A diferença prática entre desses e destes
Eu já vi gente confundir esses dois durante anos e, sinceramente, a maioria dos materiais que você encontra na internet explica isso de forma tão abstrata que não ajuda em nada. A regra dos pronomes demonstrativos em português depende basicamente de três pontos: quem está falando, quem está ouvindo, e o que está longe ou perto de cada um deles. O problema é que a língua portuguesa tem uma camada extra que complicam as coisas.
Desses ou destes: quando usar cada um de fato
A forma mais direta de entender é pensar em termos de posição no espaço. "Estes" se refere a coisas que estão perto de quem fala. "Desses" vem da contração de "de" + "esses", e "esses" se refere a coisas que estão perto de quem ouve, mas longe de quem fala. Então "destes" é "de" + "estes", ou seja, pertence a coisas próximas de mim que estou falando. Vou dar um exemplo concreto. Imagina que você está organizando arquivos no computador. Você tem uma pasta na área de trabalho que você criou recentemente e outra pasta que um colega te mandou por e-mail. Se você fosse explicar a diferença entre os arquivos dessas duas pastas para alguém, diria algo como: "Destes arquivos que estão aqui no meu desktop, alguns estão corrompidos. Desses que o João mandou, a maioria funciona normal."
O primeiro usa "destes" porque os arquivos estão fisicamente perto do contexto de quem fala. O segundo usa "desses" porque os arquivos pertencem ao universo do interlocutor, não ao de quem produz o discurso. Agora aqui vai a parte que ninguém conta direito. Quando você lê um texto formal ou instrução técnica, muitas vezes o "desses" e "destes" aparecem em contextos onde a distância física não existe. Nesse caso, vira uma questão de distância psicológica ou de foco discursivo. Se você já mencionou algo antes na conversa e agora está retornado a ele, pode usar "desses" para sinalizar que aquilo já foi trazido ao conhecimento do ouvinte. É uma marca de coesão textual que muita gente ignora.
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Um erro que eu vejo todo dia é tratar "desses" como sinônimo de "deles". Não são a mesma coisa. "Desses" carrega a ideia de delimitação — você está apontando para um conjunto específico. "Deles" é mais genérico, apenas indica posse sem especificar quais itens do universo masculino plural estão em jogo. Se você diz "os problemas desses relatórios", está falando de relatórios específicos que ambos know. Se diz "os problemas deles", soa vago, como se estivesse generalizando sem referenciar nada concreto. Outra coisa: há situações onde ambos podem ser gramaticalmente aceitáveis, mas mudam o sentido. Isso acontece porque o português permite flexibilidade na escolha demonstrativa dependendo do recorte que o falante quer fazer. Se você está segurando dois documentos e diz "destes dois", está focando nos que estão à mão. Se diz "desses dois" apontando para uma pilha na mesa do colega, a referência muda. O verbo e a preposição permanecem iguais, mas o referencial espacial se inverte.
Existe ainda um caso bastante específico que causa confusão: quando "desses" aparece em contextos de exclusão ou restrição. Frases como "não confie nesses tipos de pessoa" usam "desses" num sentido quase pejorativo, criando uma barreira entre o grupo mencionado e o grupo de quem fala. Esse uso é mais frequente na linguagem oral do que na escrita formal, e quem está aprendendo pode levar anos para perceber essa nuance porque raramente aparece em exercícios de gramática. Se você quer um método rápido para não errar, use este teste: identifique primeiro quem é o falante e quem é o ouvinte. Depois pergunte: o que estou apontando está mais perto de mim ou mais perto dele? Se está perto de mim, usamos a forma com "est-". Se está perto dele, usamos "ess-". As contrações com "de" seguem naturalmente: de + estes = destes, de + esses = desses. Simples assim.
Um último aviso sobre uma armadilha comum. Em textos jurídicos ou técnicos, às vezes aparece "desses" quando o autor quis dizer "destes" e vice-versa. Isso acontece porque quem escreve não está pensando na distância relativa, mas sim numa sequência lógica de ideias. O resultado é um texto onde a referência demonstrativa fica ambígua. Se você estiver revisando algum documento do tipo, preste atenção a isso. Identificar o erro não é só questão de gramática, é questão de clareza comunicativa.