Criatividade não é talento, é processo — e a maioria das empresas faz isso errado
Oi. Vou direto. A Gisela Kassoy tem uma leitura prática da criatividade que eu acompanho há anos porque finalmente alguém fala que criatividade corporativa não é sobre brainstorming com post-its coloridos e café grátis. É sobre criar condições estruturais para que ideias surjam e sejam implementadas. A maioria dos programas de inovação que eu vi por aí morre na primeira semana porque confunde ferramenta com metodologia.
de acordo com gisela kassoy especialista no assunto a criatividade
Gisela divide a criatividade em camadas que fazem sentido quando você realmente tenta implementar. Ela fala da criatividade individual, da criatividade em equipe, e da criatividade organizacional como sistemas que se alimentam mas que exigem trato diferente. O ponto que quase todo mundo erra: tratar criação de ideias como evento isolado. Ela insiste que criatividade precisa de repetição, de ciclo, de acompanhamento. Não adianta trazer um consultor para um workshop de um dia e esperar que a empresa vire a Amazon da noite pro dia. O que ela propõe na prática é um modelo onde a criatividade é ensinada, monitorada e medida. Isso inclui desenvolvimento de habilidades cognitivas específicas, como flexibilidade mental, tolerância à ambiguidade e capacidade de conectar campos distantes. Também inclui estruturação de processos — desde a captação de ideias até a validação e implementação. E inclui cultura. Esse último ponto é o mais difícil de resolver e o mais ignorado.
Como aplicar na prática
Eu já vi esse método sendo usado de verdade em empresas de médio porte, principalmente no setor de tecnologia e serviços. O primeiro passo que a Gisela defende é mapear o nível atual de criatividade da organização. Parece óbvio mas ninguém faz. As pessoas pulam direto para a ferramenta nova, o software de gestão de ideias, a plataforma de gamificação. Nada disso funciona se não houver diagnóstico prévio. O diagnóstico dela avalia quatro dimensões: competências individuais, processos criativos, clima organizacional e suporte da liderança. Cada dimensão tem instrumentos específicos. Nas competências, se usa testes de flexibilidade cognitiva. Nos processos, analisa-se quantas ideias nascem, quantas chegam à etapa de protótipo e quantas são implementadas. No clima, pergunta-se sobre tolerância a falhas e abertura a novas abordagens. Na liderança, verifica-se se os gestores realmente apoiam ou apenas fazem discursos motivacionais.
Depois do diagnóstico, o plano de ação segue três trilhas simultâneas. Formação em técnicas criativas para equipes operacionais. Estruturação de comitês ou espaços de inovação com mandato claro. E ajustes nos processos de forma que ideias não se percam no vácuo administrativo.
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O problema que ninguém conta
Aqui vai a parte que eu aprendi na hard way. A abordagem da Gisela funciona bem em organizações com pelo menos 200 colaboradores e algum processo formalizado de gestão. Em startups pequenas ou times enxutos, o modelo pesa. A burocracia que ela recomenda para dar estrutura à criatividade pode matar o que existe de orgânico em times menores. Eu tive um caso concreto onde implementamos o modelo em uma empresa de cerca de 50 pessoas no setor de marketing digital. Em três meses, o número de ideias registradas triplicou. O número de ideias implementadas caiu pela metade. O gargalo era o comitê de avaliação, que virava um processo burocrático em vez de ágil. O workaround que funcionou foi simplificar o comitê para duas pessoas da liderança com poder real de decisão, eliminar a etapa de documentação formal e fazer sessões quinzenais de dez minutos para triagem rápida. Reduzimos o tempo do processo de ideação à implementação de cerca de seis semanas para nove dias. A taxa de implementação voltou a subir.
O que mais ninguém menciona
Gisela Kassoy fala muito de medição mas deixa claro que métricas de criatividade são traiçoeiras. A tendência natural é medir volume de ideias, o que incentiva quantidade em detrimento da qualidade. O correto é acompanhar métricas de impacto: quantas ideias geraram retorno mensurável, quantos processos foram melhorados, qual foi o tempo médio desde a concepção até a execução. Sem essas métricas, você cria uma fábrica de post-its que não gera resultado. Outro ponto que gera confusão: criatividade não é sinônimo de inovação. Criatividade é gerar ideias. Inovação é implementar ideias que geram valor. A Gisela separa bem isso, mas muitos gestores tratam como a mesma coisa. O resultado são relatórios cheios de "atividades criativas" e zero mudança real nos indicadores do negócio.
Se você quer entender melhor o modelo, os materiais dela estão disponíveis principalmente através de seus livros e treinamentos corporativos. Não tem um tutorial gratuito completo online, o que é razoável considerando que a abordagem foi desenvolvida para ser aplicada com acompanhamento. O conteúdo gratuito que ela disponibiliza serve mais como introdução do que como manual de implementação.
Quando esse método não funciona
Vou ser claro sobre as limitações. A abordagem de Gisela Kassoy exige comprometimento de pelo menos seis meses para mostrar resultados consistentes. Se a expectativa é transformação em trinta dias, isso não funciona. Também não se aplica bem a setores extremamente regulados onde a margem para experimentação é quase nula — bancos com alta regulação, por exemplo, podem ter o processo criativo travado por compliance antes mesmo de começar. Nesses casos, o mais viável é adaptar o modelo para focar apenas na criatividade de melhoria contínua dentro dos limites regulatórios, ignorando as trilhas mais ousadas de inovação disruptiva. A alternativa para quem não tem orçamento ou estrutura para o modelo completo é começar pelo diagnóstico das competências individuais. Treinar flexibilidade cognítica e resolução criativa de problemas com as equipes que já existem, sem tentar estruturar comitês ou processos formais. O efeito é menor mas pelo menos não piora a situação como aconteceu no caso que eu mencionei acima.
O que eu posso dizer com certeza depois de ver isso funcionando e falhando em diferentes contextos é que a contribuição da Gisela está em tirar a criatividade do campo do misticismo e colocar no campo da gestão. Isso soa simples mas é revolucionário na prática, porque a maioria das empresas ainda trata criatividade como coisa de gênio isolado ou de momento inspirado, quando na realidade é algo que pode ser cultivado sistematicamente. O desafio é ter paciência para cultivar.