Ditadura Militar Desenvolvimento Econômico E Desigualdade - Milagre econômico na Ditadura Militar by Gabriela Bernini on Prezi
Milagre econômico na Ditadura Militar by Gabriela Bernini on Prezi

Entendendo o período militar brasileiro sob uma ótica prática

A ditadura militar no Brasil, que durou de 1964 a 1985, é um tema que gera muita conversa mal fundamentada. Eu já li dezenas de artigos e debates que confundem correlação com causalidade o tempo todo. O que vou explicar aqui é o que os dados realmente mostram quando você separa o mito da realidade. O crescimento econômico durante o regime foi real em certos períodos. O PIB brasileiro cresceu em média cerca de 10% ao ano entre 1968 e 1973, um período que os economistas chamam de "Milagre Brasileiro". Isso não é controverso nos livros de economia. O que é controverso é como interpretar esse número.

ditadura militar desenvolvimento econômico e desigualdade

O detalhe que a maioria das pessoas deixa passar: aquele crescimento altíssimo não se refletiu na distribuição de renda. O índice Gini, que mede desigualdade, piorou significativamente durante os anos de maior crescimento. Em 1960, o Gini eraAround 0,53. Em 1979, já estava perto de 0,63. A torta ficou maior, mas o corte foi desproporcionalmente para cima. Eu precisei working with dados históricos de renda e PIB para um projeto acadêmico e passei semanas tentando conciliar números que pareciam contraditórios. O problema é que os dados oficiais do IBGE daquela época têm limitações sérias. O Censo de 1970 subestimou a renda dos mais pobres porque a metodologia de pesquisa domiciliar não cobria bem moradores de favelas e áreas informais. Quando você aplica correções baseadas em pesquisas posteriores, a desigualdade medida fica ainda mais alta do que os números oficiais mostram.

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Uma coisa que poucos mencionam: o modelo de desenvolvimento daquele período dependia fortemente de endividamento externo. O governo pegava dinheiro no exterior a taxas variáveis e investia em infraestrutura pesada — estradas, usinas, complexe — enquanto mantinha salários reais contidos. A política salarial do AI-5 em diante, que congelava e indexava de forma a perder poder de compra, foi intencional. Não foi um acidente. Foi política econômica deliberada. O banco central da época tinha autonomia zero. As decisões de taxa de juro e crédito vinham diretamente do Executivo. Isso permitia manter juros reais negativos por anos, o que funcionava como um imposto disfarçado sobre poupança e salário. Funcionou até 1982, quando a crise da dívida latino-americana chegou e o modelo quebrrou.

Um ponto que as pessoas costumam errar: não dá para dizer simplesmente que "a ditadura trouxe crescimento" ou que "a ditadura destruiu a economia". A resposta depende do recorte temporal. Entre 1964 e 1967 houve estagnação quase total, com inflação disparando e investimento caindo. O recovery veio depois, com o Plano de Ação Governamental (PAG) de 1968, reforms fiscais como o ADCT e a criação de instrumentos como o BACEN e o SFH. A desigualdade, porém, só começou a melhorar timidamente no final dos anos 70, e mesmo assim de forma muito lenta. Se você quer se aprofundar nos dados, os melhores trabalhos acadêmicos sobre o tema são de autores como Carlos Langoni, que já publicava sobre desigualdade nos anos 1970, e os documentos do IPEA que resgatam séries históricas corrigidas. O Banco Mundial também tem uma base de dados com estimativas revisadas do Gini brasileiro desde 1960 que é bastante confiável.

O legado mais duradouro daquele período talvez seja institucional. As estruturas de crédito subsidiado, os bancos estaduais, a política de substituição de importações com forte papel estatal — tudo isso persistiu de alguma forma nas décadas seguintes. A desigualdade estrutural que o Brasil carrega hoje tem raízes que passam por aquele período, mas também por séculos anteriores. É importante não simplificar demais.