Como É O Solo Do Cerrado - Como é O Solo Do Cerrado - ZULEDU
Como é O Solo Do Cerrado - ZULEDU

O solo do cerrado não é o que a maioria imagina quando chega lá

Quando eu cheguei na primeira área de pesquisa em cerrado, em 2011, achava que ia encontrar terra preta de verdade. Encontrei algo bem diferente. Solo vermelho-amarelado, extremamente intemperizado, com perfil que se estende por dois, três metros sem mostrar nenhuma esperança de material madre fresco. Isso muda tudo na hora de planejar qualquer cultivo ou restauração. A textura é predominantemente arenosa nos níveis superiores.argissolos e latossolos são as classes que aparecem com mais frequência. A camada arável em muitos casos fica entre 15 e 30 centímetros. Abaixo disso, a densidade aparente sobe rápido e a penetração de raízes fica severamente limitada. É um dos fatores que mais causa frustração em produtores que migram de outras regiões para o cerrado e esperam o mesmo comportamento que encontraram no cerrado gaúcho ou na soja mato-grossense.

como é o solo do cerrado na prática

O ponto mais importante que ninguém deixa claro em material didático é a capacidade de trocas catiônicas. Esses solos têm CEC baixa mesmo. Em argissolos típicos do Planalto Central, a CTC entre 0 e 20 centímetros varia de 3 a 8 cmolc/dm³. Sim, isso é baixo. E a saturação por alumínio é alta nos primeiros 30 centímetros em áreas não corrigidas. O alumínio solúvel despenca a fixação de fósforo e limita o crescimento radicular de forma severa. A calagem não é recomendada como opcional. Ela é o primeiro passo obrigatório se você quer qualquer coisa que não seja capim crescendo ali. Quanto ao fósforo, a fixação é brutal. Em latossolos vermelhos, doses de 200 kg/ha de P2O5 podem resultar em apenas 15 a 25 por cento de disponibilidade no primeiro ciclo. O resto fica preso em óxidos de ferro e alumínio. Por isso o manuseio da adubação fosfatada exige aplicação em profundidadeno sulco de plantio, nunca distribuído na superfície. Quando eu vi um produtor espalhando superfosfato simples no plantio de milho safrinha e cobrindo com gradeleve, o resultado foi perda de quase 70 por cento do fósforo aplicado nos primeiros 45 dias. A correção foi mudar a profundidade de colocação para 8 a 10 centímetros e usar fosfato monoamônico no sulco, com custo maior, mas resposta de produtividade que compensou.

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A orgânica também é um problema silencioso. Teores de carbono entre 10 e 20 g/kg são comuns na camada superficial. Isso limita a agregação e a retenção de água. Em áreas degradadas por pastejo contínuo, o carbono pode cair para menos de 8 g/kg nos primeiros 10 centímetros, o que já é preocupante para sustentabilidade de longo prazo. A adição de palhada e a integração lavoura-pecuária-floresta melhoram isso, mas o efeito é cumulativo. Em cerca de três a quatro anos, a densidade aparente cai de 1,4 para 1,15 g/cm³ em condições bem manejadas. Essa diferença de 0,25 g/cm³ é enorme quando você considera infiltração e desenvolvimento radicular. Um detalhe que pouca gente leva a sério é a variabilidade espacial dentro da mesma propriedade. Um latossolo e um argissolo podem ficar colados a menos de 200 metros de distância no mesmo relevo suave ondulado. Mapas de eletrorresistividade ou amostragem sistemática em grade de 2,5 por 2,5 hectares salvaram um projeto de restauração que eu acompanhei em Minas Gerais. Os primeiros mapeamentos de manejo integrado erraram completamente a dose de calcário porque trataram toda a área como homogênea. A correção parcelada reduziu o desperdício de insumos em cerca de 30 por cento e melhorou a eficácia da calagem em 40 por cento na parte mais ácida do talhão.

Outro ponto que gera confusão é a drenagem. Apesar de pareceres arenosos, muitos argissolos do cerrado têm camadas subsuperficiais com estrutura prismática que compacta naturalmente. Quando chove forte, a água encontra resistência e FORMA uma camada temporariamente saturada a 40 ou 50 centímetros de profundidade. Culturas sensíveis como cafezal e seringueira sofrem muito com isso. O uso de subsolagem em profundidade de 40 a 50 centímetros resolve parcialmente, mas o efeito dura em média quatro anos. Depois disso, a recompactação natural retoma. Se você está planejando um investimento permanente, a escolha da cultura precisa considerar isso desde o início, não só a textura do topo do solo. A parte positiva é que o manejo pode ser muito eficiente. A correção de acidez com calcário dolomítico, a adubação fosfatada em profundidade, a manutenção de cobertura morta e a rotação com leguminosas formam um pacote que entrega resultados consistentes. O limite real fica na disponibilidade de água no solo durante a seca do inverno. A maioria desses solos tem capacidade de armazenamento útil entre 80 e 120 mm nos primeiros 60 centímetros. Em anos secos, isso não sustenta culturas anuais sem irrigação suplementar ou cultivo de variedades tolerantes a déficit hídrico.

Se você está começando a trabalhar com esses solos agora, a primeira recomendação prática é fazer análise de solo em profundidade, não apenas na camada zero a dez centímetros. Coletar em camadas de 0 a 10, 10 a 20, 20 a 40 e 40 a 60 centímetros vai mudar completamente a sua leitura do manejo necessário. O custo extra de coleta é baixo. O erro de aplicar dose baseada apenas na superfície custa caro na próxima safra.