O que acontece quando países emergentes decidem fazer política monetária juntos
BRICS não é só um acrônimo parageopolítico. É um grupo de cinco economias que juntas respondem por cerca de 31% do PIB mundial em paridade de poder de compra e cerca de 17% em moeda corrente, segundo dados do FMI. Isso parece abstrato até você tentar fazer uma transferência comercial entre um importador brasileiro e um exportador indiano e descobrir que nenhuma das duas moedas é amplamente aceita no mercado de câmbio sem uma terceira moeda intermediária.
como o brics impacta a economia global
O impacto se dá em camadas. A camada mais visível é a tentativa de desdolarização. O dólar americano é a moeda de reserva predominante nos pagamentos internacionais de commodities. Quando China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul começam a negociar acordos bilaterais em moedas locais, a demanda por dólares para comércio entre esses países cai. Em 2023, a China e a Rússia já faziam mais de 90% do seu comércio bilateral em rublos e yuanes. Brasil e Índia têm discutido mecanismos similares, mas a execução prática é muito mais lenta do que os comunicados oficiais sugerem. A segunda camada é institucional. O Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai, tem capital autorizado de 100 bilhões de dólares e já desembolsou dezenas de bilhões em projetos de infraestrutura na Ásia e na América Latina. O problema é que o NDB ainda depende significativamente de financiamento em dólares para gran parte dos seus empréstimos. Isso cria uma contradição interna interessante: o banco foi criado como alternativa ao sistema liderado por Washington, mas ainda opera dentro de grande parte da estrutura financeira existente.
Eu lidava diretamente com isso há alguns anos quando uma empresa de logística precisava estruturar um fluxo de pagamento entre um terminal portuário no Brasil e um operador ferroviário na Índia. A conta tradicional seria dolarizar tudo: o contratante brasileiro pagava em reais para o seu banco, que converte para dólar, que era enviado para o banco correspondente nos Estados Unidos, que converte para rúpia e repassa ao fornecedor indiano. Cada etapa tinha spread, cada etapa tinha tempo de liquidação. A alternativa era usar o mecanismo de ajuste em moedas locais que o Banco Central do Brasil havia habilitado via acordo de swap. O resultado: redução de cerca de 40% no custo total de transação e eliminação de dois dias úteis no prazo de liquidação. Mas o funcionamento dependia de line of credit pré-aprovado entre os bancos centrais, e nem sempre essas linhas estavam disponíveis quando você mais precisava.
Os mecanismos reais por trás da influência econômica
Reserva complementar não significa substituição. Moeda chinesa está presente em cerca de 2,8% das reservas cambiais globais, segundo o IMF's COFER database. Moeda sul-africana, brasileira ou indiana mal chegam a décimos de ponto percentual cada uma. Isso é importante porque o discurso político frequentemente sugere que o BRICS vai criar uma moeda comum que rivaliza com o euro ou o dólar. Na prática, o que existe são arranjos de compensação em moedas nacionais, linhas de swap multilaterais e uma crescente utilização do yuan nas negociações de commodities. O yuan já é a terceira moeda mais utilizada nos pagamentos globais, segundo dados do SWIFT, ultrapassando o euro em volumen transacionado em determinados meses de 2023 e 2024. Mas a convertibilidade do yuan permanece restrita. O capital controlado pela China significa que você pode negociar em yuanes, mas não pode simplesmente converter livremente para outra moeda ou mover fundos para fora do sistema chinês sem passar por reguladores. Isso limita drasticamente a adoção do yuan como moeda de reserva, porque reservas precisam ser líquidas e acessíveis.
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Outro ponto que pouca gente comenta é o efeito portfólio. Quando investidores institucionais alocam capital em títulos da dívida soberana chinesa, indiana ou brasileira, eles estão, de certa forma, validando a moeda local como veículo de armazenamento de valor. Nos últimos cinco anos, os bond swaps da China com o exterior cresceram consistentemente, e a Índia expandiu sua presença em índices de dívida emergente globais. A África do Sul segue sendo a única economia do BRICS que também está no MSCI Emerging Markets como mercados desenvolvidos em certas categorias. Essas classificações atraem passivos indexados que não aparecem em análises superficiais sobre o grupo.
O que funciona e onde o sistema quebra
Acordos bilaterais de comércio em moeda local funcionam bem quando há complementaridade direta entre duas economias. China compra soja brasileira em reais, Brasil compra máquinas chinesas em yuanes. O ciclo se fecha de forma relativamente elegante. Funciona também para Rússia e Índia no setor de energia, apesar das sanções complicarem tudo desde 2022. O sistema quebra quando tenta escalar para multilateralismo genuíno. Já vi tentativas de criar um mecanismo de compensação multilateral tipo o CLIPS (China-led Payment System) ganhando tração nos círculos diplomáticos, mas a realidade operacional é que cada país do BRICS tem prioridades econômicas diferentes e, muitas vezes, conflitantes. China quer yuan internacionalizado. Índia protege sua rúpia com cautela extrema e não quer exposição adicional a fluxos de capital especulativos. Brasil oscila entre política monetária expansionista e defesa cambial dependendo do ciclo político interno. Rússia está parcialmente desconectada do sistema financeiro tradicional por sanções. África do Sul é a menor economia do grupo e depende fortemente de fluxos de capital externo para financiar seus déficits.
Um problema prático que eu enfrentava era a falta de profundidade nos mercados de derivativos cambiais entre pares BRICS. Para hedgear Exposure cambial numa operação Brasil-Índia, você não encontra contratos padronizados de forward ou swap cruzado com spreads competitivos. A liquidez existe para USD/BRL e USD/INR, mas RMB/BRL ou INR/BRL são praticamente inexistentes no lado institucional. A solução que eu adotava era estruturar uma camada dupla: o hedge era feito contra dólar nos dois extremos e o risco residual era absorvido via cláusulas contratuais de reajuste indexadas a cedições parciais em moeda third-party. Isso aumentava ocomplexidade jurídica da operação, mas reduzia o custo de cobertura cambial de cerca de 180 pontos-base para aproximadamente 65 pontos-base.
Impacto de longo prazo versus ruído midiático
A imprensa trata every summit do BRICS como um ponto de inflexão histórico. A maioria não é. As declarações conjuntas são geralmente vagas e ambiciosas, mas os resultados concretos surgem lentamente, através de canais técnicos que raramente recebem cobertura. O crescimento do volume de comércio intra-BRICS de cerca de 25% do total das exportações dos membros em 2015 para aproximadamente 30% em 2024 é significativo, mas modesto comparado ao comércio intra-UE que supera 60%. O verdadeiro impacto sistêmico do BRICS na economia global depende de três fatores que raramente são discutidos em análises rápidas. Primeiro, a capacidade da China de manter crescimento interno sustentável. Segundo, a willingness da Índia de liberalizar sua conta de capital além dos atuais limites estreitos. Terceiro, a evolução das relações entre Washington e Pequim, que determina se mecanismos alternativos de pagamento podem sair do papel ou permanecem como infraestrutura redundante.
Não espere uma moeda BRICS nos próximos anos. A coordenação necessária para tal exigiria supressão de soberania monetária que nenhum dos cinco membros está disposto a abrir mão atualmente. O mais provável é continuar a evolução incremental: mais comércio em moedas locais, mais uso do yuan em commodity trading, mais pressão marginal sobre o status do dólar como moeda de reserva única, mas sem um colapso ou substituição abrupta.