Cultura Erudita E Popular - Cultura Erudita Popular E De Massa - RETOEDU
Cultura Erudita Popular E De Massa - RETOEDU

O que separa (ou não) o que se ensina na universidade do que aparece no rádio

A distinção entre cultura erudita e popular existe desde que algum sociólogo decidiu que precisava colocar nomes nas coisas. Na prática, funciona como um mapeamento aproximado, útil para discussões acadêmicas, mas que se desfaz rapidamente quando você tenta aplicar em qualquer contexto real. Eu lido com isso há anos em projetos de curadoria cultural, e o problema mais frequente não é conceitual — é prático. Cultura erudita se refere ao conjunto de produções artísticas, literárias, musicais e filosóficas que passam por um processo de seleção institucional. Isso significa que museus, universidades, editoras de prestígio e grandes orquestras são os filtros. Cultura popular, por sua vez, é tudo aquilo que circula de forma orgânica nas camadas mais amplas da sociedade, sem necessariamente passar por nenhum crivo acadêmico ou institucional. Ocorre nas ruas, nas redes sociais, nos aplicativos de streaming, nos bares.

Entendendo a relação entre cultura erudita e popular

O erro mais comum de quem começa a estudar o tema é tratar essas duas categorias como caixas estanques. Elas não são. A música sinfônica do século XIX bebia de fontes folclóricas Húngaras, romenas, espanholas. Compositores como Bartók e Liszt literalmente gravaram canções populares e as inseriram em obras clássicas. O jazz nasceu nas comunidades negras americanas como expressão popular e hoje é disciplina obrigatória em conservatórios. O próprio conceito de erudição mudou — o que era considerado entretenimento descartável no passado frequentemente acaba canonizado décadas depois. Em Portugal e no Brasil, essa troca é especialmente visível. A música erudita portuguesa dos séculos XVIII e XIX absorveu intensamente ritmos e formas populares da época. De forma semelhante, no Brasil, a MPB dos anos 1960 e 1970 operava nessa zona cinzenta constantemente. Tom Jobim estudava harmonia clássica e escrevia sambas. Chico Buarque lia Foucault e escrevia canções que entravam no rádio. Separar isso artificialmente é perder informação importante.

Um problema específico que encontrei na prática ocorreu durante um projeto de financiamento público para um festival musical em São Paulo. Precisávamos categorizar as propostas para distribuir verba entre eixos temáticos. A comissão avaliadora exigia uma classificação binária: erudito ou popular. Uma proposta de um grupo que fazia releituras de música barroca brasileira usando instrumentos eletrônicos foi rejeitada duas vezes porque não se encaixava em nenhuma das duas categorias. A burocracia do edital não previa essa possibilidade. A solução que encontrei foi reescrever a submissão completa, posicionando o grupo como erudito e destacando explicitamente o trabalho de pesquisa musicológica por trás das arranjos. Funcionou na terceira submissão. Isso revela algo importante: a classificação muitas vezes não reflete o conteúdo, reflete a estratégia de enquadramento. Quem sabe jogar melhor esse jogo institucional tende a conseguir mais recursos, independentemente da qualidade do trabalho.

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Há nuances que poucos mencionam. Primeiro, o que chamamos de cultura popular hoje frequentemente será estudado como erudita amanhã. Estudos sobre funk carioca, sertanejo e até reggae já aparecem em programas de pós-graduação de universidades brasileiras e portuguesas. Segundo, a divisão carrega um viés de classe que raramente é questionado nos discursos institucionais. A cultura erudita é frequentemente tratada como superior, e essa hierarquia silenciosa permeia editais, seleções curatoriais e políticas públicas de forma quase invisível. O terceiro ponto, e talvez o mais importante na prática: a tecnologia mudou radicalmente a velocidade desse processo de canonização. Antigamente, levavam décadas para uma expressão popular ser legitimada pelo establishment cultural. Com plataformas digitais, esse ciclo pode levar meses. Um artista pode começar tocando em ruas e acabar sendo analisado em congressos acadêmicos antes mesmo de completar uma carreira tradicional. Isso cria pressões estranhas para todos os envolvidos.

Se você está estudando esse tema academicamente, a recomendação prática é ler autores como Theodor Adorno pela crítica à indústria cultural, mas também consultar Herbert Klein para o contexto brasileiro, ou mesmo textos mais recentes de estudiosos da comunicação que trabalham com hibridismo cultural. Evite fontes que tratam a distinção como natural ou imutável. Trate-a sempre como um construto histórico e social em permanente negociação. Para quem trabalha com curadoria, produção cultural ou políticas públicas, o útil não é decorar definições, mas entender que qualquer tentativa de separar rigidamente essas esferas vai encontrar resistência na realidade. O mercado da música brasileira, por exemplo, não reconhece essa divisão. As rádios tocam ambos os repertórios. As plataformas de streaming recomendam um ao outro. O público consome sem se preocupar com categorias.

Uma limitação honesta que precisa ser dita: esta distinção perde cada vez mais relevância prática em contextos de gestão cultural contemporânea. Muitos editais modernos já abandonaram essa bipartição justamente pelos problemas que descrevi. Se você depende dessa classificação para alguma decisão concreta, verifique se o modelo que está usando ainda é o mais adequado ou se já existe uma alternativa mais flexível. Em alguns casos, a abordagem por linguagens musicais ou por faixas etárias demonstra-se mais eficaz do que a divisão tradicional entre erudito e popular.