O problema que todo mundo subestima
Você está lendo um artigo e encontra uma frase interessante que, segundo o autor, foi retirada de outra obra. Seu instinto é pegar a citação, colocar entre aspas e pronto. Só que isso não funciona assim. A ABNT, a APA e a Chicago têm tratamentos diferentes para esse cenário, e errar a formatação é mais comum do que parece porque as pessoas confundem o que é fonte original com o que é fonte citada. Eu já passei aperto com isso em um mestrado quando meu orientador devolveu minha dissertação com observações sobre referências duplicadas. Eu havia citado um livro usando dados de outro livro, mas na lista de referências eu incluí ambos como se tivessem sido consultados diretamente. A correção foi remover a referência do livro secundário e ajustar o corpo do texto. Isso levou duas horas de retrabalho que poderia ter sido evitado com uma leitura mais atenta das normas.
Como citar citação de citação passo a passo
O processo consiste basicamente em três coisas: identificar a fonte primária (a autora original da ideia), identificar a fonte secundária (o livro ou artigo que você efetivamente leu e que contém a citação), e documentar ambos corretamente. A parte mais chata é que a maioria dos estudantes esquece de mencionar a fonte primária no corpo do texto e só deixa nos parênteses, o que gera ambiguidade. No sistema da ABNT NBR 10520:2023, quando você quer citar algo que leu em outra obra, você usa a expressão latina "apud". O formato no corpo do texto fica assim: (SOBRENOME DO AUTOR ORIGINAL, ano, apud SOBRENOME DA FONTE QUE VOCÊ LEU, ano, página).
Já na APA 7ª edição, que é mais usada em ciências sociais e exatas internacionalmente, a coisa funciona de forma diferente. Você coloca o autor original na narrativa e o autor da obra secundária dentro dos parênteses, com "as cited in" no meio. Exemplo: Maria Silva (2018, citada em João Santos, 2022, p. 45) argumenta que... A Chicago Manual of Rules, por sua vez, dá preferência a notas de rodapé. Na primeira menção, você detalha tudo na nota. Nas subsequentes, usa uma versão encurtada. Isso evita a poluição visual dos parênteses no corpo do texto, o que muitos pesquisadores mais velhos consideram uma vantagem clara.
A referência bibliográfica final só deve incluir a fonte que você realmente leu. Ninguém vai à biblioteca consultar o livro original se você só o encontrou mencionado em outro lugar. Se você tiver acesso à obra primária, aí sim, leia-a diretamente e cite-a como fonte principal. Isso elimina toda a complexidade do "apud" e é, francamente, o caminho mais seguro academicamente.
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Armadilhas comuns que eu já vi acontecer
O erro mais frequente que encontro em trabalhos acadêmicos é a citação duplamente citada sem o "apud". O estudante vê uma citação num livro e simplesmente coloca a referência do livro original na bibliografia como se tivesse lido a obra inteira. Isso é considerado má conduta acadêmica em muitos programas de pós-graduação porque distorce a trilha de pesquisa. Outro problema recorrente é a confusão entre citação direta e citação indireta nesse contexto. Quando você parafraseia uma ideia que encontrou em outra obra, não precisa usar "apud" no corpo do texto — você apenas declara que a ideia veio do autor original, mas foi encontrada na obra secundária. O "apud" é especificamente para quando você reproduz as palavras exatas do autor original tal como aparecem no texto da obra que você leu.
Um caso específico que me marcou aconteceu quando eu estava revisando um artigo para uma revista científica. O autor havia citado trechos longos de um filósofo do século XVIII que só existiam em uma tradução francesa contemporânea. Quando verifiquei, descobri que a obra francesa nem citava o filósofo diretamente — ela apenas discutia interpretações dele. Ou seja, era uma cadeia de citações de terceira mão disfarçada de fonte primária. O artigo precisou ser revisado duas vezes antes de ser aceito.
Alternativas quando a norma não se aplica
Se você está escrevendo para um veículo que não segue ABNT, APA ou Chicago, o mais comum é simplesmente atribuir a autoria original e mencionar onde a encontrou. Exemplo: conforme argumentou Foucault (1975, apud Ratti, 2020, p. 88), o poder não se restringe... Alguns editores preferem que você busque a fonte original mesmo que isso signifique traduzir trechos de outro idioma ou acessar obras raras. Isso é tecnicamente mais rigoroso, mas na prática, para pesquisas em humanas com fontes históricas indisponíveis, o "apud" é amplamente aceito desde que documentado corretamente.
O que eu recomendo na prática é sempre tentar localizar a obra primária. Mesmo que você só tenha acesso a um resumo ou a uma seção digital, ler o contexto original evita mal-entendidos de interpretação. Um parágrafo retirado do seu contexto pode significar algo completamente diferente do que a obra secundária sugere. Eu já vi isso acontecer com frequência em revisões de pares — citações que pareciam apoiando um argumento na obra secundária, mas que na realidade estavam sendo criticadas pelo autor original.