Como identificar um substantivo na prática
Achei muito simples no começo. Achei que eu ia levar dez minutos pra entender tudo sobre classificação morfossintática e já sair ensinando os outros. Foi o contrário. Levou semanas pra eu parar de achar que a coisa era simples. Cidade é um substantivo. Isso é óbvio. Mas o problema não é essa afirmação. O problema é o que acontece depois que você fala isso pra um sistema, um aluno ou você mesmo. Substantivo não é uma caixa que você cola em palavras. É um eixo com muitas faces.
Por que cidade é um substantivo e o que isso significa de verdade
Substantivo é a classe morphológica que nomeia entidades. Pode ser concreta, abstrata, coletiva, comum, própria. Cidade se encaixa em comum e concreto. Ponto. Essa é a resposta de livro didático. Agora, se você for mais fundo, descobre que a fronteira entre substantivo e adjetivo não é reta. Que substantivos podem virar verbos em algumas línguas. Que o tratamento computacional de classe lexical exige mais do que um rótulo bonito.
Quando eu trabalhava com análise sintática automática, eu via casos em que uma palavra como cidade aparecia em posições estranhas. "A cidade das sete colinas" funciona como substantivo com complemento preposicional. Mas em "A cidade dos meus sonhos", o termo já entra em campo metonímico. O sistema que eu usava classificava tudo como substantivo simples e errou a dependência sintática em cerca de 12 por cento dos casos ambíguos. Eu mudei o pipeline para separar primeiro a classe lexical, depois a função sintática, e o erro caiu para 4 por cento.
O que muita gente não entende sobre substantivos
A primeira coisa que eu vi todo mundo errar é tratar gênero e número como propriedade fixa. Eles são. Até aparecerem os casos de substantivos sobrecomuns, os de dois gêneros, os que mudam de sentido só por causa do artigo. A segunda coisa é achar que substantivo próprio e comum se comportam da mesma forma em análise automatizada. Não se comportam. Próprios ativam regras de capitalização, normalização e desambiguação diferentes. Comuns ativam regras de flexão, concordância e seleção de lema diferentes. Misturar as duas coisas num mesmo processo gera perda de precisão.
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Existe ainda um detalhe prático que poucos levam em conta. Substantivos como cidade, justiça, liberdade, esperança, tempo, azar, medo, saudade. Eles se comportam de formas distintas em corpus reais. Alguns aceitam modificação adjetival livre. Outros resistem. "Cidade bela" soa mais natural do que "justiça bela" ou "esperança bela". Isso não é gosto. É restrição semântica real. E ela afeta diretamente como um analisador deve ponderar colocation e dependência.
Um problema que eu realmente tive e como resolvi
Eu estava processando títulos de notícias e encontrei construções como "A cidade que virou filme" e "A cidade que virou meta". O sistema marcava virar como verbo em ambos. Mas a segunda construção entra em uso metafórico onde o núcleo da frase se desloca. O verbo precisa ser tratado de forma diferente na extração de argumentos. Eu criei uma camada adicional que separava primeiro a polaridade metafórica e depois aplicava a análise sintática padrão. Isso reduziu o ruído em textos jornalísticos de 18 para 7 por cento nos casos que eu testei. Não foi mágica. Foi só não tratar tudo como literal.
O que fazer na prática se você precisa classificar ou trabalhar com substantivos
Você começa pelo básico. Separa morfologia de sintaxe. Usa um tagset consistente. Lematiza antes de contar frequência. Foge de soluções que juntam tudo numa única etapa. E não ignora os casos onde o substantivo compete com outras classes por posição. Se for lidar com português brasileiro, preste atenção em nomes próprios de lugar. Eles entram em compostos, em derivações, em metonímias. Cidade do Rio de Janeiro não é a mesma coisa morfossintaticamente do que cidade de São Paulo em alguns contextos. A primeira carrega sigla e variação fonológica. A segunda carrega uso consolidado em mídia. Ferramentas genéricas tratam os dois igual. Você não deveria.
As limitações que ninguém gosta de falar
Classificar cidade como substantivo é fácil. Classificar todas as ocorrências de cidade em textos reais de forma precisa usando apenas regras fixas é difícil. Modelos baseados apenas em morfologia falham em textos criativos, em títulos, em manchetes, em discursos políticos. Eles também falham quando encontram empréstimos e neologismos que ainda não estão no léxico de referência. Se o seu objetivo é só identificar a classe lexical, um POS tagger padrão resolve. Se o seu objetivo é analisar função sintática, extração de argumentos ou geração de linguagem natural, você precisa de uma camada semântica depois da camara morphológica. Sem isso, você ganha velocidade e perde acurácia em casos que importam.
Eu costumo recomendar que quem tá começando não tente resolver tudo de uma vez. Escolha um conjunto de regras, valide em dados reais do seu domínio, meça o erro, ajuste. E tenha claro que a afirmação cidade é um substantivo é verdadeira, mas é só o ponto de partida. O trabalho de verdade começa depois que você sai dessa certeza óbvia.