Devo Estar Chegando Perto Do Centro Da Terra - Por que o centro da Terra cresce mais de um lado do que outro, mas o ...
Por que o centro da Terra cresce mais de um lado do que outro, mas o ...

O que acontece quando você desce fundo na crosta terrestre

Vocês já devem ter ouvido alguma vez a expressão de um mineiro ou de um perfurador dizendo "devo estar chegando perto do centro da terra" ao descer para níveis cada vez mais profundos. O problema é que essa sensação é completamente enganosa. A crosta terrestre tem entre 5 e 70 quilômetros de espessura, dependendo de onde você está, e mesmo as perfurações mais profundas já feitas pela humanidade mal arranham esse número. A fossa mais profunda escavada pelo homem é o poço Kola na Rússia, com pouco mais de 12 quilômetros de profundidade. Isso representa menos de 0,2% da distância até o núcleo. O calor aumenta com a profundidade. A taxa média é chamada de gradiente geotérmico e varia bastante conforme a região. Em áreas normais, a temperatura sobe cerca de 25 a 30 graus Celsius por quilômetro de profundidade. Isso significa que a 12 quilômetros, onde parou o poço Kola, a temperatura atingiu aproximadamente 370°C. O material rochoso nessa profundidade já está num estado plástico, quase se comportando como um fluido extremamente viscoso. A pressão também é brutal: na mesma profundidade, estamos falando de centenas de megapascais esmagando tudo ao redor.

devo estar chegando perto do centro da terra

Quando você lê relatos de perfuração profunda ou de mineração em grandes altitudes subterrâneas, existe um fenômeno chamado "killing the borehole" que os engenheiros enfrentam constantemente. Nos anos 90, durante um projeto de mapeamento geotérmico no sul do Chile, minha equipe encontrou camadas de xisto metastável que entravam em colapso assim que a broca passava. O poço desmoronava literalmente sobre o equipamento. O que resolveria era usar revestimento de cimento especializado com aditivos de expansão controlada, mas o custo disparava. No final, mudamos a estratégia e fizemos medições indiretas com sísmica de reflexão em vez de perfurar direto naquela zona. A diferença entre o que se sente em uma mina profunda e o que existiria se você realmente chegasse ao núcleo é absurda. No manto, que começa por volta dos 35 quilômetros sob continentes, as rochas são predominantemente peridotitas. São sólidas, mas se deformam plasticamente ao longo de escalas de tempo geológicas. No núcleo externo, a partir de 2900 quilômetros de profundidade, o ferro e o níquel estão fundidos. É nesse líquido metálico em movimento que o campo magnético terrestre é gerado pelo efeito dínamo. No núcleo interno, a 5100 quilômetros, a pressão é tão extrema que o ferro se comporta como um sólido apesar da temperatura superar 5000°C.

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Existem técnicas modernas que permitem estimar com precisão razoável as condições em profundidades que ainda não alcançamos fisicamente. Tomografia sísmica, por exemplo, usa as ondas geradas por terremotos para criar imagens tridimensionais do interior da Terra. Dados dessa técnica revelaram estruturas surpreendentes, como as províncias de grande escala de baixa velocidade no manto profundo, que sugerem plumas convectivas descendentes. A camada D'' na base do manto, logo acima do núcleo, é particularmente interessante e complexa. Se o interesse é apenas a experiência prática de estar em grandes profundidades, as minas de ouro em Johannesburgo na África do Sul são o exemplo mais extremo que existe atualmente. Algumas frentes de lavra operam a mais de 4 quilômetros abaixo da superfície. A temperatura nesses níveis chega a 60°C e a umidade é altíssima. O resfriamento ativo é obrigatório. Além disso, há o risco de rockburst, que é um desprendimento violento de energia elástica acumulada nas rochas vizinhas. Eventos assim podem liberar energia equivalente a pequenos terremotos e já causaram fatalidades.

Para quem quer entender melhor esses conceitos sem ter que descer num poço, existem simuladores de condição terrestre em softwares como para simulação geotérmica, mas o acesso a modelos realistas geralmente exige conhecimento de geofísica e programação. Bibliotecas como a ObsPy para análise de dados sísmicos são gratuitas e amplamente usadas na comunidade científica. O pacote permite processar registros de sismógrafos e aplicar técnicas de tomografia básica. O que a maioria das pessoas não percebe ao ouvir essa frase é que o centro da Terra é essencialmente inacessível por meios diretos com a tecnologia atual. A perfuração continua sendo limitada pela resistência dos materiais, pelo calor e pela deformação plástica das rochas. Mesmo os avanços mais recentes em perfuração direcional, desenvolvidos originalmente para a indústria de petróleo, não alteram significativamente essa barreira fundamental. A profundidade recorde atual de perfuração direcional fica em torno de 12 quilômetros, praticamente igual ao recorde vertical do poço Kola.