A diferença prática entre "desse modo" e "deste modo"
Muita gente usa as duas formas como se fossem intercambiáveis. Não são. A regra é simples, mas tem uma armadilha que faz até quem trabalha com texto errar sem perceber. "Deste modo" indica proximidade — o que está perto de quem fala, no espaço ou no tempo. "Desse modo" indica distância — algo que se refere ao interlocutor ou a um ponto mais afastado da cena discursiva. A par dos pronomes demonstrativos (este/esse), a lógica é a mesma: o falante aponta para si mesmo com "deste", e para o outro com "desse".
desse modo ou deste modo: como decidir na prática
Na escrita, a conta mais rápida é esta: se você está apresentando o próprio raciocínio, a própria proposta, o próprio argumento que acaba de surgir do seu texto, use deste modo. Se está retomando algo dito pelo leitor, por um terceiro, ou por uma frase anterior que não nasceu da sua voz, use desse modo. Peguem exemplo. Uma frase como "Este relatório apresenta os dados; deste modo, as conclusões são claras" está apontando para o caminho que o próprio autor abriu. Já em "O regulamento determina X; nesse sentido, age-se desse modo", o "desse modo" se refere a um caminho que já existe fora da voz do autor, que ele apenas descreve.
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Veja este caso que me pegou no trabalho editorial há pouco tempo. Tinha um texto técnico com uma seção inteira dizendo: "O erro ocorre quando a variável não é normalizada. Desse modo, o resultado é enviesado." Tinha acabado de explicar que o erro era da normalização. Ou seja, a causa e o efeito estavam saindo da minha própria argumentação. O correto era "deste modo". Mudei e o texto ficou mais limpo. Errar isso passa despercebido porque soa "normal" — mas quem lê com cuidado percebe o deslocamento referencial. A confusão costuma vir de um vício de estilo: muitos autores usam "desse modo" como se fosse um sinônimo universal de "portanto". Não é. Trocar um pelo outro nem sempre estraga o sentido, mas apaga uma informação útil sobre direção discursiva. Em textos formais, essa direção importa.
Outra dica direta. Se a expressão vier seguida de "como", a coisa fica ainda mais transparente. "Desta forma, como vimos..." mantém a proximidade. "Desse modo, como você relatou..." distancia. A escolha de "deste" ou "desse" acompanha a linha de frente da referência. Um erro comum também é inverter os termos quando o falante está num contexto temporal. "Nesta reunião, decidimos o fluxo; deste modo, começamos a implementação." A decisão ainda ecoa perto do momento da fala. Mas "Na reunião anterior, decidimos o fluxo; desse modo, iniciamos a implementação" já empurra a referência para trás, justificando o "desse".
Resumo sem artifício: se a ação ou consequência pertence à esfera do autor que escreve, vá de "deste modo". Se pertence à esfera do interlocutor, de um texto citado, ou de um ponto já distante, vá de "desse modo". A diferença é pequena, mas em redações técnicas, jurídicas e editoriais ela carrega precisão. Se quiser consultar a norma, o uso reflete o sistema dos demonstrativos do português padrão, como tratado nas gramáticas de referência e nos manuais de redação. Na dúvida, releia a frase e pergunte: quem está apontando? Se é eu, no meu terreno, é "deste". Se é o outro ou um ponto que já saí da minha mão, é "desse".