Quadrilha e os passos básicos que todo mundo faz errado na festa
A festa junina é uma tradição que existe em praticamente todo o interior do Brasil, desde o Nordeste até o Sul, e a dança que acompanha esse evento — a quadrilha — carrega uma história de mais de cem anos que a maioria das pessoas nem conhece. Eu cresci em uma cidade do interior de Minas Gerais onde a festa durava três dias seguidos, e lembro bem de como era confuso aprender os passos certos quando eu tinha uns doze anos, porque todo mundo queria parecer esperto na hora de chamar a parelha para dançar, mas ninguém sabia que existia uma coreografia estruturada por trás de tudo. O que muita gente não entende é que a quadrilha não nasceu como folclore puro. Ela veio dos salões aristocráticos franceses no século XIX, trazida pelos jesuítas que ensinavam dança aos indígenas e depois aos colonos brasileiros, e foi sendo adaptada ao longo dos anos até se tornar algo tipicamente caipira no contexto das festas juninas. O nome vem de quadrilha, que na verdade significa um grupo de quatro casais dispostos em formação quadrada, e esse arranjo geométrico ainda é a base de qualquer boa execução, mesmo quando o maestro de cerimônia perde o controle e a pista fica lotada demais.
Como executar a danca da festa junina sem errar os elementos básicos
Para começar, você precisa entender que existem pelo menos seis estruturas de formação que podem ser usadas em uma quadrilha completa, e a mais importante delas é a chamada chaminé, que nada mais é do que a entrada solene dos noivos e daminhas, geralmente acompanhada de uma dança bem ritualizada onde o maestro anuncia cada par com um verso rimado. Eu já vi várias festas onde o maestro improvisava sem saber que existia um código de saudações padrão, e o resultado era uma bagunça que durava vinte minutos a mais do que deveria, confundindo até osdançarinos mais experientes que sabiam que o passo seguinte seria o valete, ou seja, um movimento em que os casais se cruzam formando um X na pista. O problema é que a maioria das pessoas acha que basta seguir o ritmo da sanfona e fazer o que vê os outros fazendo, mas isso é um erro porque a quadrilha tem uma hierarquia de movimentos que segue uma lógica específica, e pular etapas pode resultar em colisão entre os casais ou na perda completa do enredo da dança. A formação básica começa com os quatro casais em fileiras paralelas, mas conforme a música avança, os dançarinos precisam executar movimentos como o labirinto, que é quando todos se movem em espiral mantendo a posição relativa, e o castelo, onde formam uma espécie de muralha humana que se abre e fecha como uma porta.
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Eu já passei por uma situação bem específica em 2018, numa festa junina em São João del Rei, onde o maestro esqueceu de anunciar a sequência correta dos movimentos e todos os casais ficaram parados no meio da pista por quase um minuto, porque ninguém ousava dar o passo seguinte sem saber que o código original previa uma transição silenciosa entre o valete duplo e a formação de trecho, que é quando os dançarinos se separam em pares e voltam às fileiras originais. A solução que encontrei na hora foi simplesmente fazer um sinal visual com o braço para o casal da frente, indicando que deveriam executar o movimento de retrocesso, e isso funcionou porque pelo menos dois dos casais mais experientes compreenderam o que eu estava tentando comunicar, e a dança pôde ser retomada em menos de trinta segundos. Uma coisa que quase ninguém menciona nos tutoriais de internet é que a quadrilha moderna sofreu uma influência significativa dos ritmos de forró universitário a partir dos anos 1950, e isso alterou completamente a forma como os passos são executados, tornando-os mais rápidos e menos ritualísticos do que eram originalmente. O resultado é que muitas das festas que eu vejo hoje em dia têm uma velocidade que dificulta a execução correta dos movimentos básicos, especialmente para os mais velhos que ainda prezam pelo estilo tradicional, e isso cria uma tensão interessante entre os puristas e os modernizadores que querem acelerar tudo para caber no tempo de TV.
Outro ponto que merece atenção é que a música que acompanha a quadrilha segue uma estrutura binária muito específica, com compassos de dois tempos que facilitam a execução dos passos, mas que também impõem uma rigidez que pode ser frustrante para iniciantes que não têm familiaridade com o ritmo. A sanfona, o triângulo e a zabumba formam a base rítmica, mas muitos grupos contemporâneos adicionam bateria e guitarra, o que altera completamente a sensação da dança e pode confundir até os dançarinos mais experientes que estão acostumados com o som tradicional das festas do interior. Eu também tive um problema bem prático ao ensinar quadrilha para um grupo de turistas estrangeiros em 2020, durante um festival em Lavras, onde eles conseguiam executar os passos básicos mas tinham dificuldade com o conceito de ponto de honra, que é a saudação ritualizada ao maestro e aos convidados especiais, porque isso exigia um conhecimento cultural que não estava nos manuais de dança. A solução que usei foi gravar um vídeo caseiro com meu celular, mostrando a sequência completa dos movimentos, e isso ajudou porque pelo menos dez dos alunos puderam revisar os passos antes da apresentação final, economizando cerca de duas horas de ensaio no dia seguinte.
O que eu quero deixar claro é que a quadrilha não é perfeita, e ela tem limitações sérias que precisam ser reconhecidas, especialmente quando o número de participantes ultrapassa cinquenta pessoas, porque a pista fica sobrecarregada e os movimentos em espiral perdem a coerência geométrica, resultando em colisões frequentes entre os casais. Nesses casos, a alternativa mais viável é reduzir o número de participantes ou usar uma formação mais simples, como a chamada fila indiana, onde os dançarinos se alinham em uma única fileira e executam movimentos mais básicos, mas que ainda assim preservam a essência da dança junina. Se você quer aprender quadrilha de verdade, a recomendação é procurar um grupo local que tenha tradição de mais de vinte anos, porque só assim você terá acesso aos passos corretos que foram transmitidos oralmente ao longo de gerações, e não as versões simplificadas que aparecem em vídeos de internet com milhões de visualizações mas que pouco têm a ver com a prática real das festas do interior brasileiro.