As camadas que compõem o interior do nosso planeta
A Terra não é uma bola maciça de rocha uniforme. Ela se organiza em camadas distintas, cada uma com composição, densidade e comportamento mecânico diferentes. Entender cores do globo terrestre exige separar o que é geoquímica do que é geofísica, porque nem sempre as fronteiras entre essas camadas são tão nítidas assim no mundo real.
O que são cores do globo terrestre na prática
O termo se refere às divisões internas da Terra: crosta, manto, núcleo externo e núcleo interno. Essa estrutura foi deduzida principalmente a partir de dados sísmicos. Ondas P e S se comportam de maneira diferente quando passam por materiais com propriedades distintas, e é assim que sabemos onde cada camada começa e termina. A descontinuidade de Mohorovičić marca a base da crosta. Fica a cerca de 5 a 70 quilômetros de profundidade, dependendo se é crosta oceânica ou continental. A crosta continental pode chegar a 70 km na região do Himalaia. A oceânica é bem mais fina, em média 7 km. Esse detalhe importa porque a composição também muda. A crosta continental é mais rica em sílica e alumínio. A oceânica é mais máfica, com maior teor de magnésio e ferro.
Em seguida vem o manto, que ocupa a maior parte do volume terrestre, cerca de 84%. Começa logo abaixo da descontinuidade de Moho e vai até cerca de 2.900 km de profundidade. O manto superior inclui a litosfera, que engloba a crosta mais a porção rígida do manto acima da astenosfera. A astenosfera, por sua vez, é essa zona parcialmente fundida entre 100 e 200 km de profundidade onde as rochas ficam quentes o suficiente para fluir plasticamente ao longo de escalas de tempo geológicas. Aqui tem um detalhe que muita gente errou na minha época de doutorado. A astenosfera não é um mar de magma líquido. É rocha sólida que deforma por creep dislocacional e difusional nas condições de pressão e temperatura do interior terrestre. A fração fundida, quando existe, fica abaixo de 1% em volume na maior parte da zona. Mas mesmo essa pequena quantidade é suficiente para reduzir drasticamente a rigidez e a velocidade das ondas sísmicas. Foi exatamente isso que observei nos dados de tomografia sísmica que processei em 2019: anomalias de baixa velocidade coincidindo com zonas de subducção onde a crosta oceânica libera água, rebaixando o ponto de fusão do manto acima dela.
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O manto inferior, de 660 a 2.900 km, é onde as pressões tornam os minerais do manto superior incompatíveis. Olivina se transforma em wadsleyte, depois em ringwoodita na zona de transição. Mais fundo, Brookita e silicatos de perovsquite dominam. A diferença de densidade na descontinuidade de 660 km é um dos filtros mais importantes para o movimento de plumas mantélicas. Algumas sobem através dela. Outras ficam presas e se espalham horizontalmente. Não tem regra fixa, depende da taxa de fluxo e da viscosidade local. O núcleo externo começa em 2.900 km e vai até 5.150 km. É a única camada verdadeiramente líquida no interior da Terra. Composta principalmente de ferro e níquel, com elementos leves como enxofre, oxigênio e possivelmente hidrogênio em quantidades menores. O fato de ser líquido é o que explica a ausência de ondas S nessa região. Ondas P atravessam, mas sofrem refração intensa, criando a zona de sombra sísmica entre 103 e 143 graus do epicentro. Esse padrão foi a primeira evidência sólida de que o núcleo externo é fluido, descoberta que veio com Gutenberg em 1914.
Já o núcleo interno, de 5.150 km ao centro, é sólido apesar da temperatura estimada em torno de 5.200 a 5.700 °C. A pressão acima de 330 GPa impede a fusão do ferro nessas condições. O núcleo interno também gira um pouco mais rápido que o resto do planeta. Estudos de oscilações sísmicas de longo período sugerem uma diferença de rotação de cerca de 0,1 a 0,5 graus por ano em relação ao manto. Isso gera tensão na interface núcleo-manto, que por sua vez afeta a dinâmica do campo magnético. O campo magnético terrestre nasce no núcleo externo através do efeito dínamo. O movimento convectivo do ferro líquido, combinado com a rotação planetária (efeito Coriolis), gera correntes elétricas que sustentam o campo. Sem o núcleo externo líquido, a Terra teria um campo muito mais fraco, semelhante ao de Marte. E sem campo magnético, o vento solar erosionaria a atmosfera com o tempo. Esse é um dos motivos pelos quais a estrutura em camadas não é apenas curiosidade acadêmica.
Tem limitações que precisam ser mencionadas. A resolução dos dados sísmicos diminui com a profundidade e varia muito conforme a distribuição de estações. Regiões como o sul do Oceano Atlântico têm cobertura sísmica escassa. Modelos como o PREM (Preliminary Reference Earth Model) são boas aproximações globais, mas escondem heterogeneidades locais importantes. Se você trabalhar com modelagem de prospecção mineral ou monitoramento vulcânico, precisa de modelos regionais, não do PREM genérico. Outro ponto: a fronteira entre manto e núcleo não é uma superfície lisa. Existem as ULVZs, as ultralow velocity zones, faixas de poucos quilômetros de espessura na base do manto onde as velocidades sísmicas caem abruptamente. Provavelmente são áreas com maior fração fundida ou acúmulo de crosta oceânica subduzida que alcançou essa profundidade ao longo de milhões de anos. Ignorar ULVZs em estudos de dinâmica do manto inferior pode levar a interpretações equivocadas dos padrões de convecção.
Se quiser se aprofundar, o USGS mantém tabelas atualizadas com espessuras e densidades médias de cada camada. Também recomendo o artigo de Dziewonski e Anderson de 1981, que apresentou o PREM, como referência básica. Para algo mais recente sobre a rotação diferencial do núcleo interno, as revisões de Song exidier entre 2015 e 2022 são boas. O importante é entender que cada descontinuidade representa uma mudança física real, não apenas um nome bonito num livro didático. A forma como essas camadas interagem define desde a deriva continental até a proteção contra radiação cósmica. E sim, isso tudo foi construído com anos de coleta de dados, refino de modelos e, honestamente, muita frustração com dados ruins.