Cubismo Tarsila Do Amaral - Tarsila do Amaral: cubismo e brasilidade
Tarsila do Amaral: cubismo e brasilidade

Entendendo o cubismo de Tarsila do Amaral na prática

O cubismo tarsila do amaral é um período mal documentado em muitos livros de história da arte brasileiros. A maioria dos textos pule direto para o Modernismo e à Semana de 22, como se a passagem de Tarsila pela Europa e pela assimilação das vanguardas europeias fosse irrelevante. Isso é um erro.

A fase cubista de tarsila do amaral: o que todo mundo ignora

Tarsila passou cerca de três anos em Paris, entre 1920 e 1923, estudando com Professores Bernard and Saglio. As obras que produziram nesse período — "As Banhistas" (1922), "Montanha" (1923), "Carnaval" (1923) — mostram uma leitura séria de Cézanne filtrada pelo cubismo analítico e sintético de Picasso e Braque. Os planos geométricos se sobrepromovem, a paleta se restringe a terrosos e azulados, e a figuração se desenha até quase a abstração. O problema é que praticamente todo material didático no Brasil resume Tarsila a "Abaporu" e ao antropofagismo. A fase parisiense recebe duas linhas em antologias. Eu já tentei montar um catálogo ilustrado dessa produção pré-modernista e tive que recorrer a arquivos esparsos no Museu de Arte de São Paulo e em coleções particulares. O acervo documental dessa fase é fragmentado.

Quando eu queria analisar com precisão a evolução das formas em "As Banhistas", encontrei uma dificuldade concreta: as reproduções disponíveis online eram de baixa resolução e, em muitos casos, alteradas digitalmente para realçar cores que não correspondem ao estado original da tela. A tinta de Tarsila nessa fase tem um desgaste específico — pigmentos à base de terra que escureceram com a oxidação. Prints de museu digitalizado geralmente não capturam essa textura, o que distorce completamente a leitura da pincelada e da construção plana que ela estava experimentando. A solução que funcionou pra mim foi cruzar fotografias de arquivo em preto e branco tiradas quando as telas ainda estavam intactas com imagens multiespectrais publicadas por restauradores. Dessa forma consegui recompor a intenção compositiva sem confiar cegamente nas reproduções coloridas atuais. Levei cerca de uma semana fazendo esse trabalho de comparação para cada obra-chave. O resultado foi bem mais confiável do que qualquer livro acessível.

O que poucos notam é que o cubismo de Tarsila nunca foi uma cópia do modelo francês. Ela aplicava a gramática geométrica europeia a uma sensibilidade tropical. Na análise da forma, os corpos em "As Banhistas" não seguem a lógica de fragmentação típica de Picasso. Eles são reduzidos a volumes cilíndricos e cônicos, com uma organização espacial que lembra mais a pintura de Cézanne do que o cubismo ortodoxo. Isso é importante porque mostra que a apropriação dela era seletiva desde o início. Outro ponto que passa despercebido: a paleta dessa fase é muito mais restrita do que a do período antropofágico posterior. Enquanto "Abaporu" (1928) explode em cores primárias saturadas, as telas parisienses operam num espectro quase monocromático. Terrosos, ocres, azuis-acinzentados e pretos dominam. Muitos iniciantes confundem isso com falta de ousadia. Não é. É uma decisão composicional. A restrição cromática serve para que a estrutura geométrica se imponha sem competir com a cor.

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Há também um detalhe técnico que vale a pena considerar. Tarsila pintava nessa fase sobre telas de algodão, não de cânhamo. O suporte era mais elástico e absorvia a tinta de maneira diferente. Isso explica por que algumas obras apresentam craqueladuras em padrões distintos das pinturas europeias da mesma época. Se você está analisando tecnicamente essas telas, prestar atenção ao suporte faz diferença na interpretação do desgaste e da intenção original. O cubismo tarsila do amaral não é um capítulo secundário na biografia dela. É o laboratório onde as ferramentas que ela usaria para criar o Modernismo brasileiro foram forjadas. Sem entender essa fase, a leitura do resto da trajetória fica incompleta. O que eu vejo sendo repetido demais é a ideia de que Tarsila "descobriu" o Brasil artisticamente do nada. Ela construiu algo novo a partir de um repertório europeu que dominou com criticidade, não com submissão.

Se você quer estudar essa fase com algum rigor, o caminho mais direto é consultar os catálogos ragionné do Museu Tarsila do Amaral e as publicações da Bienal de São Paulo que tratam especificamente do período parisiense. O acervo da Pinacoteca também tem Material digitalizado acessível. Nem tudo está online, mas o que existe é suficiente para começar uma análise séria se você souber onde procurar.