A roupa do homem pantaneiro não é fantasia, é equipamento
Vou ser direto. O homem pantaneiro se veste para sobreviver ao mato, ao calor, aos carrapatos e aos animais peçonhentos. Tudo o que você vê de tradicional aí na internet tem uma função prática por trás. Se alguém tentar te vender isso como "estilo", tá enganado. O conjunto básico se divide em três partes: o chapéu, as botas e a roupa em si. Vamos começar pelo chapéu. O chapéu de palha ou de couro com aba larga protege o rosto e o pescoço do sol intenso da cheia e da seca. O modelo mais comum é o chapéu de couro de boi, feito artesanalmente por curtipadores da região. Tem uma aba que gira, chamada de "asa de morcego", que o homem abaixa quando chove e sobe quando quer ventilar. Isso não é enfeite. Quem já passou um dia debaixo de sol sem isso sabe.
Como se veste o homem pantaneiro
A roupa em si é simples: camisa de manga longa de algodão grosso ou sarja, calça de algodão resistente (geralmente bege ou azul-escuro), meia cano alto e bota de couro de cano alto. A calça é importante porque o capim alto rasga tecido fino. O Pantanal tem vereda, grama-seixo, e vegetação que devora roupas normais em dois dias. As botas são o item mais crítico. A bota pantaneira é de couro de peito de boi, sola de borracha ou couro dependendo da tarefa, com ponteira reforçada. O cano vai até acima do joelho. Eu já vi homem montar cavalgada de seis horas de estrada de terra com bota rasa de vaqueiro e voltar com o canelo rachado de tanto atritar com o estribo. A bota certa custa entre 180 e 400 reais hoje em dia, dependendo da marca e do couro. Vale cada centavo se você TRABALHA no Pantanal. Se for só para usar uma vez num festival, aluga.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um detalhe que quase ninguém menciona: o cinto. O cinto pantaneiro é largo, de couro, com fivela grande, geralmente de metal prateado ou dourado. Ele segura a calça que, por peso e movimento, tende a cair. Além disso, no cinto se prende a navalha, o facão pequeno e, em muitos casos, a bolsa de loneta com coisas que o homem precisa durante o dia. Sem cinto forte, você fica interrompendo a cavalgada o tempo todo para segurar a calça. O lenço no pescoço também não é moda. É para limpar o rosto suado, proteger o pescoço de sol, e servir de pano de boca se o cantil acabar. Eu já vi homem que insistiu em não usar lenço passar o resto do dia com queimadura de sol no pescoço e olho lacrimejante por causa do salsaparrilha voando. Não é exagero.
Quanto às cores: o branco e o bege dominam porque refletem o sol. O azul escuro e o preto aparecem mais em ocasiões formais ou festas. No dia a dia, ninguém usa preto puro no mato. Mancha com terra, sangue e barro e não sai mais. É perda de tempo trocar de roupa todo dia. O acessório final é o poncho, usado principalmente na temporada de inverno, de junho a agosto. O poncho é de lã ou malha grossa, enrolado nos ombros e amarrado na frente. A chuva no Pantanal não avisa. Começa seca e em cinco minutos tá desabando. Um poncho bem feito dura anos. Um barato de feira desfia na primeira chuva forte. Se for comprar, prefira os artesanais de Corumbá ou de Miranda, que têm costura dupla nos pontos de tensão.
Resumo prático: se você quer vestir o homem pantaneiro de verdade, comece pela bota e pela calça resistente. O resto você adapta conforme a temperatura e a atividade do dia. O chapéu é obrigatório no verão. O poncho, no inverno. O lenço, sempre.