Concordância verbal e nominal: o que realmente funciona na prática
A regra básica que todo mundo decora para prova é que sujeito e verbo precisam concordar em número e pessoa, certo? É isso mesmo, mas a coisa desanda rápido quando você tem mais de um sujeito, quando o sujeito vem posposto ou quando entra o verbo "haver" no meio. Eu passei anos corrigindo textos de estagiários e até hoje vejo gente escrever "fazem dois anos que não vejo esse projeto" como se fosse algo aceitável. Não é.
dadas as proposições todas aceitam mais de uma concordância exceto
Essa é uma questão clássica que cai em concursos e no Enem, e a resposta depende de analisar cada alternativa proposta. Geralmente, o item que não admite mais de uma concordância é aquele em que o verbo deve permanecer no singular por estar ligado a um sujeito coletivo, a uma expressão impessoal ou a uma construção onde a gramática normativa não abre margem para variação. Por exemplo: "Havia muitos problemas pendentes" só aceita a 3ª pessoa do singular. O verbo "haver" no sentido de existir é impessoal, então não existe concordância plural possível. Esse é o tipo de caso que a banca quer que você identifique. O que acontece na prática é que candidatos ficam perdidos porque confundem "haver" auxiliar com "haver" unipessoal. Quando você usa "haver" como auxiliar, ele concorda normalmente: "Eu tenho havido dúvidas". Mas quando significa "existir", fica na terceira pessoa do singular sem chance de negociação: "Havia dúvidas, não "haviam dúvidas". Essa distinção é mais importante do que parece porque aparece todo ano em prova.
Vou dar um exemplo real que me aconteceu recentemente. Estava revisando um edital de licitação e o texto dizia "Existe interesse mútuo das partes envolvidas". Alguém mudou para "Existem interesses mútuos das partes envolvidas" achando que estava melhorando a concordância. Na verdade, a versão original já estava correta se o sujeito for "interesse" no singular. A segunda versão também é possível, mas só se você quiser pluralizar o sujeito de propósito. O problema é que em editais e contratos, essa variação pode gerar ambiguidade jurídica. Eu simplesmente deixei como estava e apontei para o redator que a frase já obedecia à concordância normativa. Outro ponto que as pessoas erram constantemente é com a partícula "se". Quando o "se" é índice de indeterminação do sujeito, o verbo fica sempre na terceira pessoa do singular, independentemente de o que vem depois. "Precisa-se de funcionários" está certo. "Precisam-se de funcionários" está errado, e eu vejo essa forma errada em cartazes de feira, em anúncios de emprego e até em documentos oficiais de prefeituras. O sujeito é indeterminado, não há do que concordar.
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Já quando o "se" é partícula apassivadora, aí o verbo concorda com o sujeito paciente. "Vendem-se casas" está certo porque o sujeito é "casas" (plural). "Vende-se casas" está errado. Essa diferença entre IIS e PAS é o tipo de coisa que separa quem domina concordância de quem só decorou regra de livro didático. Outro caso que merece atenção é a concordância com coletivos. "A maior parte dos colaboradores faltou" e "A maior parte dos colaboradores faltaram" são ambas aceitas pela norma culta. A primeira porque o núcleo é "parte" (singular). A segunda porque a preposição "dos" aproxima o plural. Aqui sim há mais de uma concordância possível. Mas se a proposição for "Todos os colaboradores faltaram", não existe variação: o sujeito é "todos" e o verbo vai para o plural. Essa é exatamente a estrutura que as bancas gostam de colocar como exceção.
Um contra-senso que pouca gente conhece: quando o sujeito é formado por "eu, tu, ele" ligados por "com", o verbo pode concordar com o primeiro elemento ou com o conjunto. "Eu com meu irmão vamos ao mercado" ou "Eu com meu irmão vai ao mercado". Ambas são defensáveis, embora a primeira soe mais natural na fala cotidiana. Em textos formais, eu recomendo a concordância com o primeiro elemento para evitar qualquer questionamento. Quanto às concordâncias nominais, o terreno é ainda mais traiçoso. Adjetivos depois do substantivo podem ir para o plural ou manter o singular quando se referem a múltiplos substantivos de gêneros diferentes. "Os problemas financeiros e social" ou "Os problemas financeiros e sociais". Ambas existem, mas a segunda é mais segura em contexto formal. Já expressões como "bastante", "meio" e "próprio" têm regras específicas que muitas vezes são ignoradas.
Veja "meio" usado como advérbio: "Ela ficou meio nervosa". Aqui "meio" não varia porque é advérbio de intensidade, sinônimo de "um pouco". Mas se você disser "Ela está meio fria", pode estar querendo dizer que ela está literalmente com temperatura baixa, aí seria adjetivo e concordaria: "meia". O contexto define, e isso confunde muita gente na hora da prova porque a frase isolada não deixa claro qual é a intenção. A concordância com "percentual" também gera dúvida recorrente. "O percentual de reprovados foi alto" ou "O percentual de reprovados foram altos". A primeira é mais comum e mais aceita porque o núcleo é "percentual". A segunda só se justifica se você tratar "percentual" como sinônimo de "porcentagem" e quiser enfatizar os reprovados. Na prática, eu uso sempre o singular e não me importo com julgamentos alheios.
Um resumo rápido do que eu vejo como erro mais frequente em documentos reais: usar "mais de um" com verbo no plural. "Mais de um candidato se preocuparam com o resultado" está errado. Quando "mais de um" volta para o mesmo agente, o verbo fica no singular: "Mais de um candidato se preocupou com o resultado". Se forem agentes diferentes, aí sim o plural é aceito, mas isso precisa ficar explícito no contexto. Do contrário, o singular é a forma segura. Se você está estudando para concurso ou precisando revisar concordância de verdade, o melhor caminho é fazer análise sintática de frases concretas, não decorar tabelas. Pegue um jornal, leia uma matéria e identifique sujeito, predicado e objetos. Veja se a concordância está correta ou se o jornalista também erra, porque erram bastante. A prática diária é o que realmente fixa o conteúdo, não a repetição de regras genéricas.