O que todo farmacêutico que compõe soluções deveria saber sobre tonicidade
A classificação quanto a tonicidade é a divisão das soluções em isotônicas, hipertônicas e hipotônicas com base na pressão osmótica em relação aos fluidos corporais. Parece bicho de sete cabeças, mas na prática é mais cálculo do que misticismo. A questão é que soluções injetáveis, oftálmicas e nasais precisam respeitar essa classificação sob pena de causar dor, hemólise ou dano tecidual.
Como fazer a classificação quanto a tonicidade na bancada
O método mais usado no dia a dia é o do equivalente em NaCl, também chamado método da isotonização por cloreto de sódio. A lógica é simples: todo soluto tem um fator que indica quanto de NaCl seria necessário para gerar a mesma pressão osmótica. Esse fator é o valor E, que varia conforme a substância. O procedimento funciona assim. Você pega a quantidade de cada principio ativo no formulário, multiplica pelo seu respectivo valor E, some tudo e compara com a quantidade de NaCl que tornaria o veículo isotônico. Para soluções aquosas injetáveis, o padrão é 0,9% de NaCl, o que corresponde a 9 g/L ou 0,9 g a cada 100 mL. Se o total dos equivalentes em NaCl dos seus ingredientes já chegar perto disso, a solução já é isotônica. Se faltar, você completa com NaCl. Se passar, dilui com solvente ou adiciona agente abaixador como dextrose.
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Por exemplo, imagine que você está preparando 50 mL de uma solução oftálmica com 0,5% de cocaína. O valor E da cocaína hidrocloreto é aproximadamente 0,16. Isso dá 0,25 g do princípio ativo multiplicado por 0,16, resultando em 0,04 g de equivalente em NaCl. O volume de 50 mL requereria 0,45 g de NaCl para ser isotônico. A diferença é 0,41 g, então você adiciona essa quantidade de cloreto de sódio. Sem cálculo, a gota queimaria. O método de crioscopia é mais preciso, mas exige acesso às tabelas de redução crioscópica, conhecidas como valores t. Cada substância tem um t próprio que representa a queda no ponto de congelamento que ela provoca quando está a 1% em solução. A conta roda assim: você soma os produtos de concentração vezes t para todos os componentes, compara com o t esperado para o plasma, que é cerca de 0,52°C, e ajusta a partir daí. É o método que eu recomendo para formulações mais delicadas, porque o equivalente em NaCl às vezes erra na casa dos décimos, e em oftálmicos isso faz diferença na queimação.
Já vi farmacêutico confiar cegamente no valor E de tabelas genéricas e preparar uma solução hipertônica para via subcutânea sem notar. O paciente voltou duas vezes reclamando de dor local. A solução tinha metilparabeno e propilparabeno como conservantes, e os valores E usados eram para as formas ácidas, não para os sais. A correção foi refazer com os valores de equivalente para as formas iônicas, o que alterou o resultado em cerca de 18%. Isso mostra que a confusão entre forma livre e forma salina é um erro frequente que ninguém avisa com clareza suficiente. Outro problema real é a temperatura. A isotonidade medida a 25°C pode não corresponder exatamente à isotonidade corporal a 37°C, especialmente em soluções com eletrólitos fortes. A diferença é pequena, mas para infusões concentradas e soluções parenterais de alto risco eu uso o método de White-Vincent como verificação adicional. Ele calcula o volume que uma determinada quantidade de soluto ocuparia se fosse isoladamente isotônica, e a partir daí determina quanto diluente adicionar. É um passo extra, mas evita surpresas em lotes grandes.
Não existe solução perfeita aqui. O método do equivalente em NaCl falha quando há mistura de solventes orgânicos, quando a concentração de eletrólitos é muito alta ou quando o princípio ativo é um polímero ou surfactante. Nesses casos, a melhor saída é medir a tonalidade diretamente com um osmômetro de ponto de congelamento. Se o laboratório não tiver equipamento, vale enviar uma amostra para um centro de análise. O custo compensa quando o lote é grande ou o risco de reação adversa é real. Resumindo de forma útil: escolha o método de cálculo adequado ao tipo de via e à complexidade da fórmula, verifique se os valores de referência correspondem à forma química que realmente está na receita, e não tenha vergonha de confirmar com medição quando o margin de erro for crítico. Classificar quanto a tonicidade não é decorar tabela, é saber quando a tabela engana.