Diferencie As Ideias Dos Profetas Do Passado Do Positivismo - Diferencie As Ideias Dos Profetas Do Passado Do Positivismo - RETOEDU
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Positivismo e profetas: uma confusão que vejo todo dia

Muita gente ainda trata o positivismo como se fosse apenas uma versão secularizada da religião. Isso não é verdade. E quando você começa a lecionar ou a debater isso em meio acadêmico, percebe que a linha que separa os dois é muito mais fina do que parece à primeira vista, mas também muito mais real do que muitos querem admitir. O positivismo, tal como construído por Auguste Comte a partir dos anos 1820, propunha que a humanidade só atinge o conhecimento verdadeiro quando abandona a explicação teológica e metafísica dos fenômenos. Ou seja, não basta acreditar que Deus age nos eventos. Basta observar, medir, correlacionar. A sociedade deveria ser governada por homens de ciência, não por padres. Isso já soa quase profético para quem lê com pressa.

diferencie as ideias dos profetas do passado do positivismo

A diferença central está no fundamento epistemológico. O profeta do passado — moisés, isaías, buda, muhammad — recebe uma revelação que não passa pelo crivo experimental. A autoridade vem de fora do sujeito que fala. No positivismo, a autoridade vem do método. Você pode refutar comite se apresentar dados contrários. Não há espaço para apelo à autoridade divina. Comte chegou a criar a Religião da Humanidade nos seus últimos anos, o que confunde muita gente, mas isso foi um projeto sociopolítico, não epistemológico. Na prática, quando eu vejo alguém tentando equivaler os dois, o problema aparece na avaliação. Eu dava uma prova sobre opositivismo em 2019 e um aluno escreveu que Comte era um profeta moderno. Na correção, não tinha como tirar ponto. O texto do aluno estava bom. A classifição estava errada. Eu precisava explicar que Comte não afirmava receber comunicações divinas. Ele afirmava que a observação sistemática substitui a revelação. Duas coisas opostas.

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Outro detalhe que os manuais não destacam o suficiente: os profetas falavam no nome de uma tradição que precedia seu tempo. O positivismo pretendia romper com o passado. Comte queria fundar uma nova era, a Era Positiva. Isso é uma atitude profética em forma, mas o conteúdo é anti-profético. Ele dizia que a fase teológica, aquela dos profetas, estava superada. Era um movimento que se autodefinia como pós-teológico. Existe ainda uma armadilha comum que eu vejo candidatos a mestrado caírem. Apegar-se à ideia de que o positivismo é "ciência pura" sem perceber que Comte era profundamente normativo. Ele queria determinar como a sociedade deveria ser organizada. Isso é diferente de descrever como ela é. Filósofos da ciência como Popper e Kuhn depois mostraram que até a ciência natural carrega pressupostos teóricos. A pretensão de neutralidade absoluta do positivismo logico se desfez nas últimas décadas do século XX.

Se você está estudando isso para uma prova ou para escrever um artigo, o caminho mais seguro é separar três níveis: o nível teológico dos profetas, o nível filosófico do positivismo clássico e o nível sociológico da Religião da Humanidade. Confundir esses três níveis gera erros que parecem sutis mas são estruturais. Eu costumo recomendar que leiam o Curso de Filosofia Positiva, volumes um e dois, direto de Comte, e depois comparando com trechos escolhidos dos profetas hebraicos. A diferença de tom é reveladora. Um fala no imperativo divino. O outro no imperativo do método. O risco de não fazer essa distinção é acabar aplicando opositivismo em áreas que não se beneficiam dele. Já vi pesquisadores tentarem usar o método positivista em estudos qualitativos de religião e obterem resultados que nada tinham a ver com a experiência vivida dos sujeitos. O positivismo funciona bem quando o objeto é mensurável e replicável. Quando o objeto é fé, revelação, experiência mística, ele reduz o fenômeno a variáveis que não capturam nada do que realmente está em jogo.

Uma alternativa que funciona melhor nesses casos é o entendimento hermenêutico. Em vez de explicar o fenômeno religioso como erro a ser corrigido pelo método, você tenta compreendê-lo a partir dos significados que os agentes atribuem a si mesmos. Isso não invalida o positivismo. Apenas delimita onde ele é útil e onde ele perde a razão de existir. Se quiser aprofundar, os comentários de Émile Littré sobre Comte são um bom ponto de partida porque Littré conseguiu manter o núcleo científico do movimento sem cair na teología da Humanidade. É exatamente essa distinção que permite diferenciar as ideias dos profetas do passado do positivismo sem cair na simplificação de que um é ciência e outro é superstição. A realidade é mais matizada do que esse binômio permite.