses em cadelas tropicais, mas em raças nórdicas como huskies e malamutes pode se estender por até seis meses, sincronizado com a variação da luz solar. Nesse estágio não há alterações hormonais significativas nem mudanças comportamentais visíveis. A contagem de progesterona sérica é o padrão ouro para prever a ovulação com precisão. O protocolo básico envolve coletar sangue a partir do terceiro dia de sangramento claro e repetir a cada dois dias até detectar níveis acima de cinco ng/mL, o que indica o início da maturação folicular. Quando atinge quinze a vinte ng/mL, a ovulação está iminente, geralmente nas próximas vinte e quarenta e oito horas. Para inseminação artificial, o recomendado é repetir a dosagem novamente quando atingir mais de trinta ng/mL, pois nesse ponto os óvulos estão prontos para fecundação. Criadores profissionais em São Paulo e no interior do estado costumam fazer o protocolo completo de três a quatro coletas por cio, o que custa entre trezentos e seiscentos reais por exame, dependendo da cidade e do laboratório.

A ultrassonografia ovariana complementa a dosagem hormonal, permitindo visualizar folículos com diâmetro superior a quatro milímetros, que são os folículos pré-ovulatórios. Já a citologia vaginal, feita por esfregaço corado com Giemsa ou rápido de Panótico, mostra a progressão de células parabasais para células superficializadas e a presença de leucócitos, o que ajuda a datar o estágio do ciclo com boa precisão. O esfregaço é rápido, leva cerca de dez minutos no consultório, e custa entre cinquenta e cento e cinquenta reais. Tem um detalhe que quase ninguém menciona nos guias básicos. Cadelas que foram castradas cirurgicamente durante o proestro ou o estro podem apresentar sangramento vaginal residual por até trinta dias após a cirurgia, o que leva muitos donos a confundirem com um novo ciclo. Eu mesmo fui chamado para avaliar uma vira-lata de quatro anos que estava sangrando duas semanas após a ovariohisterectomia, e o exame revelou apenas secreção hemorrágica residual na vagina, sem nenhuma atividade folicular ativa. O tratamento foi apenas observação e controle de infecção secundária com amoxicilina clavulanato por cinco dias.

Outro ponto importante é que cadelas pequenas, com menos de cinco quilogramas, tendem a ter primeiros cios muito precoces, alguns como jovens como aos seis meses de idade, enquanto cadelas gigantes como São Bernardos e Dogues Alemães podem levar até dezoito ou vinte meses para apresentar o primeiro estro. Ignorar essa variação de maturação sexual leva muitos criadores iniciantes a acharem que sua cadela tem algum problema reprodutivo quando na verdade só está no tempo normal dela. Quanto aos sinais comportamentais, a fêmea no estro marca território com frequência maior, urina em pequenas quantidades várias vezes ao dia, e pode apresentar inquietação persistente, especialmente durante a noite. Machos adultos a centenas de metros de distância conseguem detectar os feromônios liberdos pela cadela, o que explica por que é comum ver vários cães vagando pelos bairros durante a temporada de cios. Em áreas urbanas, isso representa um risco real de fuga e atropelamento, então algumas cidades têm programas de castração em massa justamente para reduzir esse comportamento errático.

Se você está pensando em cruzar sua cadela, o ideal é esperar pelo menos o terceiro cio antes de planejar a monta, garantindo que a fêmea atingiu maturidade esquelética e hormonal completa. Cruzamentos precoces aumentam o risco de distocia, de filhotes e complicações na mãe. O intervalo ideal entre ninhadas é de pelo menos doze a dezoito meses, permitindo que a cadela recupere reservas nutricionais e corpo físico adequado para a próxima gestação. Criadores amadores que forçam cios consecutivos sem intervalo suficiente frequentemente veem queda na qualidade do sêmen, aumento de reabsorção embrionária e menor taxa de sobrevivência dos filhotes. Para quem não pretende reproduzir, a castração eletiva antes do primeiro cio reduz drasticamente o risco de piometra, uma infecção uterina que atinge cerca de vinte e cinco por cento das cadelas intactas após os oito anos de idade, e também elimina o risco de tumores mamários hormonodependentes, que correspondem a aproximadamente noventa por cento dos tumores mamários em cadelas não castradas. A decisão sobre timing da castração deve ser discutida com o veterinário, considerando raça, porte e histórico familiar de doenças.