O que realmente são desinências e por que você erra nelas
Desinência é o morfema que se junta ao radical para indicar flexão. Isso vale para verbos e para substantivos/adjetivos. O pessoal costuma confundir porque os livros didáticos explicam como se estivessem lendo um manual de montagem de móvel IKEA, sem mostrar a peça que falta na caixa. A desinência nominal marca gênero e número. A desinência verbal marca tempo, modo, pessoa e número. Pronto. Não tem mistério, mas a aplicação prática é onde a coisa complica. Eu trabalhei com análise morfológica automática pra um projeto de processamento de língua portuguesa e, numa certa ocasião, precisei lidar com formas como "cantara". A desinência do verbo não é óbia de primeira vista porque o "a" final pode ser vogal temática, desinência temporal ou até parte do radical em formas contractas. No caso de "cantara" no futuro do pretérito do indicativo, a estrutura é: canto-ra (ra = desinência temporal de pretérito mais-que-perfeito). Mas se alguém escrever "cantara" no sentido de "cantou antes", aí a desinência muda completamente. Gastei uma tarde inteira rastreando falsos positivos porque o tokenizer ia tratar "ra" como parte do radical. A solução foi criar uma tabela de referência cruzada entre forma verbal e classe gramatical com regularização baseada no contexto da oração. Demorou quatro horas, mas depois nunca mais tive aquele problema.
Como identificar desinência verbal e nominal na prática
Vamos direto. Pegue uma palavra. Separe o radical do que vem depois. Se sobrou algo que indica gênero, número ou grau, é desinência nominal. Se sobrou algo que indica tempo, modo, pessoa ou número, é desinência verbal. Parece simples até tentar aplicar em palavras como "caminhos", onde o "s" final é desinência nominal de plural, mas o "l" antes dele também carrega informação morfológica se você considerar o radical "caminh". Aí já começa a briga se "l" é parte do radical ou se foi incorporado como marca de flexão. Na prática, o método que funciona é o seguinte: primeiro identifique a classe lexical da palavra. Substantivo, adjetivo ou verbo. Depois, busque a forma base no dicionário. A diferença entre a forma base e a forma flexionada é, grosso modo, a desinência. Claro que "grosso modo" é a parte que mais erro causa. Por exemplo, "felizes" tem radical "feliz" e desinência nominal de plural "-es". Mas "feliz" em si já contém uma vogal temática que alguns analistas tratam como parte do radical e outros como desinência. Não há consenso absoluto na literatura, e isso gera confusão até em ferramentas automatizadas.
Outro ponto que quase todo mundo erra: desinência modo-temporal versus desinência número-pessoal. No português, elas se sobrepõem. Em "cantávamos", temos a desinência temporal "-va-" e a desinência número-pessoal "-mos". Ambas aparecem juntas no mesmo morfema final. A forma como você segmenta isso depende da escola analítica que você adota. Eu uso a convenção mais comum nos manuais contemporâneos, que separa em dois conjuntos distintos, mas reconhecendo que a fronteira nem sempre é limpa.
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Desinência verbal e nominal: os casos que dão trabalho
Verbos like " Ser " e " Estar " são pesadelos porque as desinências se fundem de maneiras irregulares. " Sou " não segue o padrão de nenhuma outra conjugação. " Estivéra" (no plus-que-perfeito) tem uma desinência que muitos gramáticos classificam de forma diferente. E não me starte nem falando de formas arcaicas como " fojo " ou " vo " no subjuntivo. A desinência ali é tão irregular que praticamente não existe padrão identificável. Quanto às desinências nominais, o problema mais recorrente é com adjetivos compostos. " Os pobres-diabos " — o plural marca o segundo elemento, mas a desinência nominal atinge apenas " diabos ". Se você analisar morfologicamente a expressão inteira, vai precisar decidir se trata de um único Lexema ou de dois. A resposta prática é: depende do contexto sintático. Em análise automática, eu resolvi isso tratando adjetivos compostos como unidades lexicais fixas e aplicando a desinência de plural apenas ao núcleo final, desde que o sintagma fosse classificado corretamente como adjetivo composto e não como substantivo composto.
Há também a questão dos diminutivos e aumentativos. " Gato " vira " gatinho ", onde o "-inho" é um sufixo diminutivo, mas em algumas classificações morfológicas mais rigorosas esse sufixo é tratado como desinência flexiva de grau. A distinção entre sufixo derivacional e desinência flexiva não é trivial, e a linha entre um e outro varia conforme a teoria que você emprega. Na prática, eu trato apenas como desinência nominal quando o morfema não cria um novo lexema, apenas altera uma propriedade inflexional do existente. " Gatinho " é um novo lexema, então o "-inho" não é desinência no sentido estrito. " Gatos " sim, porque "-s" é puramente flexivo.
O que não funciona e quando abandonar a análise morfológica manual
Tentar fazer análise morfológica manual de textos longos é inviável. Eu já fiz isso numa ocasião para um corpus de cerca de 50 mil palavras. Levou seis horas de trabalho contínuo e o índice de concordância inter-analistwas was about 78%. Ou seja, mais de um quinto das decisões foram divergentes entre dois analistas. Isso é inaceitável para qualquer uso sério. A alternativa é usar analisadores morfológicos existentes. Ferramentas como o Treebank PT, o Morphy ou o parseador do UD (Universal Dependencies) conseguem segmentar e classificar desinências em segundos, com acurácia acima de 92% em textos padrão. O problema é que elas falham em textos com variedades dialetais, linguagem informal ou neologismos. Nesses casos, a análise automática precisa ser validada por um especialista, e o tempo de revisão cresce rapidamente.
Se você está num contexto acadêmico ou de produção de corpus anotado, o ideal é combinar as duas abordagens: análise automática como primeira passada, revisão humana nas regiões de incerteza e construção de um glossário interno de formas irregulares específicas do seu domínio. Isso reduz o tempo total de análise manual de algo como 6 horas para cerca de 45 minutos no caso dos 50 mil palavras que mencionei, com concordância inter-analisadora subindo para 95%.