Como resolver questões de nova ortografia sem perder tempo
Questões que cobram a nova ortografia do português costumam ser uma mistura de pegadinhas e conhecimento que não se usa no dia a dia. Eu já corrigi dezenas delas e sei exatamente onde os candidatos tropeçam. O Acordo Ortográfico de 1990 entrou em vigor no Brasil em 2009, com período de transição longo, e muitas coisas parecem contraditórias porque foram decididas em comissão sem consultar a língua como ela realmente é falada. O segredo não é decorar regras novas. É entender o princípio por trás delas e saber onde a banca caiu.
de acordo com a nova ortografia assinale a alternativa correta
Quando você lê essa instrução numa prova, o primeiro passo é identificar qual item está sendo cobrado. Os temas mais recorrentes são acentuação gráfica, uso do hífen, emprego de letras como o "h" inicial e as mudanças nos dígrafos. Vou explicar cada um com exemplos reais que vi cair. Na acentuação, a mudança mais impactante foi a supressão do acento dos ditongos abertos "éi" e "ói" nas palavras paroxítonas. Antes se escrevia "aspirina" com acento? Não, isso nunca teve. Mas "alcatéia", "galé", "heróico" perderam o acento. Vira "alcatia", "cale", "heroico". Cuidado porque as palavras oxítonas que terminam em "éis", "óis", "éu", "éus" continuam acentuadas: "papéis", "reféns", "céu". É fácil confundir. Eu já vi candidato errar porque marcou "heroico" com acento achando que a regra valia para todos os casos.
O hífen é onde tem mais gente errando. A regra geral mudou: o prefixo termina com a mesma letra que inicia o segundo elemento? Usa-se hífen. Prefixo terminado em vogal + palavra iniciada pela mesma vogal? Hífen. Isso gerou mudanças como "micro-ondas" (antes tinha, agora também tem, mas por motivo diferente), "autoescola" (sem hífen, porque é vogal mais vogal diferente — espera, não, "autoescola" é vogal mais vogal igual, então tem hífen? Não. Deixa eu revisar.) Deixa eu ser preciso aqui. A regra do hífen com prefixos terminados em vogal: se o segundo elemento começar com a mesma vogal, usa-se hífen. Então "micro-ondas" tem hífen. "Autoescola" tem hífen? Não, porque "o" e "e" são vogais diferentes. Agora "micro-ondas": sim. "Minissaias": não, porque o prefixo "mini" se liga sem hífen a palavra iniciada por "s". É um caso especial. Se o segundo elemento começar com "h", o hífen cai sempre: "anti-higiênico", "micro-hospital", "super-homem". Essa regra é consolidada e cai todo ano.
Eu me lembro de uma questão específica numa prova do ENEM onde pedia para assinalar a sequência correta de palavras com ou sem hífen. As opções tinham "girassol", "mandachuva", "para-raios". A pegada estava em "para-raios": o prefixo é "para" e o segundo elemento começa com "r". Nesse caso, o hífen permanece porque "para" é um prefixo de valor adverbial que não se une por crase. Errei isso na primeira vez que vi, marquei "pararaio" e perdi pontos. A dica prática é memorizar os prefixos que mantêm o hífen mesmo com vogais diferentes: "além", "aqui", "baixo", "recém", "sem", "sobre", "sota", "vice", "vizo". Exceções notáveis: "bogotês", "mexico-americano" — mas esses não caem tanto. Sobre o "h" inicial: muita gente acha que a nova ortografia trouxe mudanças nesse campo. Na verdade, o "h" nas formas verbais como "houver", "houvéssemos", "houverá" sempre foi grafado com h, mas algumas bancas colocavam alternativas tentadoras sem o h para testar se o aluno estava atento. A nova ortografia manteve. O que mudou realmente foi a eliminação do "c" e "p" silenciosos em palavras como "opcional" (antes "opcional" com p mudo, agora mantém-se mas sem acento no e), "correção" (agora "correção" — espera, isso não muda a grafia, só a pronúncia). Vamos com calma.
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As mudanças reais de grafia foram: "aeronáutica" (mantém), "fônica" (agora "fônica" com c, antes "fônica"? Não, era "fónica" com acento), "jiboia" (sem cedilha, antes "jiboia" com cedilha?). Vou revisar. Na verdade as principais mudanças ortográficas de fato foram: extinção do acento agudo no "u" tônico das formas do verbo "construir" quando precedido de "g" ou "q" + vogal? Não, isso é outra coisa. Vamos aos fatos concretos. A nova ortografia alterou:
- Eliminação do acento diferencial em palavras como "pêra" (agora "pera"), "pêlo" (agora "pelo"), "élo" (agora "elo"). Mas atenção: "pôde" (pretérito) continua com acento para diferenciar de "pode" (presente). Esse é um ponto que cai muito. - Supressão do acento dos ditongos abertos "éia" e "óia" em paroxítonas: "idéia" vira "ideia", "enjóio" vira "enjoo". Mas "heróico" vira "heroico". Palavras como "filantropia" (antes "filantropia" — não mudou), "assembléia" (agora "assembleia").
- O trema foi completamente eliminado: "cinquenta" (antes "cinqüenta"), "frequency" não existe em português mas "linguística" não tinha trema de qualquer forma. A palavra "tranqüilo" vira "tranquilo", "seqüestro" vira "sequestro". - A dupla "pp", "pc", "pm", "ps", "pt", "pç" passa a ter pronúncia modificada? Não, a grafia se mantem mas a pronúncia é que muda. Isso é importante: a ortografia não dita a pronúncia, ela a registra. Muitas bancas confundem os candidatos perguntando sobre pronúncia quando o tema é grafia.
Na prática, quando você for resolver essas questões, faça o seguinte roteiro rápido: primeiro identifique se a palavra em questão é paroxítona, oxítona ou proparoxítona. Isso resolve 60% das dúvidas de acentuação. Depois verifique se háprefixo ou composição — aí aplica-se a regra do hífen. Por fim, confira se há trema, "u" tônino depois de "g"/"q", ou ditongo aberto. Um aviso importante: nem sempre a norma culta segue estritamente o Acordo. Há palavras que ainda causam debate, como "radicamente" (com ou sem acento? Não tem acento, mas muitos falam com acento na última sílaba). A banca pode cobrar a grafia oficial e não a pronúncia popular. Eu já perdi pontos por marcar "radicalmente" com acento porque "ouvia" alguém pronunciar assim.
Se você está estudando para uma prova, recomendo usar o dicionário da ABL ou da Editora Globo para consultar a forma correta. O site do governo também tem a tabela completa, mas é confuso. O dicionário presencial é mais confiável porque já foi revisado pós-acordo. Resumindo: a nova ortografia não mudou tudo. Mudou pouco, mas o que mudou é sistêmico e previsível. Focar nos ditongos abertos, no hífen e no trema vai te dar pelo menos 80% dos acertos. O resto é questão de atenção à classificação métrica das palavras.