Dê Outros Substantivos Formados Com Esse Sufixo - Dê Outros Substantivos Formados Com Esse Sufixo - RETOEDU
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O sufixo -ção e a formação de substantivos abstractos em português

Quando eu comecei a lidar com morfolgia portuguesa, achava que a regra era simples: verbos terminados em -ir dão -ção. A realidade é mais chata e cheia de excepções.

dê outros substantivos formados com esse sufixo

O sufixo -ção deriva substantivos abstractos a partir de verbos, geralmente indicando o resultado ou o processo da acção verbal. É o mecanismo produtivo mais numeroso do português. Vem do latim -tionem, via grego -sis/-sis, e entrou massivamente no português medieval através do francês antigo. A formação segue este padrão geral:

-ar -ção (educar educação) -er -ção (compreender compreensão)

-ir -ção (construir construção) -or -ção (melhorar melhoria — aqui há alteração temática)

-s -ção (imprometer imposição — remoção do sufixo flexional) O que pouca gente explica bem é que o morfema não se liga directamente ao infinitivo. Liga-se à raiz temática, que por vezes difere da forma de dicionário. Esse é o erro mais comum que vejo em estudantes e até em falantes nativos ao tentarem formar neoformações.

Por exemplo, o verbo propor tem raiz prop-, não propon-. O presente é eu proponho, mas a raiz para derivação é prop-, daí proposição. Se aplicasse a forma de dicionário cegamente, chegava a algo como *proporção... espera, essa existe. Mas *proporzão seria o erro previsível de quem não vê o paradigra. Aqui vai uma lista prática. Não é exaustiva, mas cobre os casos mais frequentes:

abstracto (abstractizar abstractização) acção (agir acção — irregularidade latina: actio)

adição (adicionar adição) adoração (adorar adoração)

alegría alegria (não se forma com -ção, o sufixo aqui é -ia, boa lembrar) ambição (ambicionar ambição)

atuação (atuar atuação) avaliação (avaliar avaliação)

celebração (celebrar celebração) conclusão (concluir conclusão)

consideração (considerar consideração) criação (criar criação)

decisão (decidir decisão) demolição (demolir demolição)

depositação (depositar depositação) devastação (devastar devastação)

diversão (divertir diversão — atenção: a vogal temática muda de i para o) educação (educar educação)

eleição (eleger eleição — raiz irregular elei-) emissão (emitir emissão — double s, vem do latim emissio)

exploração (explorar exploração) expressão (expressar expressão)

formação (formar formação) geração (gerar geração)

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inclinação (inclinär inclinação) ilusão (iludir ilusão — raiz ilus-, o u some na pronúncia mas fica na escrita)

imposição (imprometer imposição — aqui o s surge por adaptação, a raiz é impost-) inspiração (inspirar inspiração)

intuição (intuir intuição) liquidação (liquidar liquidação)

oposição (oprometer oposição) possessão (possuir possessão — duplo s, raiz posses-)

previsão (prever previsão — irregular: prever tem raiz prev-, mas a derivação usa previs-) produção (produzir produção)

proporção (proporcionar Proporção — também existe propor proporção, duas fontes) promessa (prometer promessa — aqui o sufixo é -essa, não -ção)

realização (realizar realização) redução (reduzir redução — u desaparece: red + u + ção redução)

relação (relatar relação — raiz relac-, o c permanece) remuneração (remunerar remuneração)

ressurreição (ressuscitar ressurreição — ei, não io) restauração (restaurar restauração)

resolução (resolver resolução — raiz resolü-) revisão (revisar revisão)

sanção (sanar sanção — ou sancionar sanção, dupla possibilidade etimológica) seleção (selecionar seleção)

sensação (sentir sensação — raiz sens-) simpatia (não se forma com -ção, sufixo -ia)

transmissão (transmitir transmissão) utilização (utilizar utilização)

variação (variär variação) visão (ver visão — irregularidade total: radica latina video, visa-)

O problema que ninguém avisa é a alternância vocálica. Em muitos casos, a vogal temática do verbo muda quando se forma o derivado. Divertir diversão, construir construção (sem mudança), contribuir contribuição (com i). A vogal i do infinitivo pode surgir como semi-vogal na formação: contribui + ção = contribuição. Isso não é regra, é tendência, e gera muitos erros de ortografia no dia a dia. Outro ponto cego: substantivos que não vêm de verbos mas parecem vir. Corrupção vem de corromper, ok. Mas opressão vem de oprimir. E compressão vem de comprimir. Todos seguem o padrão. Já submissão vem de submeter. A raiz é submet-, não submiss-. O s extra aparece na derivação por influência do participio.

Eu já perdi tempo a corrigir textos de colegas que escreviam *exclusão com um s a mais, confundindo com excluir exclusão. O correto é exclusão, com um só s, porque a raiz é exclu-. O error surge porque o presente eu excluo faz parecer que há um s intermédio. Não há. A raiz para derivação é directa: exclui + ção exclusão. Sim, com um s. A grafia correcta é exclusao com apenas um s mesmo. Espera, deixa-me verificar. Excluir exclusão. Um só s. Certo. As irregularidades mais problemáticas vêm do latim e não seguem qualquer lógica produtiva. Ser ser ser... não, isso não é relevante. Vamos ao que interessa: fraqueza não tem relação com -ção. Força vem de fortis, nada a ver. Frustração vem de frustrar, tudo bem. Mas fruição vem de fruirs, com ei, não io. Aqui o padrão quebra-se.

Se precisas de gerar substantivos com -ção de verbos novos ou empréstimos, a estratégia segura é: pega na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, retira o -s, e adiciona -ção. Ele educa educ- + ção = educação. Ele constrói construir... não, constrói tem raiz constr-? Não, o presente é ele constrói, raiz constru-. O paradigma é traiçoeiro. Melhor consultar um dicionário quando houver dúvida, porque a régua da terceira pessoa falha em verbos como colher colheita (não usa -ção). O sufixo -ção funciona bem para verbos regulares e para muitos irregulares, mas tem limite claro: não se aplica a verbos que já têm substantivos próprios consolidados. Morrer não dá *morteção, dá morte. Viver não dá *vivção, dá vida. Saber não dá *sabção, não há derivado directo. O léxico português guarda formas etimologicamente distintas para muitos destes casos, herdados do latim ou do grego, e elas competem com as formações regulares em -ção.

Em textos formais, evitar neoformações duvidosas com -ção é importante. Eu vi contratos jurídicos com termos como gestação contratual para significar simplesmente a vigência de um contrato. Soa erudito, mas é impreciso. O termo adequado seria vigência ou eficácia. A tentação de usar -ção para tudo é real, mas gera ambiguidade e, em contextos técnicos, erro. Se queres praticar, a melhor coisa é pegar num verbete do inflexional e tentar formar o derivado, depois cotejar com o Porto Editora ou o Priberam. A velocidade de verificação é rápida, e em cerca de 15 minutos tens uma lista própria que vale mais do que qualquer resumo de internet. O importante é perceber que o sufixo é produtivo, mas não onipotente.