Devido O Ou Devido Ao - Não pode garotear 23: Devido o ou Devido ao? - GEN Jurídico
Não pode garotear 23: Devido o ou Devido ao? - GEN Jurídico

Como usar "devido a" — e o motivo pelo qual a maioria dos falantes erra

Você provavelmente já viu "devido o" sendo usado em documentos, e-mails e até materiais publicados. É um erro comum que vem de duas coisas: não perceber que o "a" é uma preposição separada, e confundir os casos em que "devido" funciona como adjetivo. A regra é simples quando você para de tentar decorá-la e pensa na estrutura gramatical. "Devido" nessa construção é uma locução prepositiva, o que significa que ela exige a preposição "a". O que vem depois dela é o termo regido. A crase só aparece quando esse termo regido leva o artigo definido feminino "a". Em tudo o que for masculino ou indefinido, simplesmente não há o que contrair.

devido o ou devido ao — qual a diferença?

"Devido o" está errado. Sempre. O correto é devido a (sem crase) ou devido ao / devido à (com crase). A confusão acontece porque as pessoas pensam que "devido ao" é uma forma fixa, quando na verdade é apenas a contração da preposição "a" com o artigo definido masculino "o". Se o substantivo seguinte for feminino definido, vira "devido à". Se for masculino definido, vira "devido ao". Se não tiver artigo definido, fica "devido a". Exemplos práticos:

O atraso foi devido ao chuva forte. (preposição "a" + artigo "o") O atraso foi devido à falta de comunicação. (preposição "a" + artigo "a")

O atraso foi devido a problemas técnicos. (preposição "a" sem artigo) O atraso foi devido a um imprevisto. (indefinido — não há crase)

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O atraso foi devido a essa situação. (demonstrativo — não há crase) O que muita gente não leva em conta é que o uso de "devido" como adjetivo, que concorda em gênero e número, segue regras diferentes. Quando "devido" é adjunto adnominal ou predicativo do sujeito, ele se flexiona: "as multas foram devidas", "os prejuízos foram devidos". Nesse caso, ele não regge preposição "a" — é simplesmente um adjetivo concordando com o substantivo. A diferença prática é que, se você puder trocar por "causado por" ou "atribuído a", usa-se a locução prepositiva. Se puder trocar por "merecido" ou "justo", é adjetivo.

Eu me deparei com isso de forma bem específica enquanto revisava uma série de contratos de prestação de serviços. Havia uma cláusula que dizia algo como "os danos serão devidos o atraso da outra parte". Parece uma confusão inocente, mas em um contrato jurídico o erro muda completamente a interpretação. Eu corrigi trocando para "os danos serão devidos ao atraso da outra parte", mantendo a preposição e ajustando a contração. O problema real foi que o redator original estava misturando duas construções — usando "devido" como se fosse um adjetivo (com concordância) e ao mesmo tempo tentando regê-lo como preposição. O resultado era uma oração sem sentido gramatical, mas que passava despercebida porque a leitura rápida disfarçava o erro. Outro detalhe que poucas fontes mencionam: quando o termo regido é um plural, o "a" da preposição se contrai com o artigo plural "as". Então fica "devido às". Exemplo: "O cancelamento foi devido às condições climáticas." Não existe "devido aos" no sentido prepositivo — esse forma seria um adjetivo no masculino plural concordando com um sujeito masculino plural, como em "Os custos foram devidos aos novos regulamentos", onde "devidos" é adjetivo e "aos" é a contração correta da preposição exigida pelo contexto. É borderline, e por isso causa tanta confusão.

Também vale notar que essa regra tem uma limitação prática séria. Em textos informais, especialmente em redes sociais e mensagens rápidas, os falantes nativos frequentemente omitem o artigo antes de substantivos abstratos. Isso gera construções ambíguas como "devido a problemas" versus "devido aos problemas". A primeira é genérica — problemas em geral. A segunda é específica — os problemas determinados que estão sendo discutidos. Perder essa distinção não é um erro gramatical, mas é um erro comunicativo que pode mudar o significado inteiro da frase. Se você quer uma forma infalível de saber se deve usar crase, faça o teste inverso: substitua o substantivo feminino por um masculino. Se a frase ainda funcionar com "ao", então o original pede "à". Exemplo: "devido à falta" "devido ao atraso". Ambas funcionam, então "falta" pede crase. Já "devido a problemas" "devido a atrasos". Sem artigo, sem crase. O teste funciona na grande maioria dos casos, exceto quando o substantivo não tem plural natural ou quando o contexto exige algum tratamento especial que a substituição não preserva.

O resumo é: esqueça a ideia de "devido o". A forma correta varia entre "devido a", "devido ao" e "devido à", dependendo do artigo que acompanha o substantivo regido. E em contratos, revisões técnicas ou qualquer documento onde a precisão importa, perder três segundos verificando a crase evita muito trabalho de retrabalho depois.