O custo oculto que ninguém te conta
A primeira coisa que todo mundo esquece é que termelétrica não é uma opção barata de emergência. Ela é cara. Caríssima. O mito de que ela serve como solução rápida quando a hidrelétrica falha é verdade, mas o preço que se paga por essa flexibilidade é brutal. Um megawatt-hora gerado por gás natural no Brasil custa entre US$ 80 e US$ 120 em média. O mesmo megawatt-hora hidrelétrico sai por US$ 30 a US$ 50. A diferença não é marginal. É estrutural. Quando a seca aperta e as termelétricas ligam em massa, o custo da energia dispara. Isso não é teoria. Em 2021, durante a crise hídrica mais grave da última década, o Custo de Comercialização de Energia no Brasil subiu 40% apenas porque as usinas a gás e gás de cozinha tiveram que entrar em operação simultânea em larga escala. O consumidor final sentiu isso na conta de luz. Sempre sente.
Desvantagens da usina termelétrica: o lado prático
Além do custo, existe a questão do combustível. Uma termelétrica a gás consome algo em torno de 0,2 a 0,35 m³ de gás por kWh gerado. Uma usina de 500 MW rodando a pleno vapor gasta cerca de 350 mil metros cúbicos de gás por hora. Isso é um volume absurdo. E se o gás não estiver disponível ou o contrato não for renegociado, a usina desliga. Simples assim. Não tem como improvisar. Já trabalhei em projetos onde a usina precisava operar com gás de baixa pressão porque a rede de distribuição estava em manutenção preventiva. A turbina entrava em alarme de baixa pressão toda vez que a vazão caía abaixo de 8 bar. O workaround foi instalar um compressor booster portátil na entrada do compressor de combustível, alimentado por um gerador diesel dedicado. Funcionou. Mas isso aumentou o custo operacional em cerca de 18% e exigiu uma equipe extra de operação 24 horas. Nada disso aparece no folheto de venda da usina.
O fator de capacidade também é um problema real. Uma boa termelétrica a gás cicatriz pode atingir 85 a 90% de fator de capacidade, o que parece excelente. Mas isso depende de disponibilidade contínua de combustível e de manutenção. Quando uma turbina a gás precisa de uma parada programada para inspeção dos componentes quentes do motor a gás, ela sai do ar por 3 a 6 semanas. Uma usina hidrelétrica grande, por outro lado, pode ficar anos sem uma parada significativa de geração.
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Emissão: não é só o CO2
O dióxido de carbono é o problema mais óbvio, mas existem outros poluentes que muitas vezes são negligenciados. Óxidos de nitrogênio (NOx), dióxido de enxofre (SO2), material particulado fino e mercúrio. Uma usina a carvão pode emitir até 1.000 gramas de CO2 por kWh gerado. Uma a gás natural emite cerca de 400 gramas por kWh. Ainda é muito, mas é metade. A diferença parece pequena em números, mas em escala de uma rede nacional, é uma montanha de tonelada a mais na atmosfera. Também tem o resfriamento. Termelétricas precisam de água para o sistema de resfriamento do condensador. Uma usina de 1.000 MW pode consumir entre 30 e 60 milhões de litros de água por hora para manter o ciclo termodinâmico funcionando. Isso é água potável ou tratada, dependendo da localização. Se a usina fica perto de um rio com vazão reduzida durante a seca, ela entra em conflito direto com o abastecimento humano e com a manutenção da própria hidrelétrica a jusante.
Em 2019, fui chamado para analisar uma situação em uma usina termelétrica no interior de São Paulo. O rio onde a usina captava água para resfriamento estava com nível 30% abaixo da média histórica. A usina precisava reduzir a carga em 40% para não superaquecer o condensador e causar um shutdown não planejado. O operador local não tinha margem para isso porque o contrato de venda de energia era com delivery diário fixo. Nós resolvemos redirecionando parte da água de resfriamento para um tanque de armazenamento temporário, criando um buffer de 4 horas. Bastou para evitar o shutdown, mas aumentou o consumo energético próprio da usina em 7%. Perda dupla: eficiência e custo.
Vida útil e obsolescência
Uma termelétrica tem vida útil de 25 a 35 anos. Depois disso, os custos de manutenção disparam porque os componentes internos das turbinas a gás se desgastam e as trocadoras de calor perdem eficiência. Uma usina hidrelétrica, bem conservada, pode operar por 50 a 80 anos. A comparação não é justa do ponto de vista econômico, mas é honesta. O investimento inicial também é elevado. Construir uma usina termelétrica de 500 MW custa entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão, dependendo da tecnologia e da localização. O prazo de construção é de 2 a 4 anos. Uma usina hidrelétrica leva de 5 a 15 anos e custa entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões. Ambas são caras. A diferença é que a hidrelétrica gera energia praticamente gratuita depois de pronta, enquanto a termelétrica vai continuar consumindo combustível caro pelo resto da vida útil.
Existe ainda o problema da dependência geopolítica. Gás natural, óleo diesel, carvão: todos esses combustíveis têm preços internacionais voláteis. Um conflito no Oriente Médio, uma sanção à Rússia, uma decisão de política ambiental na China — tudo isso afeta o preço do combustível que alimenta a usina. A usina hidrelétrica não tem esse risco. Ela depende de chuva. Chuva é imprevisível, sim, mas não é manipulável por decisões políticas estrangeiras da mesma forma. O que eu vejo na prática é que a maioria dos erros de planejamento acontecem quando se usa termelétrica como solução permanente e não como complemento emergencial. O modelo brasileiro de leilões de energia empurra cada vez mais termelétricas para o mix porque elas são "rápidas". Rápidas para construir, rápido para ligar, rápido para desligar. Mas rápidas não significa econômicas. E quando a seca vem, o país inteiro paga a conta.