Como Surgiu As Favelas - As favelas têm memória: o lugar dos territórios periféricos como ...
As favelas têm memória: o lugar dos territórios periféricos como ...

As origens das favelas brasileiras

O tema de como surgiu as favelas carrega uma história que muita gente superficialmente resume a "migração do Nordeste para o Sudeste". A verdade é mais complicada e remonta ao final do século XIX, com raízes militares.

Como surgiu as favelas: o início tudo

A palavra "favela" nasce de uma planta, a favela-branca ou retama (Spartium junceum), comum na serra da Favela, no município de Canudos, na Bahia. Era onde moravam os soldados que partiram para a Guerra de Canudos, em 1897, um conflito sangrento contra o movimento liderado por Antônio Conselheiro. O Exército brasileiro conseguiu vencer, mas muitos daqueles homens voltaram para o Rio de Janeiro sem emprego, sem terra e sem perspectiva. Eles se assentaram no Morro da Conceição, na época ainda fora do perímetro urbano consolidado da capital. Batizaram o local como Morro da Favela, em homenagem à terra natal. Foi ali que nasceu a primeira aglomeração popular que daria nome a todo um tipo de assentamento no Brasil. Os outros veteranos formaram pequenos núcleos nos morros vizinhos: Morro do Pinto, Morro do Altinho, Morro da Viração. O que era uma vila de ex-soldados virou referência para os que vieram depois.

Isso acontece no fim do século XIX, antes mesmo da abolição da escravidão em 1888 ter sido totalmente assimilada pela sociedade. A cidade do Rio passava por uma reforma urbana brutal, promovida pelo prefeito Pereira Passos, que demolia cortiços inteiros no centro da cidade sob o pretexto de "embelezar" o Rio de Janeiro, então Capital Federal. As pessoas expulsas precisavam morar em algum lugar. Os morros próximos ao centro eram a opção mais viável, pois estavam desocupados e não tinham fiscalização efetiva.

O processo de consolidação

Não foi algo que aconteceu de uma vez. O cenário se agravou nas décadas seguintes, principalmente com o êxodo rural que se intensificou entre as décadas de 1940 e 1970. Milhões de pessoas deixaram o interior do Nordeste, de Minas Gerais e de outras regiões do Brasil em busca de emprego nas indústrias e nos serviços das grandes cidades do eixo Rio-São Paulo. As cidades não tinham estrutura para acolher esse fluxo. As famílias iam se instalando em terrenos públicos ou privados que estavam descartados pela especulação imobiliária. Terrenos em encostas, áreas de preservação, fundos de vale. O Estado ausente. A pessoa construía com o que conseguia: madeira, zinco, tijolo mal cozido, telha de amianto. Aos poucos, o morro ganhava ruas (ou caminhos, porque muitas vezes não havia planejamento urbano), comércio informal, igrejas. A favela se auto-organizava porque ninguém vinha organizar por ela.

Um ponto importante que pouca gente leva em conta: a favela nunca foi apenas um problema habitacional. Ela sempre foi também uma resposta política e social. As comunidades desenvolveram formas próprias de organização, associações de moradores, coletivos, que às vezes conseguiam pressionar por serviços básicos como água, luz e asfalto. Isso aconteceu em diversos morros cariocas a partir dos anos 1970 e 1980, com destaque para movimentos como o da Maré, no Rio de Janeiro, que chegou a ser um dos maiores complexos de favelas do Brasil.

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Mitos sobre a origem das favelas

Existe um mito recorrente de que favelas surgiram porque pessoas sem-teto invadiram terrenos aleatoriamente. A realidade é mais estrutural. A maioria dos moradores de favelas era formada por trabalhadores formais ou informais que simplesmente não tinham acesso ao mercado imobiliário legal. Os aluguéis no centro das cidades eram altíssimos, e os programas habitacionais governamentais, quando existiam, eram insuficientes e frequentemente localizados em periferias distantes, sem transporte ou infraestrutura. Também é errado pensar que favela é algo exclusivamente contemporâneo. Ela tem mais de 120 anos de existência institucionalizada, mesmo que a denominação tenha tido um peso pejorativo durante grande parte dessa trajetória. O próprio termo foi apropriado e ressignificado por comunidades e intelectuais como forma de afirmação identitária, especialmente a partir dos anos 2000, com movimentos como a Culturama e coletivos de rap e poesia nas quebradas.

Os fatores que perpetuaram o fenômeno

Se você quer entender de verdade como surgiu as favelas e por que elas continuam existindo, precisa olhar para três mecanismos que se reforçam mutuamente: Especulação imobiliária: Terrenos bem localizados, perto de centros urbanos e empregabilidade, são mantidos vazios ou subutilizados por proprietários que aguardam valorização. O morro é a única opção disponível porque o plano horizontal já está ocupado por usos mais lucrativos.

Ausência de política habitacional contínua: O Brasil teve programas como o My House My Life, mas eles são intermitentes e muitas vezes direcionados a áreas ainda mais distantes do que os morros existentes. Reconhecer a favela como parte da cidade e investir em urbanização é muito menos atraente politicamente do que construir conjuntos habitacionais em terras baratas longe de tudo. Segregação espacial: A cidade formal e a favela são duas realidades que coexistem no mesmo espaço geográfico mas operam sob regras diferentes. Isso gera desigualdade no acesso a serviços públicos, segurança, mobilidade e oportunidades de emprego. A lógica é simples: quanto mais segregado, mais caro custa viver bem.

Um caso prático que ilustra a complexidade

Trabalhando com documentação de terrenos em áreas de morro, uma dificuldade recorrente é a sobreposição de títulos. Um mesmo lote pode ter três ou quatro "donos" dependendo de qual documento você analisa: escritura registrada em cartório, recibo de compra e venda particular, declaração de posse da associação de moradores, ou até mesmo uma autorização informal da prefeitura. Isso não é exceção, é a regra em muitas favelas consolidadas. A solução que eu encontrei e que funciona na prática é cruzar os registros da prefeitura com os da Associação de Moradores do local e, quando possível, com a matriz do Cartório de Registro de Imóveis. Nem sempre dá certo, porque muitos morros simplesmente não têm correspondência entre esses registros. Mas quando consegue, você identifica quem tem legitimidade real sobre o terreno. O processo leva tempo, depende da qualidade do arquivo público de cada município, e em várias cidades do interior nem existe digitalização. Em alguns casos, o único caminho é a usucapião, que exige residência comprovada por cinco a dez anos, dependendo da área e do valor do imóvel.

O que a pesquisa acadêmica diz hoje

Estudiosos como Marcelo Lopes dos Santos, Joel Jorge Pereira e Teresa Caldeiraproduziram pesquisas fundamentais para entender as favelas para além do senso comum. A conclusão central é que a favela não é uma anomalia urbana, mas sim uma forma legítima e histórica de ocupação do espaço nas cidades brasileiras. Ela revela falhas estruturais do modelo de desenvolvimento urbano que privilegiou o mercado formal e ignorou a demanda por moradia da população de baixa renda. O conceito de "cidade formal" e "cidade informal" como separadas é, segundo esses autores, uma ilusão. Elas são partes de um mesmo tecido urbano, conectadas por fluxos de pessoas, dinheiro e informações. A diferença está no acesso desigual a direitos e infraestrutura.

Conclusão honesta

Não existe solução simples para as favelas. Urbanização com titularidade plena, programa de regularização fundiária, investimento em transporte público e serviços de saúde e educação são caminhos que funcionam quando implementados de forma consistente e de longo prazo. Onde falham é na descontinuidade política e na falta de vontade de enfrentar os interesses imobiliários que se beneficiam do status quo. Sem isso, as favelas continuam surgindo, não por decisão individual, mas por falta absoluta de alternativa.