O que você precisa saber sobre o dia do assistente social
O 9 de abril é a data oficial da categoria no Brasil, instituída pela Lei 5.608/1969. Nada místico nisso. É um marco legal que reconhece a profissão, ponto. O Conselho Federal de Serviço Social (CRESS) organiza eventos em todo o país, mas a grande maioria dos assistentes sociais nem participa dessas solenidades. A rotina puxa para outro lado. A origem remonta ao Congresso Brasileiro de Serviço Social de 1969, em Brasília. O coletivo da época decidiu fixar essa data como forma de dar visibilidade institucional a uma categoria que trabalhava majoritariamente na clandestinidade ou em estruturas precárias durante a ditadura. O contexto histórico importa porque ele explica por que ainda hoje existe uma tensão entre o que se celebra em april e o que se pratica no resto do ano.
dia do assistente social
Nesse dia, os fóruns regionais do CRESS costumam realizar atividades coletivas. Algumas prefeituras e universidades promovem palestras. Sindicatos e associações de classe enviam comunicados. Mas o que vejo repetidamente acontecer é isso: a data virar mais um item na agenda de quem já trabalha sobrecarregado. Eu tive um caso específico num serviço de saúde pública onde a coordenação pediu que eu fosse a um evento institucional às 14h de um dia 9 de abril, quando eu tinha agenda cheia de atendimentos agendados e um relatório de encaminhamentos para entregar no mesmo dia. O que eu fiz foi negociar com a equipe a divisão das visitas domiciliares para aquele turno e levei apenas um grupo pequeno ao evento. Funcionou porque a estrutura da equipe permitia flexibilidade. Se a unidade fosse menor, a coisa travaria. O problema real não é a data em si. É a expectativa de que ela resolva questões estruturais. Celebrações isoladas não mudam a carga de trabalho, os salários ou a precarização que muitos assistentes sociais enfrentam diariamente. Isso é óbvio, mas vale repetir porque as instituições adoram usar a data para foto institucional sem nada além.
Um detalhe que poucos mencionam: a legislação federal não obriga empresas ou órgãos públicos a conceder qualquer tipo de folga ou benefício nesse dia. O assistente social trabalha normalmente. A única exceção prática aparece em certains estados e municípios que têm portarias internas prevendo atividades comemorativas durante o expediente, mas isso varia muito de lugar para lugar. Em São Paulo, por exemplo, o CRESS-SP tem tradição de eventos maiores. Em Minas Gerais, o CRESS-MG foca mais em debates políticos. Não existe um padrão uniforme nacional.
Como a data funciona na prática para quem está na linha de frente
Se você é assistente social e quer aproveitar o 9 de abril de verdade, sem cair no lugar-comum, o caminho é mais organizado do que parecer. Comece verificando o calendário do seu CRESS regional. Eles publicam os eventos com semanas de antecedência na maioria dos estados. Anote os que realmente interessam para sua prática. Não é necessário estar em tudo. Dentro do serviço onde você atua, a coisa muda de figura. Se você coordena uma equipe ou tem influência nas decisões, propõe algo concreto. Pode ser um debate interno sobre um tema técnico que a equipe está enfrentando, uma revisão de protocolos, ou simplesmente um espaço de escuta coletiva. Isso leva cinco minutos para organizar e tem mais efeito do que qualquer palestra genérica.
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Eu já vi assistentes sociais usarem a data para pressionar por melhorias reais. Um caso que ficou gravado: num município do interior de São Paulo, a equipe de assistência social usou o 9 de abril para pedir formalmente ao prefeito a abertura de três vagas que estavam fechadas há dois anos por falta de reposição de pessoal. A estratégia foi apresentar um documento técnico datado daquele dia, com dados de atendimento e lista de famílias em espera. A pressão foi institucional, não simbólica. Dois meses depois, duas das três vagas foram preenchidas. Não foi mágica. Foi persistência com argumento técnico. Outro ponto que merece atenção: a data é frequentemente apropriada por instituições para fins de comunicação positiva, sem que os trabalhadores sejam consultados. Se você recebe um e-mail pedindo que posicione para uma foto ou Assine um documento em nome do 9 de abril, leia com calma antes de concordar. Nada impede que você participe, mas é bom saber o que está assinando.
O que a categoria realmente precisa além da data
O Serviço Social no Brasil tem problemas estruturais que o 9 de abril não resolve. A precarização contratual cresce, especialmente com os contratos temporários e as terceirizações em serviços públicos. A carga de trabalho cresce junto com a redução de efetivos. A formação de muitos cursos de graduação ainda peca pelo excesso de teoria e pela falta de vínculo com a realidade dos serviços. Essas são questões que se discutem o ano inteiro. Existe também uma tensão histórica entre o posicionamento político da categoria e a necessidade de sobrevivência no mercado. O Código de Ética Profissional de 1993 (Resolução CRESS nº 68/2000, atualizada) estabelece diretrizes claras, mas a aplicação prática depende de cada contexto institucional. Em serviços privados ou em ONGs com pouca estrutura de representação coletiva, o código pode ser pouco mais do que um documento bonito na parede. Eu já vi assistentes sociais serem pressionados a assumir casos acima da capacidade da equipe sob a justificativa de "compromisso ético". Isso não é ética. É exploração disfarçada.
O CRESS tem um papel importante, mas também tem limitações. A atuação dos conselhos regionais varia enormemente. Alguns são bastante ativos na defesa da categoria. Outros têm atuação mais moderada. A fiscalização do exercício profissional acontece, mas de forma desigual. Há regionais que multam regularmente, outros que praticamente não aplicam sanções. Se você tem um problema concreto com exercício ilegal da profissão ou com condições precárias de trabalho, o caminho pelo CRESS existe, mas pode ser lento. Prepare documentação, registre tudo por escrito e mantenha cópias.
Datas complementares que valem a pena acompanhar
Além do 9 de abril, existem outras referências no calendário profissional. O 1º de maio tem significado especial porque coincide com a data da criação do Ministério do Trabalho, e muitos assistentes sociais que atuam na área trabalhista fazem reflexões sobre o lugar da categoria nessa esfera. O 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, também é marcado por coletivos que questionam o racismo estrutural nos serviços sociais. São datas que dialogam com questões que o assistente social enfrenta no dia a dia. Se você quer se manter informado sobre questões da categoria, os canais oficiais do CRESS da sua região são o ponto de partida. As publicações técnicas, as resoluções normativas e os documentos de posicionamento são onde a categoria se organiza de fato. A data de abril é um momento, mas o trabalho de categoria se faz o ano inteiro.
O que posso dizer com base no que tenho visto: o assistente social que sabe usar o 9 de abril como alavanca política e técnica, em vez de apenas celebratório, sai na frente. O que não sabe, acaba no mesmo lugar de sempre. A escolha é sua.