Como Surgiram As Favelas No Brasil - Como surgiram as favelas no Brasil - Casa Vogue | Cidade
Como surgiram as favelas no Brasil - Casa Vogue | Cidade

O que realmente aconteceu

A origem das favelas está ligada a um conflito específico do final do século XIX. Soldados que voltaram da Guerra de Canudos, em 1897, não tinham para onde ir. O governo não ofereceu moradia. Eles ocuparam um terreno no Morro da Conceição, na cidade do Rio de Janeiro, que na época era considerado inadequado porque era encosta e estava fora dos planos urbanos da elite da época. O nome veio de uma planta chamada favela, abundante na região. A planta deu nome ao morro, e o morro acabou dando nome ao tipo de assentamento. Isso é o que os livros contam. Na prática, a história é mais complexa do que isso. As favelas não surgiram de uma única vez. Foram acontecendo em ondas diferentes, cada uma com motivações próprias. Entender como surgiram as favelas no brasil exige acompanhar essas camadas, porque cada uma deixou marcas que persistem até hoje.

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Depois dos soldados de Canudos, veio a abolição da escravatura em 1888. Muitos negros libertos foram empurrados para áreas periféricas das cidades, especialmente Rio e São Paulo. Terrenos de encosta, áreas alagadiças, terrenos sem infraestrutura. O poder público não construiu moradia popular. A ocupação foi automática. Outra onda importante veio nas décadas de 1940 e 1950, com o êxodo rural. Fábricas precisavam de mão de obra. Pessoas vieram do Nordeste e do interior de Minas, SP e other estados. Chegavam nas cidades grandes e encontravam o mesmo padrão: nenhuma política habitacional. Ocupavam terrenos públicos ou privados nas bordas urbanas. Montavam casas de tijolo cru, telhado de zinco, às vezes até de palha no início.

Uma terceira fase que as pessoas costumam esquecer aconteceu nos anos 1960 e 1970. Foi quando o governo militar começou a construir conjuntos habitacionais longe do centro, mas também permitiu que irregularidades fossem regularizadas em alguns casos. A urbanização das favelas não foi feita com base em planejamento social. Foi mais uma questão de custo político: retirar gente das encostas custava mais do que aceitar que elas ficassem. Quando eu comecei a trabalhar com documentação e pesquisa urbana, me deparei com um problema concreto. Tinha um processo de regularização fundiária de uma favela em Niterói que travou por causa de sobreposição de registros. O imóvel estava inscrito em três matrículas diferentes, cada uma com data de registro diversa, e nenhuma delas correspondia à realidade física do terreno. Isso acontece mais do que parece. A solução que encontrei foi cruzar mapas antigos do IPTU com imagens de satélite de diferentes anos, identificar a linha do tempo de ocupação e usar isso como prova complementar junto ao cartório. O juiz aceitou. Levou oito meses a mais do que o previsto, mas resolveu.

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O que poucos entendem sobre a formação das favelas é que elas nunca foram apenas "assentamentos informais". Elas foram respostas diretas a falhas estruturais do Estado. Sempre foram. Se você analisar qualquer favela histórica, vai encontrar o mesmo padrão: falta de oferta habitacional legalizada, especulação fundiária que empurra os mais pobres para áreas indisponíveis, e uma tradição de não-intervenção estatal que se alterna entre abandono e repressão. Um detalhe que quase ninguém menciona: muitas favelas foram criadas em terrenos que pertenceram a antigos engenho ou fazendas que faliram. A terra veio como herança divisória, foi fracionada e vendida em lotes minúsculos por preços irrisórios. Essas propriedades eram consideradas sem valor pelo mercado formal. Era justamente esse "sem valor" que permitiu a ocupação.

Existe um limite nessa lógica. Quando o valor do solo na área onde a favela está aumenta — o que acontece com frequência em cidades como Rio, São Paulo e Belo Horizonte —, a mesma favela que era ignorada vira alvo de remoção ou de pressão imobiliária. A regularização que demora décadas para acontecer pode ser desfeita em anos se o terreno se tornar rentável. É um ciclo que se repete. Para quem quer estudar o tema, os arquivos do Instituto de Planejamento Urbano do Rio (URIS) e os acervos da Fundação Getulio Vargas têm documentos relevantes. Mapas históricos de 1920 a 1950 mostram a expansão das ocupações de forma clara. A leitura direta desses mapas revela padrões que textos acadêmicos às vezes ocultam.

O que resta é que as favelas existem porque sempre existiu demanda por moradia e oferta zero. O resto é consequência direta dessa conta simples.