O que realmente acontece quando se lê um editorial
A linguagem editorial não é nada do outro mundo, mas também não é uma regra fixa que você aprende num curso e aplica para sempre. Ela opera numa zona cinzenta entre o jornalístico e o argumentativo, e a maioria das pessoas confunde simplesmente porque os editoriais mais comuns seguem um padrão chato de texto institucional. Quando eu trabalhava na redação de um diário regional, tínhamos aquele problema chato com editoriais que pareciam discursos presidenciais. O texto tinha que falar sobre políticas públicas de saúde, mas o redator usava uma estrutura tão solene que ninguém lia além do segundo parágrafo. Eu mudei o enfoque: em vez de começar com "Faceamos hoje um desafio", eu entrava direto com o dado. O resultado foi que a taxa de leitura até o final subiu cerca de 40%. Não era mágica, só deixar de tratar o leitor como se ele estivesse numa solenidade.
como é a linguagem de um editorial
A linguagem de um editorial se caracteriza por usar a primeira pessoa do plural — "nós" — como voz institucional, não como referência pessoal. Isso significa que o "nós" é o veículo de comunicação falando, não o jornalista individual. É uma distinção importante porque muitos aspirantes a redatores usam o "nós" de forma confundida, misturando o coletivo institucional com a opinião pessoal, o que gera um efeito estranho de duplo sentido que desgasta a credibilidade do texto. O tom é formal sem ser erudito, direto sem ser coloquial. O texto editorial pressupõe que o leitor já tem algum nível de informação sobre o assunto, então não se entra explicando conceitos básicos como se fosse uma matéria introdutória. Se você precisa explicar o que é um orçamento público antes de opinar sobre ele, provavelmente está escrevendo uma reportagem, não um editorial.
Os editoriais também têm aquela particularidade de usar verbos no presente do indicativo de forma sistemática. Não é uma escolha estética, é uma convenção que dá sensação de vigência e urgência ao argumento. "O governo deve revisar" funciona melhor do que "O governo deveria revisar" porque o presente carrega a ideia de que aquilo é uma questão atual, não hipotética. Uma coisa que pouca gente leva em conta é o uso da impessoalidade seletiva. Você pode e deve seropinativo, mas evita nomes próprios quando não são estritamente necessários. Em vez de citar o nome de um secretário específico, usa-se o cargo. Isso protege o veículo de acusações de personalismo e mantém o foco na instância, não no indivíduo. Foi exatamente esse ajuste que resolveu um problema que tínhamos há meses com um editorial sobre corrupção na prefeitura. O texto original citava nomes de agentes públicos e gerou processo por difamação. A reescrita focou nas instituições e nos fatos, mantendo a força crítica sem expor o veículo a riscos legais.
A estrutura típica funciona assim: introdução com a tese central, desenvolvimento com argumentos encadeados, e fechamento com uma recomendação ou posicionamento claro. O problema é que muitos textos travam no desenvolvimento porque entram em detalhes desnecessários. Um editorial precisa ser sintético. Se você gasta dois parágrafos explicando o contexto histórico de um fato, já perdeu o leitor. O contexto pode ser dado em uma ou duas frases, no máximo. O vocabulário tende a privilegiar termos abstratos e conceituais — justiça, transparência, democrácia, interesse público. Isso não é acaso. Esses termos funcionam como âncoras que dão peso ao argumento, mas o excesso deles torna o texto vago e genérico. O equilíbrio está em alternar conceitos abstratos com exemplos concretos, mesmo que breves.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um erro frequente é a tentativa de agradar todos os lados. Um editorial que tenta ser equilibrado demais acaba não tendo posição nenhuma. O texto editorial precisa assumir um ponto de vista e defendê-lo com clareza. Se o tema é polêmico, a ambiguidade não é estratégia inteligente — é sinal de que o redator não sabe o que quer dizer. A diferença entre um bom editorial e um ruim muitas vezes está no ritmo das frases. Frases muito longas com múltiplas orações subordinadas cansam o leitor. Frases curtas demais soam infantis. O ideal é variar: uma frase longa para construir o raciocínio, seguida de uma curta para marcar o ponto principal. Isso cria um movimento natural de leitura que prende a atenção sem esforço.
Também é comum ver editoriais que repetem a mesma ideia com palavras diferentes ao longo do texto. Parece redundância inofensiva, mas na prática dilui o impacto do argumento. Cada parágrafo deve avançar o raciocínio, não girar em torno dele. Se você percebe que um parágrafo poderia ser cortado sem prejudicar o sentido geral, corte. Não há motivo para inflar o texto. O fechamento é talvez a parte mais negligenciada. Muitos editorais terminam de forma abrupta, como se o texto parasse porque acabou o espaço disponível. Um bom fechamento deve retomar a tese inicial de forma renovada, não repetida. É a última impressão que o leitor leva, então ela precisa ter peso. Uma frase de encerramento bem construída vale mais do que três parágrafos de recapitulação.
Existem editoriais que funcionam muito bem em veículos pequenos e locais. O segredo nesse caso é a proximidade com o tema. Quando o assunto é conhecido pelo leitor local, não há necessidade de muita contextualização. O texto pode ir direto ao ponto porque o público já vive aquilo. Num grande veículo nacional, a coisa é diferente — o leitor pode não ter familiaridade com o assunto, e aí o editorial precisa fazer um trabalho maior de enquadramento, sem perder o foco argumentativo. A linguagem editorial também carrega uma carga modalizadora importante. O uso de expressões como "é fundamental que", "cumpre ao governo", "não se pode ignorar" cria um senso de obrigação e urgência que é central para o gênero. Sem esses marcadores, o texto perde a força persuasiva e se aproxima demais de uma simples análise informativa.
Se você está começando agora, o exercício mais útil é ler editoriais de veículos diferentes e comparar. Veja como o Estadão constrói um argumento diferente de como o Fazendo Notícias faz. Observe a escolha vocabular, o ritmo, a forma como cada um lida com a controvérsia. A prática de leitura crítica é mais eficiente do que qualquermanual teárico. Um detalhe técnico que muitos ignoram: a concordância verbal nos editoriais segue a norma padrão de forma rigorosa, mas com uma flexibilidade estratégica em relação à regência. Expressões como "existe problemas" aparecem com frequência em textos mal revisados, mas o correto seria "existem problemas". Isso não é pedantismo gramatical — é questão de credibilidade. Um erro desses pode minar a confiança do leitor no texto inteiro.
No fim das contas, a linguagem de um editorial é uma ferramenta de poder simbólico. O veículo usa esse gênero para exercer influência sobre a opinião pública, e isso exige precisão tanto na forma quanto no conteúdo. Não adianta ter a melhor ideia do mundo se ela está envolta em palavras mal construídas. O formato importa tanto quanto a mensagem.