O que significa dizer que Deus é concreto ou abstrato
Essa pergunta aparece com frequência em discussões de filosofia da religião e teologia sistemática. A resposta curta é que depende de qual tradição filosófica você adota. A pergunta em si, deus é concreto ou abstrato, não tem uma resposta única porque os termos "concreto" e "abstrato" carregam significados diferentes em contextos diferentes. Na ontologia tradicional, algo concreto é aquilo que existe no tempo e no espaço, que tem causalidade efetiva sobre o mundo. Algo abstrato é aquilo que não ocupa posição espacial, não tem duração temporal, mas ainda assim pode ser verdadeiro ou falso. Números, conjuntos, propriedades são exemplos clássicos de entidades abstratas.
O problema é que a maior parte dos teístas não encaixa Deus confortavelmente em nenhuma dessas duas caixas. Quando você tenta forçar, surgem questões desconfortáveis rapidamente.
deus é concreto ou abstrato
Se você defende que Deus é concreto, está dizendo que Ele existe de forma similar a uma pessoa ou objeto. Ele estaria sujeito a causas, efeitos, localização. O risco imediato aqui é o antropomorfismo. Você começa a atribuir a Deus limites que na prática são características humanas. Se Deus está no tempo, Ele muda. Se Ele muda, Ele não é necessário. Se Ele não é necessário, todo o argumento cosmológico desmorona. Se você defende que Deus é abstrato, cai num problema diferente. Entidades abstratas não causam nada. Um número não interage com o universo físico. Se Deus é abstrato no sentido filosófico estrito, Ele não pode responder orações, não pode criar, não pode se revelar. Isso transforma a concepção de Deus num objeto estático, mais próximo de um princípio lógico do que de uma entidade pessoal.
Eu lidei com isso diretamente num seminário de filosofia da religião quando precisei explicar por que a tese do Deus como ser necessário não se resume a chamar Deus de abstrato. O professor da turma apresentou um argumento baseado na distinção entre existir necessariamente e existir contingencialmente. Aobjeção que ele levantava era simples: se Deus existe necessariamente, e coisas necessárias não têm propriedades espaciais ou temporais, então Deus seria abstrato. A resposta que eu dei, que na época levou uns vinte minutos para ser construída, foi que ser necessário não implica ser abstrato. Necessidade é um modo de existência, não um tipo de ontologia. Algo pode existir em todos os mundos possíveis e ainda assim ter propriedades relacionais, como causalidade e intencionalidade. A distinção entre concreto e abstrato não se sobrepõe perfeitamente à distinção entre necessário e contingente. Eles cortam o tecido ontológico em ângulos diferentes. Um detalhe que poucos mencionam: a tradição agostiniana e a tomista tratam Deus de maneiras radicalmente distintas nesse aspecto. Agostinho tende a aproximar Deus de formas platônicas, o que leva muitos intérpretes a classificá-lo como abstrato. Tomás de Aquino, por outro lado, insiste que Deus é ato puro, e ato puro é a forma mais intensa de concretude, porque é pura realidades sem qualquer potencialidade não realizada. Na visão de Aquino, Deus é mais concreto que qualquer criatura, porque as criaturas são misturas de ato e potência.
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Outro ponto que causa confusão constante é o uso do termo "concreto" na linguagem comum versus o uso técnico na filosofia. Na fala cotidiana, concreto significa tangível, palpável, visível. Deus não é concreto nesse sentido. A maioria dos teólogos sabe disso e não se importa. O termo técnico em ontologia é mais restrito: concreto é o que tem localização espaço-temporal e poder causal. Aí já fica mais difícil decidir. Uma linha contemporânea interessante, desenvolvida principalmente por filósofos como Alvin Plantinga e William Lane Craig, é a ideia de que Deus é uma pessoa necessária. Pessoas são entidades concretas por definição. Se alguém é necessário, essa pessoa existe em todos os mundos possíveis. Isso resolve parte do problema sem precisar escolher entre concreto e abstrato da forma tradicional. O contra-argumento mais forte contra essa posição é que não está claro como uma pessoa pode existir necessariamente. Pessoas normais são contingentes. Elas dependem de condições específicas para existir. Se Deus é necessário, Ele não depende de nada. Mas se Ele não depende de nada, Ele deixa de ser uma pessoa no sentido usual.
Há também a abordagem da teologia negativa, que simplesmente recusa a classificação. Diz-se que Deus transcende categorias humanas. Isso soa como um escape, mas na prática tem fundamento. Toda a nossa ontologia foi construída dentro do universo físico. Estender essas categorias para além do universo é um salto que ninguém consegue justificar completamente. A resposta "Deus é concreto" ou "Deus é abstrato" ambas cometem o erro de aplicar categorias finitas a um ente infinito. Um exemplo prático do tipo de problema que surge: em discussões sobre a oração, se Deus é abstrato, orar é inútil porque entidades abstratas não escutam. Se Deus é concreto, alguém pode argumentar que Ele está limitado pelo espaço e tempo da mesma forma que nós. Ambas as posições têm consequências teológicas sérias. A maioria dos teístas opera num território intermediário onde Deus tem propriedades tanto de concretude quanto de abstração, mas isso precisa ser formulado com cuidado para não ser contraditório.
A tradição clássica resolve isso com a noção de que Deus é simples, ou seja, sem partes. Simplicidade divina significa que não há divisão entre essência e existência em Deus. Isso elimina a necessidade de classificar Deus dentro de categorias de partes e propriedades separadas. Se Deus não tem partes, não faz sentido perguntar se Ele é concreto ou abstrato da mesma forma que não faz sentido perguntar se um ponto geométrico é pesado ou leve. A pergunta aplica uma categoria onde ela não se encaixa. Para quem quer se aprofundar no tema, os textos fundamentais estão em artigos sobre a natureza necessária de Deus na Stanford Encyclopedia of Philosophy, seção sobre Arguments for the Existence of God. Também há discussão relevante em trabalhos de Eleonore Stump e Norman Kretzmann sobre a eternidade divina e a classificação ontológica. A bibliografia em português é mais limitada, mas há traduções de textos clássicos de Francisco Suazo e discussões contemporâneas em revistas de filosofia brasileira que abordam especificamente a distinção concreto-abstrato aplicada a conceitos teológicos.
O que eu posso afirmar com segurança é que a pergunta "deus é concreto ou abstrato" é útil como ferramenta diagnóstica. Ela revela o que cada posicionamento implícita sobre a natureza de Deus. Se você acha que Deus é concreto, provavelmente valoriza um Deus pessoal e relacional. Se você acha que Deus é abstrato, provavelmente valoriza um Deus atemporal e imutável. O problema é que os dois valores frequentemente se contradizem. Nenhuma posição resolve isso de forma elegante. A simplicidade divina é a melhor tentativa que temos, mas exige aceitar que a lógica comum não se aplica da mesma maneira nesse domínio.