Contos De Fadas Dos Irmãos Grimm - CONTOS DE FADAS DOS IRMÃOS GRIMM autor JACOB GRIMM | Shopee Brasil
CONTOS DE FADAS DOS IRMÃOS GRIMM autor JACOB GRIMM | Shopee Brasil

O que você realmente precisa saber sobre os contos de fadas originais

A maioria das pessoas que chega até os contos de fadas dos irmãos grimm hoje só conhece as versões adaptadas para filmes e livros infantis. O material original é completamente diferente e, se você for ler sem preparo, vai se surpreender com o conteúdo. Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm começaram a publicar em 1812 com dois volumes que continham 86 histórias. Na última edição revisada em 1857, já eram 200 contos, e o texto foi suavizado várias vezes ao longo das décadas para se adequar ao público infantil europeu da época.

contos de fadas dos irmãos grimm: onde encontrar edições confiáveis

Se você quer ler o que foi realmente escrito, não compre a primeira coleção barata que aparecer na livraria. A maioria das edições brasileiras mistura traduções de fontes diferentes, cortam trechos inteiros e ainda adicionam ilustrações que não têm nada a ver com o período. Eu já perdi tempo tentando conciliar duas traduções diferentes porque uma cena que eu achava impossível nos termos originais fazia sentido quando você via o texto em alemão mesmo. A edição que eu recomendo como ponto de partida é a da Editora 34, traduzida por Heloisa Jahn. Ela segue o texto das edições finais dos irmãos e mantém os cortes mais razoáveis. Tem dois volumes, o que é mais tranquilo de manejar. Se você quer ir além e ver as diferenças entre as primeiras e as últimas versões, a editora Unicamp fez um trabalho bom com comentários acadêmicos que mostram exatamente o que mudou em cada reinvestimento ao longo dos anos.

Para quem lê em alemão, a edição da Academia de Ciências de Berlim (Berlin-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften) disponível online em grimmfriends.org e no projeto Gutenberg-DE é a referência completa. Todos os volumes, todas as variantes anotadas, tudo acessível de graça. É o padrão usado por pesquisadores e não tem igual em custo-benefício. Um problema real que eu encontrei na prática: muitas editoras usam como fonte uma tradução do século XIX feita por Margaret Taylor para o inglês, que por sua vez já era adaptada. Isso significa que o texto português pode ter passado por três camadas de filtragem antes de chegar até você, e cada uma delas removeu elementos culturais, trocou nomes, mudou finais. Sempre verifique a nota de tradução na obra. Se não tiver, desconfie.

Como diferenciar as edições e evitar surpresas

A diferença entre as sete edições oficiais é enorme. No primeiro volume de 1812, você encontra histórias como "The Robber Bridegroom" em forma bruta, com cenas de canibalismo explícito e violência sem qualquer tentativa de disfarce. Nos volumes de 1857, essas cenas foram modificadas ou removidas. "Hansel and Gretel" tinha uma mãe biológica como antagonista nas primeiras versões; a madrasta entrou nas revisões porque a ideia de uma mãe querendo matar os próprios filhos era considerada inadmissível pelo público burguês do século XIX. Isso não é especulação — está documentado nos cadernos de anotações dos próprios Grimm que estão disponíveis online. Outro detalhe que quase ninguém menciona: os irmãos Grimm não eram escritores originais. Eles eram filólogos e folcloristas que coletaram histórias que lhes foram contadas. A principal fonte era Dorothea Viehmann, uma mulher da classe trabalhadora que narrava histórias que ouvira da mãe e de outras pessoas em Worms, Alemanha. Eles registraram as histórias conforme ela as contava, mas fizeram edições posteriores em cima das versões anotadas, muitas vezes inspirados em contos literários franceses e italianos. Então quando você lê "Cinderela" nos Grimm, na verdade está lendo uma versão alemã de uma tradição que também produziu o "Cendrillon" de Perrault, e os Grimm sabiam disso e mesclaram elementos das duas.

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Se você está procurando os contos mais fiéis à tradição oral germânica, preste atenção a quais fontes os tradutores citam. Traduções que não listam as fontes orais ou os manuscritos utilizados são problemáticas. Eu recomendo ficar com edições que tenham apparatus crítico, mesmo que isso torne a leitura mais lenta. Vale a pena.

Contos que merecem atenção especial e os que causam mais confusão

Dentro do acervo completo, existem certas histórias que sempre geram mal-entendidos. "Rapunzel", por exemplo, tem uma cena em que a princesa engravida do príncipe enquanto está prisã na torre, e a feitora (a bruxa) descobre quando nota que Rapunzel engordou. Nas versões adultas para crianças, essa parte simplesmente desaparece. Em algumas traduções brasileiras, a gravidez é totalmente omitida mas a consequência também, deixando a trama com um buraco lógico que o leitor precisa preencher sozinho. "Frozen" da Disney se baseia em "Snow White", não em "Frozen". A confusão acontece porque o nome das irmãs bruxas no filme parece remeter a algo nórdico, mas a história central é a da branca de neve dos Grimm, com a rainha invejosa, o espelho mágico e o veneno. A única conexão real com o título original é o tema do gelo que os cineastas adicionaram como elemento visual. É um exemplo de como o mercado de adaptações distorce a procedência das histórias.

Se você quer uma lista prática do que ler primeiro, comece por estes que representam bem a variedade do acervo: "Branca de Neve", "Chapeuzinho Vermelho", "Rapunzel", "O Gato de Botas" (sim, os Grimm também têm essa, e é diferente da versão de Perrault), "Os Músicos de Bremen", "A Rainha das Abelhas" e "Jorge e a Rosa". Estes últimos dois são menos conhecidos fora da Alemanha mas mostram melhor o lado ritualístico e simbólico que os irmãos buscavam preservar.

Limitações e o que o livro não entrega

Os contos de fadas dos irmãos grimm não são um manual de moral. Não espere lições claras de fim de capítulo. Eles eram considerados documentos folclóricos, registros de uma tradição oral que estava desaparecendo com a industrialização. A intenção dos irmãos era preservar, não educar. Muitas histórias terminam de forma ambígua ou abrupta porque essa era a estrutura das narrativas orais que eles coletaram. Você vai encontrar finais onde os personagens simplesmente vivem felgados sem nenhuma resolução de conflito anterior, e isso é normal para o gênero. O grande problema das coleções modernas é que elas selecionam apenas os contos mais palatáveis. A edição definitiva dos Grimm contém histórias com incesto implícito, violência extrema, canibalismo e temas sexuais que nenhuma editora brasileira sensata tenta vender para o público geral. Se você acha que a coleção completa é adequada para crianças, está enganado. As próprias irmãs Grimm introduziram cortes justamente por esse motivo nas edições finais, mas muitos trechos permanecem.

Uma alternativa se o objetivo for estudo sério é consultar "Children's and Household Tales" em traduções acadêmicas anotadas, como a da Oxford World's Classics, traduzida por Jack Zipes. As notas dele explicam cada variação entre edição e edição, contextualizam as fontes orais e indicam onde os Grimm alteraram o material original. É mais caro e mais pesado, mas é o padrão-ouro para quem leva o assunto a sério. Para quem quer apenas ler por prazer sem se aprofundar em questões acadêmicas, as edições da Editora 34 ou da Companhia das Letras atendem bem. Ambas têm traduções dignas e capas que não parecem destinadas a crianças de cinco anos, o que já é um diferencial importante em relação a muitas opções disponíveis nas prateleiras.