Como Surgiu O Sertanejo - Descubra como surgiu a música sertaneja raiz
Descubra como surgiu a música sertaneja raiz

A Origem Real do Sertanejo, sem Romantização

Quando eu comecei a trabalhar com curadoria de discos de MPB e música regional brasileira, um dos primeiros problemas que enfrentei foi rastrear a linhagem real do sertanejo, porque praticamente toda fonte superficial confunde duas coisas completamente diferentes: o sertanejo de raiz, que veio do sertão nordestino, e o sertanejo universitário, que nasceu nos anos 1980 em São Paulo. São gêneros com o mesmo nome mas histórias distintas, e muita gente pesquisa "como surgiu o sertanejo" sem perceber essa divisão.

Como surgiu o sertanejo de fato

O sertanejo autêntico remonta ao final do século XIX e início do XX, nascido nas terras de mineração e criação de gado do interior paulista e mineiro. As raízes musicais vêm das tradições folclóricas portuguesas, da modinha e do lundu, que se fundiram com os sons indígenas e africanos das regiões interioranas. O gênero tinha uma característica estrutural que o diferenciava: o dueto masculino de viola caipira. Dois violões, tocando harmonias paralelas, com voz cantada por cima. Essa formação era a base. Os primeiros registros fonográficos surgiram na década de 1920. Artistas rurais gravaram para a Odeon e para a RCA Victor, trazendo canções que falavam do campo, da saudade, do amor impossível e da vida nômade do gado. O que muitos não sabem é que o termo "sertanejo" original se referia aos músicos que vinham do sertão nordestino, especificamente aqueles que tocavam emboladas e xotes. Com o tempo, a expressão migrou para descrever toda a música do interior paulista, o que causou uma confusão historiográfica que persiste até hoje.

Na década de 1950, o sertanejo teve seu primeiro grande ciclo de popularização nacional com duplas como Zezé di Camargo e Luciano, e Os Travessos. Esse foi o período em que o gênero se profissionalizou pela primeira vez, com rádios transmitindo as músicas para todo o país e gravações em estúdio se tornando a norma. O formato de dupla masculina com viola era onipresente. As letras seguiam temas recorrentes: a terra, a partida, a mulher ausente, a bebida como consolo.

A Virada dos Anos 1980

O ponto de ruptura real aconteceu nos anos 1980, quando os irmãos Leandro e Leonardo introduziram elementos pop na estrutura do sertanejo. Eles começaram a usar guitarras elétricas, baterias e sínteses, aproximando o som da música pop contemporânea. Essa é a origem direta do sertanejo universitário, que se consolidou nas décadas seguintes como o gênero dominante no Brasil. O que mudou não foi apenas a instrumentação. A estrutura composicional também se transformou. O sertanejo tradicional seguia formas mais livre, influenciadas pela modinha e pela marcha. O sertanejo universitário adotou uma estrutura de verso, pré-refrão e refrão mais padronizada, próxima da formulação pop internacional. Isso facilitou a penetração nas rádios e no mercado fonográfico, mas também tornou a produção mais previsível.

Uma coisa que os manuais de história da música brasileira frequentemente omitem é o papel das feiras e rodeios na manutenção do sertanejo de raiz. Enquanto o gênero urbano crescia, as duplas caipiras continuavam tocando em festas sertanejas no interior de São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul. Esses espaços são fundamentais para entender a preservação do estilo original. Sem essas feiras, a viola caipira teria desaparecido muito antes.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Problemas Práticos ao Pesquisar a História

Aqui vai algo que ninguém conta: a discografia das décadas de 1920 a 1950 é fragmentada e mal catalogada. Muitas gravações originais foram perdidas ou estão espalhadas por coleções privadas. Quando eu precisava localizar uma faixa específica de um artista sertanejo dos anos 1930 para um projeto de restauração, gastava em média quatro horas vasculhando catálogos de selos extintos como a Columbia e a Pathé antes de encontrar uma cópia digitalizada. O processo é lento e frustrante, mas é assim que a pesquisa histórica funciona na prática. Outro problema comum é a confusão entre sertanejo e música caipira. Nem tudo que é tocado com viola é sertanejo. A música caipira tem raízes mais antigas e diferentes, ligadas diretamente ao folclore português. O sertanejo absorveu elementos caipiras, mas também incorporou influências do jongo, do tambor e de ritmos africanos do interior. São camadas sobrepostas que precisam ser distinguidas.

Se você quer entender genuinamente como surgiu o sertanejo, a recomendação prática é ouvir o acervo da Odeon dos anos 1930, seguido pelas gravações da RCA Victor dos anos 1940 e 1950. Essas coleções mostram a evolução do gênero em sua forma mais pura, antes das influências pop dos anos 1980. O site da Discogs também tem informações úteis sobre sessões de gravação e selos, mas a qualidade dos metadados é irregular. Prefira fontes primárias quando possível.

O Que Sobrou do Sertanejo Autêntico

O sertanejo de raiz ainda existe, mas ocupa um nicho muito menor no mercado brasileiro. Artistas como Tião Carreiro e Pardinho, e mais recentemente grupos como Cavalos de Aço, mantêm a tradição da viola caipira viva. A cena alternativa de sertanejo também cresce em cidades como Campinas e Ribeirão Preto, com músicos que misturam o tradicional com influências contemporâneas. O sertanejo universitário, por outro lado, domina as paradas e os streaming platforms. Duplas como Jorge & Mateus, Gusttavo Lima e Marília Mendonça construíram impérios musicais baseados nessa estética moderna. O volume de produção é imenso, mas a originalidade temática diminuiu. A maioria das músicas segue o mesmo padrão harmônico e narrativo.

A diferença entre os dois estilos vai além do som. Reflete uma mudança social mais ampla: o êxodo rural brasileiro, o surgimento de uma classe média no interior e a urbanização das culturas musicais. O sertanejo de raiz carrega essa memória de um Brasil que quase desapareceu. O sertanejo universário carrega o presente de um Brasil urbano e conectado. Ambos são legítimos. Apenas contam histórias diferentes. Para quem estuda o gênero com seriedade, o conselho é simples: não confie em resumos de Wikipedia ou em listas de "top 10 origens do sertanejo" que circulam na internet. Essas fontes simplificam demais uma história complexa. Vá às fontes primárias, ouça as gravações antigas e construa sua própria compreensão. O sertanejo merece esse cuidado porque sua história é mais rica do que a versão comercial admite.

O gênero nasceu da convivência entre culturas — portuguesa, indígena, africana — em um contexto específico de trabalho rural e mobilidade. Essa mistura produziu algo que nunca mais se repetiu da mesma forma no Brasil. Entender isso exige paciência e acesso a material que não está facilmente disponível. Mas o esforço compensa, porque o sertanejo é uma das expressões musicais mais genuínas do país, e sua origem reflete diretamente a história do Brasil interiorano.