Diferença Entre Cateter De Shilley E Permcath - Cateter de Shilley x Permcath: semelhanças e diferenças | Dr ...
Cateter de Shilley x Permcath: semelhanças e diferenças | Dr ...

Cateteres de diálise: o que realmente muda na prática

Vou direto ao ponto porque todo mundo já leu a bula e ninguém quer mais. A diferença entre cateter de Shiley e Permcath não é só questão de marca ou preferência do médico. São dispositivos com perfis clínicos distintos, e escolher um ou outro tem consequências reais no paciente, na durabilidade e nos custos.

Diferença entre cateter de shilley e permcath

O cateter Shiley é fabricado pela B. Braun (antiga Hospal/Kt, e antes disso Dialyte). É um cateter de silicone não tunelizado ou tunelizado, dependendo da versão. O mais comum em unidades de diálise é a versão não cuffed, aquela que entra direto pela veia e não tem aquele anel de Dacron para fixação tecidual. Isso significa que ele tende a sair mais fácil, mas também permite remoção e reposicionamento sem procedimento cirúrgico. O material é silicone puro, o que torna o cateter mais flexível, menos traumático para a veia, mas também mais propenso a colapso sob pressão negativa elevada durante a infusão de hemoderretivos ou quando a bomba de infusão puxa muito forte. O Permcath, por sua vez, é da Bard. É categorizado como cateter tunelizado e cuffed. O cuff de Dacron cresce no tecido ao redor depois de algumas semanas, o que reduz drasticamente o risco de deslocamento e infecção. Isso é vantajoso para pacientes que precisam de acesso vascular prolongado. O problema é que a inserção exige dissecção subcutânea, tunnelização, e um tempo de maturação de pelo menos duas semanas antes do uso definitivo. Na urgência, você não tem duas semanas. Já vi situações onde o paciente entrou em uremia aguda e a única saída foi usar um Shiley não cuffed mesmo, esperando que o Permcath fosse plantado quando o quadro estabilizasse.

Outro detalhe que pouca gente menciona: a curvatura das pontas. O Permcath tem um design de ponta mais rígido e curvado de forma mais acentuada, otimizado para se apoiar na parede do átrio direito. O Shiley, sendo mais flexível, tende a migrar mais facilmente para posições indesejadas, como a veia jugular interna ipsilateral ou até o ventrículo direito. Isso exige verificação radiológica pós-instalação e, muitas vezes, reposicionamento. Eu já perdi uma tarde inteira tentando reposicionar um Shiley que tinha entrado pelajugular esquerda e ido parar na veia mamária interna. A solução foi trocar para um kit de guia mais rígido e fazer uma manobra de rotação do cateter sob fluoroscopia. Demorou 45 minutos. Com um Permcath, esse problema seria muito menos frequente por causa do design mais previsível. A durabilidade também difere. O Permcath, por ser tunelizado e cuffed, tem vida útil média de 12 a 18 meses, dependendo da taxa de complicações infecciosas. O Shiley não cuffed dura em média 3 a 6 meses. Isso porque cada punção repetida pelo enfermeiro ou técnico aumenta o risco de biofilme e colonização bacteriana. Eu já vi Shirey com mais de 8 meses funcionando, mas aí o fluxo já estava comprometido e o paciente precisava de trombolíticos a cada sessão. O Permcath nessa situação ainda mantém fluxo adequado porque o cuff protege o trajeto subcutâneo.

Em termos de fluxo sanguíneo, o Permcath em geral oferece maiores vazões, principalmente os modelos de dupla luz com diâmetro interno maior. Isso é crítico para pacientes que fazem hemodiálise com débito de sangue acima de 300 mL/min. O Shiley, especialmente os modelos mais finos, pode limitar o débito e gerar recirculação, o que se traduz em sessões mais longas e menor clearance. Se o paciente está com acesso transitório, sem perspectiva de fístula, o Permcath é quase sempre a melhor opção. Se é um acesso de emergência ou ponte até a criação da fístula, o ShileyResolve. Existe ainda a questão dos recalls. Em 2023, a Anvisa notificou a suspensão de comercialização de alguns lotes de cateteres Permcath por defeito de fabricação no sistema de conexão. Pacientes que estavam usando esses lotes tiveram que ter o cateter trocado. Foi um transtorno enorme nas unidades. Eu tive três pacientes com Permcath desses lotes na mesma semana. Dois apresentaram desconexão acidental durante a hemodiálise. O terceiro teve embolia gasosa por uma microfissura no hub que ninguém percebia visualmente. Após a notificação, eu passei a verificar o número de lote de todos os Permcath que chegavam e cross-checkar com a lista da Anvisa antes de qualquer inserção. Isso levou cerca de 10 minutos extras por procedimento, mas evitou incidentes.

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O custo também influencia a escolha. O Shiley é consideravelmente mais barato, o que o torna viável para sistemas públicos de saúde onde o orçamento é apertado. O Permcath custa cerca de três a quatro vezes mais. Em regiões onde o SUS fornece os dois, a decisão muitas vezes recai no Shiley por disponibilidade imediata, mesmo sabendo das limitações de durabilidade e fluxo. Se o orçamento permitir, o Permcath é superior em praticamente todos os parâmetros, exceto velocidade de instalação.

Quando escolher um ou outro: uma análise prática

Na prática clínica, a escolha depende de três fatores principais: tempo estimado de uso, perfil de risco do paciente e urgência do acesso. Se o paciente vai precisar de cateter por mais de três meses, o Permcath é indicado. Se for menos, o Shiley atende. Pacientes com histórico de infecções de pele ou que têm dificuldade de seguir orientações de curativo se beneficiam mais do Permcath, porque o cuff e o trajeto tunelizado oferecem proteção adicional. O Shiley, exposto diretamente pela pele, é mais suscetível a contaminação. Pacientes em quimioterapia também merecem menção. O Shiley é frequentemente usado como cateter venoso central para administração de quimioterápicos, enquanto o Permcath é especificamente desenhado para hemodiálise. Os lúmens, as espessuras das paredes e os materiais são otimizados para funções diferentes. Usar um Permcath para quimioterapia é possível, mas não ideal. E usar um Shiley de diálise para quimioterapia prolongada gera problemas de obstrução porque o lume é maior e o fluxo de drogas irritantes pode danificar a parede do cateter.

Uma coisa que observo há anos: muitos profissionais acham que o Shiley é "inferior" porque é mais barato. Isso não é verdade. Ele é adequado para indicações específicas. Um Shiley bem instalado, com técnica asséptica rigorosa e manutenção adequada de lumen com citrato ou heparina, pode funcionar perfeitamente por meses. O problema surge quando se tenta extrair desempenho de diálise de um cateter que não foi desenhado para isso. O fluxo fica baixo, o tempo de sessão aumenta, e no final as contas não fecham nem para o paciente nem para a unidade. O Permcath, por outro lado, tem suas próprias desvantagens. A instalação é mais invasiva, requer procedimento em centro cirúrgico ou sala de angiografia, tem maior risco de pneumotórax e hemotórax na inserção, e o custo elevado pode limitar o acesso. Além disso, uma vez instalado, se houver infecção do cuff, muitas vezes é necessário remover o cateter inteiro e esperar a cura antes de colocar outro, o que pode levar semanas. No Shiley, uma infecção de stoma pode ser tratada localmente com antibióticos tópicos e sistêmicos, e o cateter pode ser mantido na maioria das vezes.

Se você trabalha em uma unidade de diálise e precisa tomar decisões diárias sobre qual cateter usar, o mais importante é documentar o motivo da escolha. Anotar no prontuário se foi Shiley ou Permcath, o número de lote, a data de instalação e a justificativa clínica protege você e a instituição. Já vi ações judiciais contra unidades por uso inadequado de cateteres, e a falta de documentação foi determinante em várias decisões. Para quem está começando na nefrologia ou no cuidado com acesso vascular, o conselho mais simples é: conheça o equipamento que você tem disponível na sua instituição. Um Permcath mal instalado é pior que um Shiley bem instalado. A técnica de inserção, a antissepsia, o curativo e o manejo diário do cateter fazem mais diferença do que a marca ou o modelo em si. Eu já vi Permcath com infecção recorrente porque o curativo era feito de forma inadequada, e já vi Shiley funcionando perfeitamente por oito meses em um paciente extremamente cuidadoso. O dispositivo é ferramenta, não solução.

O que eu aprendi com experiência própria é que a diferença entre Shiley e Permcath não deve ser vista como uma dicotomia entre bom e ruim, mas como um espectro de indicações. Cada cateter resolve um problema diferente. O especialista em acesso vascular sabe que a pergunta certa não é "qual é melhor", mas "qual é o mais adequado para este paciente nestas circunstâncias". Isso exige conhecimento do dispositivo, do paciente e do contexto institucional. Quando esses três pontos se alinham, o resultado é previsível e seguro. Quando não se alinham, o paciente paga o preço.